Pride

Divina Aloma: a carreira de uma diva da ilusão

Por Neto Lucon (2010)

Diva dos palcos, das plumas e dos paetês, a artista trans Divina Aloma, de 64 anos, é uma das memórias que continuam vivas, pulsantes, dublando e brilhando. Representa a história da noite gay, a qualidade de uma performance e o amor à arte. 

Aos 17, iniciou a carreira no Teatro Rival, Rio de Janeiro, vestindo estrelas como Ângela Leal, Rogéria e Jane di Castro. “Olhava encantada para os espetáculos de transformismo e sonhava um dia estar ali. Trabalhar como vestidora foi mais um meio de entrar na carreira”, declara.

Em 68, Aloma estreou como artista na revista musical “Bonecas em Ritmo de Aventura”, depois “Liberdade para as Bonecas”. E não parou mais. “A gente trabalhava com carteira de artista, pois existia a censura federal. Eles vinham ao teatro, a gente mostrava a carteira e encenava tudo a tarde o que iríamos apresentar a noite”, lembra.

Ao contrário dos atuais shows, os espetáculos da época eram ao vivo e com orquestra. Sua feminilidade e talento, todavia, começaram a desagradar algumas das estrelas. “Elas diziam: Neguinha, não esquece que você sempre será uma vestidorazinha, hein? E eu respondia: Pois saiba que um dia serei melhor ou igual a vocês.”

Baiana radicada no Rio de Janeiro, Aloma veio a São Paulo em 72, através de um cabeleireiro conhecido da época, Gigi, e já começou no universo gay: a Medieval. Nas apresentações, interpretava e dançava as Lady Gagas da época: Elza Soares, Diana Ross, Dona Summer e Gloria Gaynor.

“Em um mês de apresentação, passei a ser a estrela mais aplaudida”, conta ela, que lembra a homenagem de um fã. “Em todas as minhas apresentações, que aconteciam nas terças, quartas e quintas, ele jogava pétalas no palco”, orgulha-se.




Com o sucesso, foi destaque de quatro páginas da importante revista Cruzeiro em 1972, com o nome “Aloma, eu sou uma ilusão”. Uma das apresentações mais marcantes foi quando levou um striptease para a noite gay, o primeiro da casa. “Também tenho muito orgulho de ter tido o ator Raimundo de Souza no corpo do balé”, recorda.

Em 1979 foi para Europa e, quando voltou, em 92, deparou com a febre de drag quens. “Notei que não tinha mais espaço para os artistas da minha época. Mesmo assim, estava disposta a reconquistar o meu espaço.”

Na casa dos 60, Aloma continua brilhando: se apresenta em saunas de São Paulo, e esporadicamente em algumas casas noturnas. Para ela, o principal problema das atuais casas gays é a ausência de direção e investimento nos shows.

“A noite começou a cair, os espetáculos também. Hoje as drags vão lá e fazem o que querem no palco. Não é justo encher a casa e pagar 40, 50 reais. Para mim é triste porque eu amo me apresentar, vim de uma época em que travesti era luxo, que ensaiávamos seis meses antes de um número.”

Na comemoração mais recente de sua carreira, a artista surpreendeu o público ao tomar banho de cachoeira no palco e exibir um corpo perfeito. “A maior alegria é ter 64 anos e ser chamada de linda, ou então, de ninfeta da terceira idade”, brinca.


Divina Aloma em momentos da carreira e com o Neto Lucon

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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