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Ricky Martin revela que se assumiu gay por causa dos filhos



Sex symbol latino e admirado por mulheres e gays, o cantor Ricky Martin, 40 anos, fez a alegria da comunidade colorida quando assumiu sua homossexualidade no início de 2010. A revelação vinha acompanhada da notícia de que estaria finalizando sua autobiografia - “Eu”, lançada no Brasil pela editora Planeta - o que dava a entender que muito coisa ainda estava por vir. 

Na publicação, Ricky (ou Kiki, apelido que recebe da família) conta em 299 páginas os meandros que passou na profissão, na família e automaticamente na vida, uma vez que iniciou a carreira muito cedo: participava de comerciais de tevê aos 9 anos e logo entrou para a trupe dos Menudos, sem interromper a carreira artística, seja na música ou como ator.

A homossexualidade aparece principalmente em reflexões e em poucas histórias de fato. Não existem nomes (muito menos de famosos). Apenas momentos em que se viu diante de perguntas que incitavam sua homossexualidade, um caso amoroso que quase o fez abandonar tudo e as dúvidas envolvendo a saída do armário.

Na verdade, Ricky sempre soube que era gay (“passei muitos anos tentando esconder até de mim mesmo”) e no livro revela sua busca espiritual, responsável por se livrar dos fantasmas, assumir-se gay e viver em paz. Para quem é ou já foi fã do cantor, “Eu” é um prato cheio para revelações fofas, de curiosidade, pensamentos, declarações sobre o mais novo ícone da comunidade LGBT. 

SONHO DE SER MENUDO

Desde pequeno, Ricky Martin sonhou em integrar ao time de meninos cantores. No livro, ele conta que devido ao preconceito social da época – “achar que homens de verdade não gostam de cantar e dançar” – ele mentia para os colegas e familiares sobre o motivo de querer ser um Menudo. “Quando meus amigos da escola me perguntavam, sempre dizia que era por causa das meninas, do dinheiro e das viagens. Eu deveria ter lhes falado a verdade, mas não tenho a menor dúvida de que iriam caçoar de mim.


Domado com rédeas curtas, ele afirma que o trabalho era intenso para todos os garotos e que eles não podiam sair da risca traçada pelos assessores. Descobriu isso logo na estreia, quando cantou sozinho e andou de um lado para o outro no palco, mexendo-se no ritmo da música. “Quando terminei, o empresário da banda estava nos bastidores e se aproximou gritando: Eu não falei para você ficar parado no palco?!”  Com o grupo, ele conheceu de perto o sucesso e aprendeu a ter disciplina. 

SEXO
Do grupo de amigos, o cantor foi último a perder a virgindade - com uma menina – e a experiência não foi tão positiva. “Ela era legal, mas minha decisão tinha muito mais a ver com a pressão dos meus amigos. Não havia uma sensação de proximidade entre nós. Lembro-me de ficar com uma sensação do tipo: É só isso? E pensar: É disso que todo mundo estava falando? Urgh! É horrível”.

De acordo com Ricky, o problema não foi por se tratar de uma mulher e sim pela falta de proximidade com a garota. Ele garante em outras passagens que foi extremamente apaixonado por muitas mulheres. Entre elas, uma apresentadora de televisão, a quem considerou uma mulher perfeita. “Adorava sentir o corpo dela contra o meu e quando o cabelo dela roçava no meu peito quando ela estava totalmente entregue.”  

PAIXÃO GAY


Embora tenha se relacionado com muitas mulheres, o grande amor de Ricky Martin – e o único homem digno de uma história mais aprofundada – foi por um locutor de rádio. A paixão entrou em sua vida de uma maneira tão intensa que Ricky pensou até em desistir de tudo, da carreira e do sucesso, só para ficar próximo do amado. 


“Ele me entrevistou e eu ficava me perguntando: Estou sentindo uma vibração vindo dele ou estou imaginando? A certa altura, quando estava respondendo uma de suas perguntas, olhei firmemente para ele e, quando percebi que não desviou o olhar...Boom! Ele confirmou.”

