Pride

Fotógrafo e diretor teatral, Ronaldo Gutierrez foi príncipe da noite gay nos anos 80; veja fotos


O coreógrafo, fotógrafo e diretor teatral Ronaldo Gutierrez, de 47 anos, era considerado o príncipe da noite dos anos 80/90. Hoje, conhecido por coreografar espetáculos como o musical “Rock Show”, de Wolf Maia, poucos sabem de seu passado – e sucesso! - nas extintas casas gays paulistanas: Medieval e Homo Sapiens, as “maiores bases profissionais de um artista da época”.

“Os tempos eram outros e as casas investiam em verdadeiros espetáculos, com enredo, bailarinos profissionais e figurinos. Tentei entrar para o elenco de bailarinos da Medieval durante três anos, isso em 81, 82. Demorei porque a seleção era tão rígida, tão rígida, que eu não conseguia ser aprovado. Quando entrei, transbordei de felicidade, mas me deixaram lá no fundinho”, recorda com bom humor. "Mesmo assim, aproveitei a oportunidade e investi pesado".

Pouco a pouco, Ronaldo foi ganhando espaço nos shows e se destacando nas apresentações da artista Makiba (uma Silvetty Montilla da época). Após o fechamento da casa, o bailarino não desistiu do universo gay. Ele entrou para o elenco da HS, onde começou a ver sua carreira decolar. A apresentação mais polêmica foi “Brincando com Fogo”, em que uma Nossa Senhora desce de pára-quedas, óculos e com uma metralhadora nas mãos. Uma loucura!

 
Ronaldo (à direita)

“Eu fazia o papel de um menino tímido, que se apaixonava por um marinheiro que havia oferecido a alma ao diabo. Ele queria ter uma noite de amor verdadeiro e, após ter essa noite, o diabo levava a sua alma. Apaixonado, vou até o inferno para trazê-lo de volta.” A polêmica obra provocava desconforto do público, principalmente de alguns padres que frequentavam a casa.

 “Todo mundo comentava a cena em que um apóstolo batia na minha bunda e falava: Até que não seria uma má idéia passar uma quarentena com você no deserto.”

Com personagens heróis e ostentando corpo definido, o artista passou a ser considerado o príncipe da noite, aquele que todos os frequentadores queriam namorar. Vale lembrar que naquela época não existiam os gogoboys de hoje em dia e que os bailarinos é quem chamavam a atenção. “Muita gente jogava ursinho de pelúcia, gravava música em fita cassete e me davam”, lembra. 

Em 84, surgiu um boato de que era amante do Silvio Santos. “Mas é claro que isso era mentira”, desconversa. 

As apresentações "King Kenga" e "Boca da Noite"
Brincando com Fogo

Sua passagem pelo HS rendeu 10 anos de experiência, aplausos e dinheiro, principalmente com King Kenga, em que o artista dava vida a um gorila transformista gay. Há quem saísse de casa só para ver e se divertir com a hilária performance.  

Mas, com tanto sucesso, qual o motivo de ele ter deixado a noite gay? “Decidi sair depois que começaram a trazer shows de sexo explícito para o palco, algo que não condizia com o trabalho que fazíamos até então. Eles queriam que a gente terminasse com os shows, pois era mais barato pagar cerca de R$30 reais para duas pessoas fazerem sexo que investir em profissionais de arte.”

Depois disso, Ronaldo tornou-se diretor de teatro, trabalhou em musicais e, agora, investe em fotografias. “Recentemente fotografei uma campanha em favor do uso da camisinha com Santos Católicos (veja foto abaixo), e também fotos com conteúdo teatral”, detalha. Desde 1992, nunca mais foi a uma casa noturna gay.

Para ele, que continua com pinta de galã, balada soa trabalho.


Fotos de Ronaldo Gutierrez

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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