Entrevista

Professora trans, Geanne Greggio defende cota para travestis e transexuais nas faculdades: ‘O estudo é o caminho’

 

Loira, magra e com lábios desenhados por um batom vermelho vibrante. A professora Geanne Greggio (36) é referência em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, e desponta também como um dos grandes ícones da comunidade LGBTT. Ela é professora, tem três faculdades – Letras, Pedagogia e Biologia - e é, para o espanto de muitos, travesti.

Minoria entre as trans, Geanne afirma que não se sente feliz por ser uma exceção no grupo de trabalhadores. Ao contrário.  “Gostaria que uma travesti inserida no mercado formal fosse algo corriqueiro”. E é tentando levar uma vida comum – nem tanto, a loira de 1,81m e já foi destaque dos maiores jornais, revistas e programas populares – que ela enfrenta os preconceitos do cotidiano.

Sua transição ocorreu tardiamente, se comparada à da maioria das trans adolescentes. Somente aos 23, quando já estava ministrando aula para alunos de 14 a 21 anos. Com diploma em uma mão e concurso público na outra, conseguiu eliminar, driblar e quebrar qualquer resistência. “Até onde você quer chegar?”, questionou um diretor. “Até onde eu achar que devo chegar”, respondeu Geanne.

Leia entrevista exclusiva ao NLucon abaixo.

- Você é uma professora e travesti. Isso ainda causa espanto nas pessoas?
Ainda é diferente, mas na minha cidade as pessoas já se acostumaram. Estou em Embu há 14 anos e a maioria já me conhece muito bem. Fora de lá, as pessoas se surpreendem, acham interessante uma professora trans. Sempre perguntam: mas os alunos te respeitam? Eu digo que sim, raramente tenho problema com aluno sobre esta questão. Os problemas que eu tenho é como qualquer outro professor, não pela minha identidade de gênero. O problema é a disciplina.

- Nunca ninguém fez piadinhas na sala de aula?
Às vezes acontece, mas finjo que não ouço. Caso persistam, chamo para conversar e resolvemos de uma maneira civilizada. Geralmente eles entendem e pedem desculpa. Também não tenho problema com os pais dos alunos, pois a minha identidade de gênero não está acima do meu cargo de professora. Sou profissional e não quero ser respeitada porque sou travesti, transexual, hétero, bi, eu quero ser respeitada porque sou ser humano. O que a direção sempre me fala é sobre o assédio. Isso em mim é mais visado por conta do preconceito e eu tenho que ter uma preocupação extra.


- Você assumiu-se trans quando já estava dando aula. Como se deu esse processo?
Embora sempre soubesse que era uma menina – na infância eu era vista como uma menina de cabelo curto - só comecei a me transformar aos 23 anos. Foi um processo tranquilo, pois a transformação ocorreu aos poucos, lentamente. Deu para as pessoas e eu mesma me acostumar. Primeiro, deixei o cabelo crescer, aí fiz uma plástica no nariz, depois fiz laser na barba: “Legal, gostei”. Por último, coloquei as próteses de silicone nos seios. O peito foi um grande passo. Falei com a minha mãe, ela veio para São Paulo [a família de Geanne é de Jaboticabal] e me apoiou. Quando vi o resultado, falei: ‘Adorei, é tudo isso que eu queria’. Daí fui só melhorando o corpo, emagrecendo...

- Existiu alguma conversa com a direção?
Existiu. Eles queriam saber como eu iria me portar em sala de aula e com quais roupas eu iria...

- Como foi reorganizar o guarda-roupa para a escola?
Sei que os alunos são pré-adolescentes e adolescentes, que estão se descobrindo sexualmente, então é claro que não vou com roupas chamativas ou que possam provocar algum tipo de desrespeito. Não queria assustar no começo, então ia com jaleco branco por cima, jeans e uma blusinha discreta. Depois, comecei a ir como qualquer outra professora mulher. A direção me chamou e perguntou: ‘Até onde você vai chegar?’. E eu: ‘Até onde eu achar que devo chegar”. Para mim, o que não é adequado em uma sala de aula é uma roupa muito curta, decote, algo provocativo. Hoje, vou de salto alto (risos), pois não abro mão, vou com uma maquiagem básica e roupa feminina.

