Entrevista

Despedindo-se de SP, Divina Aloma relembra momentos de glória, Di Cavalcanti, Robert de Niro e lamenta atual noite gay

 
Aloma atualmente e na matéria de 'O Cruzeiro' que consagrou sua carreira

Divina Aloma é de fato uma ilusão. Não somente pelo título da matéria da revista O Cruzeiro que a tornou conhecida em 1972, mas também pelas várias performances iluminadas que estrela e remete a ícones internacionais como Dona Summer, Whitney Houston e Diana Ross.

Com fôlego de leoa, sorriso iluminado e corpo de ninfeta, Aloma surpreende também ao enganar, iludir e ludibriar a idade. São – pasmem! - 64 anos muito bem vividos e aplaudidos, que compõem parte da história artística do Brasil e da noite gay. Iniciou como “vestidora” das maiores estrelas dos anos 60, mas logo mostrou a veia artística.

Diva dos palcos, das plumas e dos paetês, Aloma é uma das memórias que continuam vivas, pulsantes, dublando e brilhando. Representa a história, a qualidade de uma performance e o amor à arte. Já foi musa de Di Cavalcanti, já despertou o amor de Robert De Niro e já ousou a tomar banho de cachoeira em uma apresentação.

Em 2013, Aloma deixa São Paulo e volta ao Rio de Janeiro. A estrela está triste com a noite paulistana – o problema são os diretores artísticos atuais - e com a falta de valorização. “O sucesso de uma casa precisa de variedades. Chama-se variete (teatro de variedades, em alemão)”.

Leia abaixo uma entrevista sincera e emocionante.

- Você está deixando São Paulo e voltando ao Rio de Janeiro. Por qual motivo?

Tenho 44 anos de carreira e estou decepcionada com as pessoas que organizam a noite gay da cidade, com os diretores artísticos que apostam na mesmice e estragam as casas. Hoje, a noite gay está pobre, com uma repetição de números, de drags fazendo a mesma coisa, tirando peruca embaixo de peruca, batendo cabelo, sem espaço para a variedade. Uma boa casa tem variete (teatro de variedades, em alemão), mas já escutei que não me encaixo no perfil do que está aí. O perfil é lixo? Mal sabem eles que São Paulo gosta daquilo que é bom e que sinto a cobrança do público: “Como pode você ser uma grande diva e não ter lugar fixo para se apresentar?”. A minha vitamina é esse carinho.


Ousadia, glamour e charme marcam a trajetória artística da diva

Como é ser artista aos 64 anos?

Sabe que eu pensei até em desistir nesta fase, pois passei por uma forte depressão. Já sobrevivi a muita coisa pela minha ética profissional, pelo meu profissionalismo e procuro carregar comigo a ideia de que travesti é luxo. Mas hoje em dia infelizmente travesti é lixo. Eu ostento o glamour, a beleza, a limpeza e o respeito com o público, faço até as minhas próprias roupas, mas fica difícil manter isso. Ontem, fiz um número da Dona Summer e o público ficou encantado, aplaudindo, mas logo depois entrou uma drag e começou a falar palavrão para as pessoas. Acho que existe público para tudo, mas as pessoas não deveriam ser desrespeitadas pelo artista. Fora o cachê, que é horrível. Os próprios clientes da sauna andam pagando...

- Embora você seja uma diva, também já fez inúmeras ousadias no palco...

Garoto, eu fiz o primeiro strip-tease em uma casa gay, na Medieval (leia matéria sobre a casa). Então, se tiver que me molhar, eu me molho, se tiver que pintar, eu pinto, me jogo na lama. Na Danger, fiz o “Negro Gato” subindo em um andaime enorme e depois recebi banho de leite dos dançarinos. Também já tomei um banho de cachoeira em pleno palco! É verdade, a boate veio abaixo. Geralmente, as artistas querem sair lindas do palco, mas eu me preocupo principalmente com o visual do número. E mesmo assim eu saio linda (risos).

- Você começou a carreira vestindo algumas estrelas e sofreu resistência ao ir para o outro lado. Como foi a primeira vez que pisou em um palco?  

A primeira vez foi no Teatro Carlos Gomes, na peça Les Girls, quando eu substituí a vedete Lorena. Pois é, já comecei substituindo a estrela do espetáculo, mas as outras artistas não gostaram. Tentaram me maquiar de maneira horrorosa, com um batom laranja, e diziam: “Negrinha, negrinha, você é apenas uma vestidorazinha”. E eu pensava: “Um dia essa negrinha ainda vai surpreender vocês”. E eu consegui mostrar que também tinha arte, que sempre tive alma de artista. Estou aí até hoje e elas só serviram de escola.