Em uma paixão fofa, Ricky descreve que ambos tiveram uma conexão física intensa e que intelectualmente estavam na mesma frequencia. “À noite, ele ia trabalhar na emissora de rádio, e eu ficava na cama ouvindo a voz dele, enquanto ele me mandava mensagens sutis através das ondas de rádio.”

Foi por esse romance que Kiki esteve disposto a se assumir publicamente, tanto que se assumiu para a mãe. “Quando o relacionamento acabou, disse a mim mesmo que talvez esse não fosse o meu caminho. Meu instinto foi me convencer de que ficar com homens era um erro. Tranquei meus sentimentos mais profundamente ainda e comecei a namorar mulheres de novo.”


ARMÁRIO
A passagem mais curiosa envolvendo “armário” dá-se na entrevista à Barbra Water, que foi até Porto Rico entrevistar o cantor. Barbra perguntou sobre sua sexualidade e, embora estivesse com o discurso pronto, ela insistiu e provocou algo peculiar no cantor. 

“Ela continuou a indagar sem ceder. Minha visão ficou turva e meu coração disparou. Anos depois ela admitiu que talvez não devesse ter feito aquela pergunta e lamentou tê-la feito.” 

FAMÍLIA
Sempre disposto a trabalhar incansavelmente, Ricky Martin mostra em sua biografia que o sucesso não bateu em sua porta. Sempre foi em busca e nunca negou convites, mesmo no auge da popularidade com canções como Maria e Living La vida Loca. Muitas vezes não queria continuar, mas aparecia uma proposta e ele não conseguia negar. Focar em sua carreira, muitas vezes foi uma válvula de escape, para esquecer os sentimentos por homens. 

Disposto a sempre ter a aprovação das pessoas, ele começou a mudar de ideia sobre a vida quando fez uma viagem à Índia e sentiu na pele o sofrimento de muitas pessoas – ajudando muitas delas. Abriu uma ONG que combate a exploração sexual infantil e começou a valorizar a verdade em sua vida, principalmente quando decidiu realizar o sonho de ser pai. 

Aliás, foi justamente pelos filhos que Ricky Martin decidiu assumir-se gay, já que queria servir de exemplo e viver uma história sem mentiras. Ele revela todo o processo da escolha do óvulo, barriga de aluguel, parto e cuidado com os dois filhos: Valentino e Matteo. É possível visualizar a relação e o surgimento de uma nova geração de famílias, bem mais preparada e consciente dos deveres de educar.   

REFLEXÕES
Existem muitas reflexões no livro, como a da perda do primeiro amor gay. Para ele, é fácil se perder ao sofrimento quando sentimos a perda de alguém tão importante. “O sofrimento vem, seduz você, brinca com você e você se identifica com ele a ponto de achar que a vida é assim”. 

Nas últimas páginas do livro, ele solta o discurso em prol dos direitos gays, sobre homofobia e defende aqueles que ainda não se assumiram, dizendo que todos têm o seu tempo. “No fundo, acho que sempre soube que era gay, mas passei muitos anos tentando esconder, até de mim mesmo. Desde que me entendo por gente, sinto uma forte atração por homens. São eles que despertam meu ser mais instintivo, mais animal. É com um homem que consigo me sentir realmente vivo, que encontro o amor e a paixão que busco em um relacionamento.”

Em outros momentos, porém, o cantor se perde em divagações desnecessárias e cansativas ao leitor, mas talvez fundamentais para quem nunca parou de trabalhar e refletir: “A paixão é um aspecto vital da minha existência. Eu me considero um sonhador realista, e a vida é cheia de emoções intensas” e blá blá blá.

Mais que uma mera autobiografia, a história de Ricky Martin revela a busca espiritual do mais novo ícone gay, seu crescimento, a vontade de constituir a sua família (independe da sexualidade), os meandros da profissão, amores e desilusões e o desejo de ser sucesso no Mundo. “A publicação desse livro é outro desses momentos que vão me ajudar a crescer e me sentir mais forte.” 

Além da linda capa, só faltaram fotos do gato nas páginas internas!


    Rick Martin, os filhos e o namorado Carlos, com quem está há mais de 4 anos

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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