Entrevista

'Vampiros transcendem os parâmetros da sexualidade', diz escritor Eric Novello; confira entrevista


Por Neto Lucon (2010 - entrevista inédita)

Autor de mais de 20 obras com histórias de seres fantásticos, o escritor
 Eric Novello estreou na literatura em 2004, abordando suas maiores paixões: vampiros e Roma antiga. Chamado “Dante – o guardião da morte”, publicado pela Novo Século, o livro conta a história de Ítalo Tarnapo, um general do exército de Julio Cesar que se torna vampiro. 

Gay assumido, o escritor não teve receio de colocar Dante, seu personagem machão, frente a uma orgia gay e um convite do líder romano. “O livro tem uma cena na qual Dante precisa falar com Julio Cesar e, sem querer, interrompe uma orgia. Cesar pergunta se ele não quer entrar para se divertir, mas ele dá o recado e vai embora.”

Em 2010, Eric participou da Outer Alliance, um grupo que reúne autores que queiram combater o preconceito e estimular a presença de personagens gays na literatura de fantasia e ficção-científica.  “Foi graças ao grupo que decidi explorar melhor personagens e dilemas gays dentro das minhas histórias de fantasia”, afirmou.

Abaixo, uma entrevista inédita (e na íntegra) com o autor, feita em 2010 para a edição da revista Junior


- Quando e como você começou a se interessar por seres fantásticos, especialmente vampiros?

Os filmes "A Hora do Espanto" e "Garotos Perdidos" são os grandes culpados por eu gostar de vampiros. Foram eles que me arrastaram para o mundo dos seres fantásticos. Eu tinha por volta de dez anos de idade e era viciado nos dois, via sempre que possível, apesar de ter medo das histórias e ficar sem dormir depois. Eu adorava o poder que os vampiros desses filmes tinham. Eles faziam o que queriam, seduziam suas vítimas, eram maus, debochados, e, mesmo assim, eram adorados. Além disso, quem não gostaria de viver eternamente? Tempo livre anda tão raro hoje em dia...  

- O primeiro filme que assisti sobre vampiros foi “Entrevista com o Vampiro”, da Anne Rice. Logo  tive a impressão de que os vampiros carregavam certa inspiração gay, andrógino, diferente, concorda?

Sem dúvida. Se existe uma criatura capaz de transcender parâmetros de sexualidade, essa criatura é o vampiro. Eles amam e odeiam intensamente, nada fica entre um vampiro e seu objeto de desejo, nem mesmo a morte, já que ele pode esperar vidas e mais vidas para reencontrar seu grande amor. Há uma metáfora sexual clara aí que veio se intensificando ao longo dos anos, tanto pelo lado do humor quanto pelo lado do erotismo assumido. A relação entre Louis e Lestat é um exemplo perfeito desse erotismo, já que eles são mais do que criador e criatura, e o amor que existe entre os dois pode ser interpretado de diversas formas.    


- Existe algum vampiro gay de outros autores (ou seu mesmo) que tenha te surpreendido, encantado?

A série "Alma e Sangue", da minha amiga Nazarethe Fonseca, tem um vampiro gay chamado Bruce que faz muito sucesso com os leitores. Ele é uma espécie de confidente de Ariel, o rei dos vampiros, sabe de todos os podres que rolam no império, e é o único que tem coragem de peitar o rei quando ele está errado. A graça do Bruce vem do fato de ele ser o melhor amigo de Kara Ramos, a protagonista, e ser apaixonado por Jan Kmam, o vampirão loiro de olho azul que criou a Kara e que arranca suspiros das leitoras. O Bruce tem um humor inteligente, é culto, não perde a pose nem quando está apanhando.

- “Dante – o guardião da morte” é o seu primeiro livro. Como surgiu a ideia? 

Eu adoro a Roma Antiga, principalmente a época de Julio Cesar, e decidi usá-lo como personagem. Como queria um protagonista imortal, acabei escolhendo um vampiro, que é o Ítalo Tarnapo, um general do exército de Cesar que mais tarde se torna vampiro. Foi bem gostoso de escrever o livro, acabei juntando duas paixões em uma história só.

- Não pensou em apostar em uma história ou personagens gays?  Dante, por exemplo, jamais teria um envolvimento com um homem?

O livro tem uma cena na qual o Dante precisa falar com Julio Cesar e, sem querer, acaba interrompendo uma orgia. Cesar pergunta se ele não quer entrar para se divertir, mas ele dá o recado dele e vai embora. É uma cena rápida, o único momento gay do livro. Se eu escrevesse o Dante hoje, ele certamente teria personagens gays, mas na época eu ainda estava no clima do “o que será que as pessoas vão pensar?”. Eu ainda tinha muitas barreiras para vencer, muito que resolver dentro de mim para criar um personagem gay que fosse factível e interessante como os que tenho hoje em dia.

-Existe algum vampiro que faria você oferecer seu pescoço? Quais são os vampiros mais sedutores da literatura?

Confesso que fantasio mais em morder pescocinhos do que em oferecer o meu, mas o que não falta hoje em dia são vampiros sedutores. Existe um autor chamado Jim Butcher que tem um vampiro ótimo para a situação. Ele se alimenta de energia sexual, então precisa dar prazer à pessoa para gerar essa energia que ele quer roubar. O jeito mais prático é dar a elas uma noite de sexo inesquecível. A maioria das vítimas morre no meio do caminho, mas com um enorme sorriso no rosto. 


- Você participa de um grupo que pretende acabar com o preconceito sobre a sexualidade dos personagens. Como é isso?