- E o batom vermelho?
(risos). Vou também, pois é a minha marca registrada. Os alunos já estão acostumados.

- O que pensa sobre a atual situação do ensino?
Está complicado, pois se perdeu o respeito pelo professor, pelo educador. Não o observam mais como alguém que pode ensinar, acrescentar alguma coisa na vida. É uma profissão de risco, pois já vi colegas apanhando, tive até uma colega que foi assassinada por um aluno. O problema está na família, que também sofre essa desvalorização. Pegamos uma geração de pais que sofreram com pais autoritários e, agora, dão tudo o que não tiveram para os filhos. Eles trabalham demais, dão duro, mas esquecem-se de ficar dentro de casa, de ver tarefa, de ser presente. Isso reflete na escola e em outros campos. É triste, mas perdeu-se o sentido da palavra respeito.


O que tem de melhor em dar aula?
É o contato com os alunos. É o dia a dia, a troca de experiências, os conflitos que eles trazem. Trabalho em um lugar carente, onde a fonte de lazer é a escola. É o ponto de encontro, é onde eles encontram os amigos. Como desenvolvo outro trabalho com DST/aids, muitos acabam trazendo dúvidas sobre sexo, comportamento e eu já cheguei a levar uma ginecologista para falar com as meninas. Este é um lado positivo por eu ser trans, pois eles sempre dizem: “Não consigo falar sobre isso com outro professor, não temos abertura que nós temos com a senhora”. Eles me chamam de senhora (risos).

- Como se sente fazendo parte de uma minoria das trans no mercado formal de trabalho?
Não me sinto feliz, pois gostaria que fosse algo comum. É por isso que, na mesma forma que existem cotas para negros, deveria existir cotas para travestis e transexuais nas faculdades. Somos uma minoria muito discriminada, sofremos culturalmente como os negros sofrem, então devemos ter políticas públicas voltadas para a capacitação e educação. Mas ainda somos uma classe invisível, em que as pessoas preferem ignorar e depois, ao verem o resultado, tacar pedras. Acho inclusive que deveriam existir estudos alternativos, em horários alternativos, para aquelas que trabalham a noite e querem estudar. O caminho para qualquer pessoa é o estudo.

Você é bastante positiva quando fala de preconceito. Nunca sofreu um grande preconceito?
Bem, já sofri alguns, mas é complicado falar quando você quer esquecer. Teve um que me marcou: um ex-namorado, ao lado de alguns alunos, espalharam montagens de fotos minhas pela escola no dia do meu aniversário, em 2003. Eu tive um grande problema com a direção da escola, que acabou pedindo o meu afastamento. Teve julgamento e eu consegui provar que aquelas fotos não eram minhas. Hoje, eu uso o meio legal, o processo, para me defender. Se alguém vier com desrespeito, eu recorro às leis que me protejam.

Ao contrário das meninas que se assumem com 13, 14, você teve uma transformação mais tardia. O que diria para alguém que quer assumir-se trans e não quer cair na prostituição?
Essa pergunta já surgiu em sala de aula e eu respondi com muita sinceridade: “Estuda primeiro e depois vai decidir o que você quer ser, porque estudando, tendo um trabalho, você vai poder ser o que você quiser”. Essa é a realidade de hoje, infelizmente. Sobre a questão da prostituição, não tenho nada contra quem faz, mas acho triste quando vira um estigma. Toda vez que a mídia fala sobre travesti, fala sobre prostituição. Isso faz com que nós tenhamos que pagar um preço muito grande. É por esse motivo que bato na tecla da educação. Estudem, meninas, isso vai abrir portas.  