- Existem comentários de que você é rival da Rogéria. Isso existe?

Rogéria é uma grande artista, uma grande atriz, uma grande estrela. Mas ela é egoísta, não é aquela coisa que aparenta. A última vez que a encontrei foi na (sauna da) Lagoa, em que ela, a Jane Di Castro e a Eloína fizeram uma apresentação chamada França Invade São Paulo. Ela apresentou todas as artistas, todas, todas, e fez de conta que eu não estava ali. Quando a Eloína subiu ao palco e mencionou o meu nome, dizendo que eu também fazia parte da história delas, a Rogéria apareceu: “Oh, meu Deus, Lili, nossa vestidorazinha!”. E eu respondi: “Vestidorazinha não, hoje eu me chamo Divina Aloma e sou artista tanto quanto você”. As pessoas me aplaudiram e eu deixei o meu recado. Recentemente, elas fizeram um documentário no Rio chamado “As Divas”, mas elas não me chamaram, pois disseram que eu não fazia parte daquilo, que eu era apenas uma vestidora. É chato, mas sei que incomodo porque elas envelheceram e eu tenho a idade que ninguém me dá.

- Tem alguém da nova geração que você considera uma vedete?

A Ivana Spears, ela é uma grande artista. Gosto também da Alexia Twist, que tem tudo para ser uma grande estrela, um grande ícone, mas outras não deixam.

- Um dos grandes méritos de sua carreira foi ter sido matéria da importantíssima e extinta revista O Cruzeiro. O que lembra deste período?

Fui a primeira travesti a ter destaque em uma publicação de grande porte como a Caras e me senti lisonjeada. Na época, o editor não queria a matéria: “O que ela tem para falar? Elas não têm nada para falar”. E a jornalista deixou o gravador para ele escutar a nossa conversa. Não demorou muito tempo e ele me chamou para fazer as fotos. Nossa, quando saiu a revista nas bancas, eu não acreditava, pois foi um sucesso imenso. Todo mundo só abria na página em que eu estava. Lembro que um primo meu mostrou a revista para a minha mãe e falou: “Você pensa que seu filho está fazendo cabeleireiro no Rio, olha ele aqui”. E minha mãe me apoiou: “Prefiro ver meu filho assim que com duas algemas no braço”.

- O título da matéria era: “Aloma, eu sou uma ilusão”. Você ainda é uma ilusão?

Sou ilusão porque não sou mulher e porque não represento o estereótipo da travesti

Eu digo que ainda sou uma ilusão, pois não sou o que as pessoas imaginam, não sou mulher, e também não ajo da mesma maneira que as demais travestis agem. Eu me visto de maneira diferente, sei chegar e sair de qualquer lugar e respeitar qualquer pessoa. Às vezes perguntam, "você é travesti?" E eu respondo: Sou Aloma, uma ilusão, um ser humano, pronto e acabou.

- Desde quando você se assumiu travesti?

Desde os 15 anos eu me visto de mulher, mas eu sempre soube. Garoto, a primeira vez que eu dei eu tinha 8 anos! Mas eu nunca ficava por aí falando “ai, sou mulher”. Eu falava: “sou gente como qualquer pessoa”. Lembro que a primeira vez que me vesti foi em Copacabana, quando me deram um carreirão do Posto 2 ao Posto 6, pois pensaram que eu fosse sapatão. Naquela época, eles até toleraram o viado, mas sapatão não. Até que uma amiga suspeitou que eles me viam como uma mulher e falou: “Veste as minhas roupas, vai até o supermercado e vê como você passa”. Eu passei normal, como uma menininha bonitinha, uma pretinha bonitinha.

- É verdade que já foi moradora de rua?

Nasci em Salvador e fui para o Rio de Janeiro aos nove anos. Durante quatro anos morei na rua, com os mendigos. Sempre digo que a minha faculdade são os mendigos, pois só estudei até o segundo ano. É sério, as pessoas não acreditam, pelo modo que eu falo, mas é verdade. Lembro que nesta época fui salva por Madame Satã das bichas da Lapa que queriam me cortar. E que meu primeiro apartamento foi uma caixa de geladeira Consul. Hoje, vou voltar para o meu apartamento próprio no Rio.

- Já pensou em algum momento se submeter à cirurgia de redesignação sexual (a mudança de sexo)?