A Outer Alliance é um grupo que reúne não só autores gays, mas também leitores e quaisquer pessoas que queiram combater o preconceito e estimular a presença de personagens gays na literatura de fantasia e ficção-científica. No fórum e na lista de discussão você pode esbarrar com nomes como Hal Duncan (adoro!), Cheryl Morgan e Steve Berman, este último autor, editor e organizador de várias coletâneas de contos gays com temática sobrenatural. Foi graças ao grupo que decidi explorar melhor personagens e dilemas gays dentro das minhas histórias de fantasia. Recomendo para quem quer descobrir literatura gay ou quer escrever nessa área.
  
- Em seus próximos projetos, pretende trazer algum personagem que contemple a diversidade sexual?

Meu próximo livro de fantasia tem como personagem principal um mago que é bissexual, cujo nome é Tiago Boanerges. No universo que eu criei, na época da Inquisição, a Igreja Católica perdeu para as bruxas e magos, então posso imaginar um mundo no qual cada um toma suas decisões sem o peso do preconceito do catolicismo. Um dos interesses amorosos do Tiago será um vampiro parecido com os do filme Fome de Viver, com o David Bowie. Ainda não sei o nome dele, só sei que dará bastante trabalho para o Tiago.   

- Mergulhado nesse universo vampírico, chegou a ter alguma experiência com alguém que tivesse os mesmos gostos sobre tais personagens? Algum admirador de vampiros chegou a te cantar?

Na verdade, aconteceu o inverso. Eu estava em uma boate, achei um cara interessante e minha cantada foi “nossa, sabia que você parece um vampiro?”. Passei uns dez minutos depois disso explicando que o comentário era um elogio e não um xingamento. Ele tinha olhos claros lindos, bem diferentes, por isso a comparação.

- Você já participou em reuniões de "vampiros", de pessoas que curtem a temática?

Já joguei muito o RPG Vampiro – A Máscara, e, por uma coincidência dessas da vida, todos os participantes eram gays, o que tornava tudo mais divertido. Imagina um gay interpretando uma vampira loira e burra? (risos). Em eventos de Live Action, com o pessoal caracterizado e interpretando como em uma peça de teatro, como você tem que interagir com todo mundo, as paqueras aumentam consideravelmente. Nunca fiquei com ninguém em um Live, mas meus amigos faziam a festa.   


- Eric, muitos autores de literatura fantástica usam capa, dentes com caninos afiados e tal. Você já saiu "montado"? 

Costumo dizer que hoje em dia estou numa fase solar, por curtir mais programas diurnos e ter um armário com roupas de cores variadas. Na minha fase noturna, de viver em barzinhos e boates, de esperar anoitecer para ligar para os amigos e sair, eu só vestia preto. Tinha roupas que eram praticamente um uniforme: calça jeans escura, camisa de malha preta e um boot que eu não tirava do pé. Isso fazia parte de mim, não era por marketing, e isso é o importante. Se a pessoa se caracteriza porque curte de verdade o estilo, então dou força. Kizzy Ysatis e Lord A são bons exemplos, com caninos e tudo. Mas o marketing pelo marketing não acho legal. 

- Você tem namorado. O que ele acha do seu contato com esse universo? Rola alguma fantasia?

Um dos nossos programas de começo de namoro era fazer maratona de filmes de terror, então até que combinamos nesse aspecto. Enquanto eu era aficionado pelos vampiros do cinema, ele gostava mais de ler Anne Rice e reunir os amigos para jogar Vampiro – A Máscara. Foi por isso que eu voltei a jogar RPG, para passarmos mais tempo juntos, já que meus horários sempre foram apertados. Sobre a fantasia, nenhum dos dois resolveu usar capa e dentadura de plástico, até porque isso pode atrapalhar nos momentos estratégicos, mas eu acho que roupa preta sempre deixa a pessoa mais sexy.  

- Agora, falando sério: você acredita que existam seres fantásticos?

Tenho uma história engraçada com isso. Uma vez um cara mais velho disse para mim que era vampiro e eu demorei uns anos para entender que ele era gay e estava me cantando. Passei um bom tempo pensando “uau, conheci um vampiro de verdade”. Mas, deixando a brincadeira de lado, acho que existe muita coisa por aí que nossos olhos não percebem de imediato. Não sei se existem vampiros de dentes pontudos por aí, mas quem nunca ficou bocejando e saiu esgotado de um encontro com alguém invejoso, um sanguessuga energético? 

 - O que você acha de Crepúsculo e True Blood?

Gosto de ler e escrever um gênero chamado Fantasia Urbana, que nada mais é do que trazer vampiros, metamorfos, magos, demônios e outros personagens do tipo para o dia a dia da cidade. Por isso, sempre fui um grande fã dos livros da Charlaine Harris e das maluquices da Sookie, já li nove dos dez livros lançados. A autora disse uma vez que fez a Sookie telepata para poder explorar os preconceitos, mostrar a diferença entre o que as pessoas falam e o que elas pensam de fato, e acho que foi isso que me atraiu. O seriado potencializa os elementos dos livros, o que torna tudo mais intenso, mais erótico, mais engraçado. Como alguém da área de cinema, curto demais a fotografia e o jogo de luz e sombras sempre presente. Assim que o episódio passa lá fora eu arrumo um jeito de assistir. Sou fanboy assumido. Já Crepúsculo... entendo a fantasia com um namorado perfeitinho, romântico e assexuado, mas definitivamente não faz a minha cabeça. Gosto muito mais de gente de verdade.

Crepúsculo e True Blood

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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