Entrevista

Lea T me ajudou a falar sobre o passado’, diz top pernambucana Fabiana Oliveira; veja fotos incríveis


Fabiana Oliveira (30) é uma modelo pernambucana que mergulha nos editoriais, catálogos e sente que a câmera é a sua melhor amiga. Contratada pela agência Amazing Model, a loira não se intimida em pintar o rosto, mostrar o corpo ou abordar temas sensíveis nas imagens. Recentemente, incorporou uma aliciadora de menores no ensaio A Lenda da Regina, com imagens surpreendentes de uma favela da Paraíba e de muito bom gosto.

A top, que é formada em psicologia e tem diploma de inglês pela Universidade da Pensilvania, iniciou a carreira antes mesmo de Lea T (32) estourar internacionalmente em 2010. Assim como Lea, Fabi passou por uma redesignação sexual (popularmente conhecida como mudança de sexo) aos 19 anos na Espanha, e afirma que durante muito tempo viveu uma vida dupla para os contratantes, novos amigos e namorados.

Segura do que quer (e do que não quer - ela se sente incomodada com a palavra transexual), Fabi revela em entrevista exclusiva ao NLucon os seus sonhos, aceitação familiar e abre o baú de fotos de seus mais importantes trabalhos. São imagens incríveis, que mostram o talento de uma grande estrela. Saiba mais um pouco sobre ela:

- Os seus trabalhos são surpreendentes e ousados. Concorda que fotografa maravilhosamente bem?
Eu acho (risos), pois realmente amo fotografar e ver o resultado. Me sinto totalmente realizada quando um fotógrafo ou stylist diz que ficou incrível. Adoro vários trabalhos, como um que fiz na Europa e que foi para a Armani, também amei o Moda Recife, de 2010, e da revista Diverso em São Paulo, em 2011. Um dos mais diferentes foi o que fotografei em uma favela da Paraíba com várias crianças.

- Conta mais detalhes deste trabalho na favela. Você dá vida a uma aliciadora de menores, é isso?
É. Esse trabalho do fotógrafo Lucas Freitas se chama A Lenda da Regina e foi incrível ver as pessoas da favela interagindo com as fotos, dando aquela atmosfera diferenciada e com um olhar absolutamente novo. Ficamos três horas e vestimos oito looks. As crianças foram super bacanas no momento de foto grafar, a energia do pessoal e de toda a equipe foi muito legal. O resultado fala por si.


- Como foi o seu primeiro book?
Na infância, sempre fiquei em frente ao espelho, fazendo poses, mas aquilo ficou só no sonho. O primeiro book ocorreu em  2004, Recife, com o fotógrafo Renato Filho, que sabia da minha história. Ele é uma pessoa maravilhosa, que viu em mim a possibilidade de começar uma carreira. Naquele primeiro momento, não levei tão a sério, pois não sabia se seria aceita. Só comecei a levar a sério a partir do momento em que as pessoas, principalmente os fotógrafos, perguntavam se eu era modelo. "Poxa, que legal, acho que levo jeito". Aí eu comecei a pensar na ideia com mais segurança.

- Recentemente, você  fez um trabalho para as lojas La Pomme...
Ai, foi maravilhoso! Fotografamos este ensaio tendo como pano de fundo a arquitetura barroca do convento São Francisco, de Olinda. Foi perfeito, pois, além do ambiente, vestimos as melhores marcas nacionais: Morena Rosa, Lucidez, Maria Valentina... Essa rede de lojas investe na questão da imagem e reuniu uma equipe maravilhosa de profissionais. Os cliques foram do fotógrafo Edson Santiago, a stylist foi a Meire Anne e o maquiador o Diógenes Coelho.

- Lea T despontou no mundo da moda em 2010, mas você já trabalhava como modelo anteriormente. Como foi essa sua entrada no mundo da moda sem o respaldo da top?
Lea ajudou abrir várias portas e mudou a minha vida profissional. Antes, ninguém sabia nada sobre o meu passado. Comecei em 2004, quando o Renato Filho me chamou para alguns books. Ele sabia da minha história, mas muitas clientes, que me contrataram depois, não sabiam de nada. A minha trajetória foi facilitada quando fiz a mudança (de sexo, ou redesignação sexual) e mudei os documentos, pois antes até apareciam alguns contratos, mas eram muito pequenos.

- Você evitava falar sobre a questão trans por medo de sofrer preconceito, por renegar o passado, qual o motivo? Conheço muitas mulheres que passaram pela cirurgia de redesignação sexual que têm pavor de falar sobre o mundo trans...
Quando fiz a mudança (de sexo, ou redesignação sexual), realmente não queria mais que ninguém soubesse de nada. Era o medo de não ser aceita e da reação das pessoas. Eu vivia uma vida totalmente dupla, como se fosse uma mulher genética qualquer. Tinha namorado há quatro anos e nem ele sabia o que já fui um dia. Quando eu ia para os lugares gays encontrar minhas amigas trans, sempre dava outra desculpa. Tinha medo que meu noivo não compreendesse, pois já estávamos muito próximos, conhecíamos toda a família.  