Não, nunca. Nem me imagino castrada. Vejo que as minhas amigas operadas não são felizes. As pessoas pensam que a operação vai acabar com os problemas, mas é aí que pior. Em todo lugar que elas vão, pessoas ainda vão dizer: “é homem, é homem, é homem”. Comigo é diferente, eu digo que sou travesti, sou bem resolvida e as pessoas é que dizem: “Aloma, você tem alma de mulher, você é uma mulher”. Então por que vou esquentar a cabeça com a xana? (risos). Uma vez, fiz o show em um restaurante e o empresário disse que não iria me pagar, porque era um número apenas para travesti e que eu era mulher. Tive que pedir para ele me acompanhar até o banheiro e mostrar a situação para ele me pagar (risos).


Figurinos são desenhados e feitos por Aloma
Se hoje você ostenta um corpo de dar inveja, há alguns anos ele certamente foi um espetáculo. Como foi ser musa do Di Cavalcanti?

Foi maravilhoso. Eu tinha 22 anos e trabalhava na Colt 45, no Alemão. Ele me viu fazendo strip-tease e, como eu era considerada o broche de strass da casa, ficou encantado ao ver um homem com um belo corpo de mulher. Naquela noite, ele me mandou um cartão no camarim, me convidando para posar para ele. Todas riram de mim, pois a musa dele era a Marina Montini, mas eu fui. Fiquei três dias posando na casa dele, enquanto ele se declarava...

Chegou a ter alguma coisa com o Di?
(risos). Essas coisas eu não comento, pois acho que não vem ao caso. Mas já tive vários momentos de glória. Em um carnaval no Pão de Açúcar, o Robert de Niro me chamou para sentar a mesa dele. Tinha um monte de gente, tinha até a Roberta Close, mas ele me chamou...

Você já foi muito amada?
Fui muito amada e tive três relacionamentos sérios. Nunca fui promíscua, nunca gostei de putaria, talvez seja esse o motivo que eu esteja viva até hoje. A pessoa que eu mais amei foi o Carlos, um paulista militar, que me amou muito, mas que eu não entendia. Eu queria o palco, a vida minha era a arte, e ele queria casar. Eu tinha 20 anos e vivi com ele durante cinco. Depois, apareceu um gaúcho e eu disse: “Sou uma ilusão, não sou mulher”. E ele: “Ilusão? Você é menina? Mulher que gosta de mulher?”. Eu falei que era travesti e ele me levou para morar em Pelotas, mas sinceramente não fui feita para ficar fechada em casa. Eu queria fazer shows, chorava sozinha em casa. O palco é a minha vida, se eu ficar sem fazer, estou morta.


                        Di Cavalcanti  e Robert De Niro: encantados por Aloma

- Você não acha que a vida artística é uma ilusão?

Como eu disse, sempre soube que aquilo ali era a minha vida. Quando pisei pela primeira vez eu tinha certeza que o meu ar era aquele, como é até hoje. O palco é a minha liberdade, a minha força, a minha luta, o rompimento com a minha timidez. Vivo para fazer arte.

- O que ninguém sabe sobre você?

Todo mundo conhece a Aloma artista, mas ninguém conhece Ariomar. É ele que dá norte para minha vida e a minha carreira. É uma pessoa íntegra, honesta, fiel ao que acredita, que gosta de esfregar as roupas, de cuidar da casa...

- A eterna Claudia Wonder (1955-2010) sempre reclamava da solidão. Você se sente sozinha?

Consigo viver com a minha solidão. Gosto de televisão, novelas, shows e procuro preencher o meu vazio com tudo aquilo que eu gosto de ver. Admito que hoje, com a idade que tenho, estou sentindo falta de família, sinto vontade de ter família. Antes, eu sempre tive um companheiro, mas acho que estou muito exigente ultimamente.

- Qual é o seu sonho atualmente?

Meu sonho é envelhecer em paz, ter uma bela velhice e adotar uma menina. Morando no Rio, onde tenho minha casa própria, consigo viver com a aposentadora. Correr atrás de dinheiro hoje em dia para quê? Quero descansar e continuar fazendo meus shows de vez em quando. Quero viver uma vida estabilizada, me apresentando quando eu quiser e como eu quiser. Mas sabe que para 2013 eu tenho uma excelente surpresa? Estarei voltando ao teatro e realizarei mais este sonho profissional. 


Divina Aloma e Neto Lucon

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Bárbara Aires disse...

Parabéns por tudo que representa!! Divina não, magnífica!!!

Kimberly Luciana disse...

Tive a chance de passar bons momentos ao lado dessa Rainha do Ébano e sempre tive o apoio da mesma, vc é guerreira, diva, ícone e tudo mais um pouco ♥

Unknown disse...

Me orgulho muito de ter Aloma como amiga e irmã de coração

Unknown disse...

Me orgulho muito de ter Aloma como amiga e irmã de coração

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