Realidade

Test-drive: Uma noite como segurança na balada


Por Neto Lucon (texto sem cortes da revista Junior 21/ 2010)

A ideia é de que eles são sérios, fechados e prontos para barrar o prazer alheio. Quando soube de que teria uma noite como um segurança de balada [para a seção Test Drive da revista Junior], pensei: não deve ser tão difícil cruzar os braços e fazer cara feia na balada. Mas, depois de permanecer das 20h30 às 5h em tal função, mudei completamente de ideia. 

De terno e gravata, entro para a equipe de segurança da extinta SoGo uma hora antes de as portas serem abertas, e sou recepcionado pela chefe de segurança Marta Alves, 40 anos, uma negra robusta, de cabelos curtos, olhar sério e sorriso largo. Fiquei surpreso por ver uma mulher comandar uma equipe com 90% de homens héteros.  “Realmente não é tão simples, mas todos me respeitam”, afirmou ela, antes de me apresentar o espaço e oferecer o treinamento básico, como a posição dos braços e mãos.

 De todas as orientações, uma me chamou atenção. “Um segurança deve ter muita calma, prover de muita paciência. Afinal, enquanto você está sóbrio, as demais pessoas estão alteradas.” Por suas mãos, recebo um rádio, que coloco envolto a cintura, e um foninho que me dá acesso às conversas internas. O papo é rápido e cheio de códigos. Aprendo que “Q-R-U”, por exemplo, significa “corre que é briga”. Às 23h30, a porta da balada abre.

A conhecida revista consiste em passar as mãos nos bolos, cintura e pernas. Caso notasse algum objeto suspeito, era preciso pedir para o cliente apresentar. Mas até aí, nenhum problema _ estão todos sóbrios, né? E quem quer esconder algo, não vai facilitar para o segurança.

Acompanhando Marta, fico em posição de guarda na pista. E de cara descubro a pior experiência de um segurança, que é gay: escutar o som, sentir a música balançar o piso, a batida inspirar movimentos, mas ter que obrigatoriamente se manter parado, sério e sem trocar olhares com ninguém. E o pior, ter que aguentar o povo mala que vem pedir a mesma informação 20 vezes e os pseudo-reis que fazem questão de esbarrar ou pisar no seu pé, sem pedir desculpas. 

Fiquei na posição por incontáveis músicas, procurando alguma briga, alguma confusão, até que minhas pernas começaram a doer. Olhei para o relógio, pensando ter passado mais da metade da noite, mas me surpreendi: ainda era 1h!!! Sonhava acordado com minha cama... até que Marta, com um ligeiro cutucão, me convida a subir ao piso superior. Vou ao banheiro e a ordem é de não deixar ninguém entrar em dupla (já que o dark room estava fechado e não abriria naquela noite).

 BANHEIRÃO 

E não é que logo nos primeiros minutos dois assanhadinhos aproveitaram uma distração para praticar momentos quentes? Fui lá, com o peito estufado, cheio de razão (agora entendo porque alguns seguranças acabam tendo esta atitude), e dei duas batidinhas na porta. “Duas pessoas não podem entrar”, falei alto, vendo através dos pés que um deles estava agachado. Os dois saíram em um só movimento, sem sequer olhar para mim. 

Ainda no banheiro, um rapaz perguntou onde estava o fumódromo. Encaminhei-o e minutos depois ele voltou, perguntando meu nome e meu telefone. “Ah, agora não posso. Estou trabalhando”, respondi. “E depois?” “Depois... pode ser.” Em pouco tempo, ele reapareceu com um papelzinho nas mãos com o telefone anotado, que foi discretamente colocado no meu bolso.

Caminhei até a área de fumantes, onde permaneci juntamente com outro segurança, controlando a entrada e saída de pessoas (só poderiam sair 10 por vez, por conta do barulho na rua), No fumódromo, o único inconveniente são os vizinhos - alguns jogam até ovos. Desta maneira, pedimos silêncio aos clientes a cada empolgação.

BARRACO! 

Por volta das 3h30, escuto no rádio o comunicado de que um homem estava causando tumulto no caixa. Fui correndo para lá e logo vi um careca quarentão, dizendo ser inglês, atacando a maquininha de cartão. Era mais um dos “você sabe com quem está falando?”.

Bêbado, ele foi advertido por Marta e pediu desculpas. Mas dez minutos depois o mesmo homem foi ao bar, jogou um copo nos atendentes, bagunçou o cabelo de uma menina, ofendeu um cliente e gritava como um louco. Outra advertência e a inevitável retirada do cidadão, que pagou R$245,00 por uma comanda que pingava álcool.

VÃO EMBORA!!!


Durante esse bafão, as horas passaram rapidamente e, entre as demais ocorrências, revirei os olhos inconformado com as chatices de bêbados, assanhamentos de casais e pessoas que dormiam nos sofás, enquanto outras queriam sentar. Às 5h, tornando-me praticamente um zumbi, vejo quatro pessoas na pista e mais umas 10 próximas do bar.  Pensava: vai embora, vai dormir em casa, vai a um motel, mais VAAAI, por favor? 

E para o azar de todos os seguranças, o DJ tem a “brilhante” ideia de tocar Lady Gaga justamente no final da noite, o que resultou na entrada de mais um grupo de fãs para dançar. No momento de ir embora, nem sentia mais minhas pernas, nem mais sono, nem mais nada. Estava pior que um sedentário após uma maratona olímpica. 

Só pensava em tudo o que NÃO vou fazer mais em uma balada e no respeito que nutrirei por todos os profissionais de segurança. Afinal, sem eles, o nível da noite certamente se afundaria pelos excessos.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

José Mangueira disse...

Eu acho de extrema importância um profissional da área de jornalismo vivenciar vários tipos de profissões distintas para dar mais realidade as reportagens! Parabéns!

italocamargo disse...

Realmente deve ser complicado trabalhar em um lugar com música e não poder dançar. Eu não conseguiria, danço até com meu celular tocando rsrs

Gostei da matéria :)

E aí, acabou ligando pra pessoa que deixou o telefone?

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