- E como era isso para você? Existia um sofrimento, um medo constante de ser “descoberta”?
Muito! É um receio grande porque não sabia o que ia acontecer comigo quando souberem. É o medo de sofrer tudo de novo. Já passei por tanta pressão na vida que, agora que tenho tudo de mulher – tudo, de do fio de cabelo à ponta do pé, até a documentação - é inevitável que ocorra medo de ser excluída de novo por causa daquele passado. Tenho aparência feminina, mas ainda não sei qual é a reação se falar sobre a questão, se as pessoas vão entender, se elas vão me respeitar. Já fui excluída de algumas seleções pelo meu passado, por exemplo. É complicado. 

- Hoje você ainda leva essa vida dupla?
Não. Depois que fui à RedeTV! e falei no ar tudo sobre a minha vida todos de Recife sabem. Minha agência, fotógrafos, stylist, todos. Só não saio espalhando sobre minha vida, mas quem perguntar eu conto minha história. Hoje, minha vida está bem melhor, muito mais tranquila.

- O que te fez mudar de ideia?
A presença da Lea T na moda me fez refletir sobre muitas coisas. Considero-a maravilhosa, com trabalhos incríveis. Foi depois dela que resolvi abrir a minha vida para o mundo da moda. Foi através dela que pude me sentir mais tranquila comigo mesma, sem viver a vida dupla. Me fez falar a verdade sobre mim e aproveitar a carreira.

- Mas você ainda se incomoda de ser chamada de transexual?
Eu sou mulher, sempre me senti uma, mas muitas pessoas ainda tocam no assunto me chamando de transex. Me incomoda sim, já briguei muito com isso, mas hoje aprendi a lidar. Quando posso, digo que me incomoda. É difícil mudar a cabeça das pessoas, pois nossa sociedade é hipócrita e machista, quer desqualificar a mulher que eu sou. Está no meu corpo, nos meus documentos...


- A sua família sempre te apoiou?
Posso dizer que sim. Aos 13 anos, eu gostava de estar com as meninas, brincar com elas, mas meu irmão notou e começou a falar para o meu pai que havia algo de errado comigo. Como meu pai viu que nada saía de mim, que eu tinha rosto de mulher, ele me levou ao médico. Fizeram um teste hormonal e viram excesso de hormônio feminino. O médico disse que poderia reverter isso, mas meu pai falou: “deixa assim”. Tempos depois, meu irmão pagou para eu sair com uma garota de programa, e eu não queria ir. Ele chegou para o meu pai e disse: “Tá vendo? Eu falei que ele é viado, coloque para fora de casa”. Mas meu pai não deu ouvidos a ele.

- E a partir de qual momento você disse: "Chega! Sou mulher e quero ser respeitada como tal"?
Foi quando minhas irmãs encontraram roupas de mulher no meu quarto e me perguntaram de quem se tratava. Eu disse que eram minhas e elas ficaram bravas. Fui conversar com o meus pais e perguntei: “Vocês trabalham em suas profissões há 35 anos, vocês mudariam por algum dinheiro?”. Eles responderam que não, que não seriam felizes fazendo outra atividade. Então eu falei: “Eu também não vou ser feliz sendo homem. Quero seguir o meu caminho, mas espero que o senhor não me coloque para fora de casa”. Ele disse: “Jamais botarei, siga a sua vida e seja feliz”.

Você disse que estava noiva. Não está mais?
Não, acabei o relacionamento. Não aguentava mais levar aquela mentira adiante, principalmente porque envolvia família. Eu o amava muito, ainda o amo, mas ele veio descobrir sobre mim pela internet. Sem que eu pudesse esperar, ele ligou super mal, dizendo que eu tinha o enganado, choramos, pedi desculpas e quis que ele entendesse o meu lado. Ele entendeu, mas explicou que se sentiu traído, pois passou quatro anos ao meu lado. Ele não me criticou, mas disse que não queria nunca mais comigo. Não quis nem a minha amizade...

Qual é o seu grande sonho?
Encontrar outro amor... Ah, mas não vale chorar (risos)... É isso, gostaria de encontrar um amor em que eu possa contar a minha verdade tranquilamente e realizar o sonho de ser mãe, adotando uma criança. Profissionalmente, quero conseguir trabalhar mais um pouco como modelo, pois ainda existe muito preconceito. E, mais para frente, ser dona de uma loja de roupas ou de uma clínica de estética. Tenho meus pés no chão. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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