- E para aquelas que já estão no mercado do sexo e gostariam de entrar para o mercado formal?
O mercado formal de trabalho é difícil? É, mas temos que lutar. Tem uma travesti na minha cidade, que estava se prostituindo, e eu peguei muito no pé dela. Primeiro, ela terminou o ensino médio. Daí eu insisti, insisti, ela prestou e passou no concurso público. Está trabalhando dentro da prefeitura! O que eu falo para quem está na prostituição é: Aproveita o dinheiro que está ganhando e investe em uma profissão, estuda, faz faculdade a distância. Afinal, a vida no ramo do sexo não é para sempre e o corpo bonito também não. Em longo prazo, ela vai se beneficiar.

- Vamos falar de família Você foi e continua muito apegada à figura de sua mãe. De qual maneira ela ajudou a formar a pessoa que você é hoje?
Cresci em um ambiente familiar extremamente hétero – o que quebra o argumento de que eu tenha sofrido alguma influência para ser trans - e foi muito bom. O legal da minha mãe é que ela era aquela matriarca mesmo, dava a palavra final de tudo e o que ela acatasse todo mundo dizia amém. E era uma pessoa muito forte, vaidosa, guerreira e que me inspirou em tudo. Ela dizia: ‘Se você for até a esquina, passa batom. Vai que você encontra o seu príncipe encantado?’. Quando me assumi trans, ela comprava as minhas lingeries, blusas... Dizia: ‘Não importa se você é homem, mulher, se gosta de homem ou de mulher. O que importa é que você estude e tenha caráter’. E eu decidi realizar o sonho da minha mãe, que era ter uma filha professora.

Você pensa em ser mãe?
Ai, já pensei muito. Mas hoje acabo transferindo todo esse amor materno para o marido, mesmo (risos). Agora não quero, o mundo está muito difícil e não tenho tempo para criar uma criança. Ela deve ter o acompanhamento dos pais para um crescimento sadio e eu gostaria de ter esse tempo para ver tarefa, ensinar, participar mais. No dia em que estiver mais tranquila, daí sim estarei preparada.

Como é a Geanne casada?
É uma mulher normal, dona de casa, tranquila. Tenho um marido que me ajuda e faz todas as atividades masculinas. Eu, por exemplo, jamais vou lavar o carro. Nestas horas tudo é dividido (risos).


Já viveu o seu grande amor?
Já vivi, não sei se era alma gêmea, mas vivi aquele amor grandioso. Já vivi grandes histórias e eu já namorei homens, mulheres, travestis... Acho que, quando você se apaixona por alguém, você não se apaixona por um pênis ou por uma vagina, é pela pessoa completa, pelo jeito, respeito, carinho, amor. Hoje estou casada, mais tranquila, mais calma...

Ao olhar para trás e observar sua trajetória, o que passa pela sua cabeça?
Vejo uma trajetória de muita luta e de sucesso profissional.  Hoje, embora não seja rica, tenho uma vida estável financeiramente, consigo viajar, estudar, ter um bom carro, uma casa e ser respeitada por onde passo. Olho para trás e vejo tudo o que eu consegui conquistar, mesmo sendo uma transexual. É o que a minha mãe falou e eu consegui entender e aplicar em minha vida.  

Qual é o seu sonho atual?
Eu gostaria que a minha história fosse exemplo para outras pessoas. Já participei de alguns programas de TV, em matérias, e sempre é bom quando outra trans novinha vem pedir conselhos para mim. Além disso, sonho em fazer muitas viagens, terminar de pagar a minha casa, quero fazer mestrado, continuar com trabalhos ligados à saúde. Ainda tenho muitos planos para realizar e com certeza vou realizar.

Geanne e Neto nos bastidores da entrevista

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Roger Oliver disse...

Adorei a entrevista, GÊ vc é uma pessoa maravilhosa, seu olhar transmite paz e alegria, seu jeito doce me alegra, vc merece tudo de bom, admiro muito vc.

Tecnologia do Blogger.