Pop & Art

Val Marchiori, que nada! Carola Oliveira é a loira mais sensacional da história da mídia de celebridades

 

O que faz de alguém princesa? Para Ana Carolina Rorato de Oliveira, mais conhecida como Carola Scarpa, basta ser auto-proclamar e espalhar o título aristocrático a cada apresentação. “Olá! Sou Carola, a princesa do povo”, dizia a loira, sem constrangimentos. Uma das vezes, em 2002, durante a meteórica participação na Casa dos Artistas 2, do SBT.

Com coragem invejável e língua afiada – bem longe da imagem da patricinha de vestido de pompa - incomodou e descontrolou a maioria dos confinados (que viviam em desestimulante harmonia para o público), também distribuiu apelidos, destilou ofensas, fez o ibope subir e pediu desistência em menos de 48 horas, no alto da madrugada, de pijaminha azul, chinelo, raiz do cabelo preta, mas com toda pompa de majestade.

Anos antes, também desistiu de um casamento de fachada com o conde milionário Chiquinho Scarpa, a quem disse “sim” em maio de 1998 e “não” em abril de 99. Mais que não, Carola soltou a boca no trombone, tirou o playboy do armário, afirmou tê-lo visto com outro homem e perdeu o título de condessa: “Nossa primeira relação, no dia do noivado, foi péssima. Ele dizia que era tensão pré-nupcial. Depois foi um choque”, revelou aos programas populares da época. 

Muitos chamaram-na de vagabunda, interesseira, louca, golpista, mas interesse seria se, estrategicamente, continuasse casada. Embora mal amada, continuaria rica e estamparia várias reportagens da Caras, além da herança que receberia posteriormente.

Por fim, não era mais condessa, nem Scarpa, foi acusada de difamação, perdeu a partilha de bens, e barrada nas publicações de classe A. Tudo bem. Carola queria ser princesa. E princesa tentou ser, a seu modo, se reinventando.
.
Casamento foi capa da revista Caras

A ousadia, maluquice e cara de pau poderiam ser explicadas por uma possível proteção familiar. É filha do diretor de Tv Guga, sobrinha de Boni e prima de Boninho (o diretor do Big Brother Brasil), os grandes figurões da televisão. Pura fantasia. A princesa não vivia em castelos, era a ovelha negra do rebanho e jamais usou da influência de seu berço para aparecer – a não ser em uma novela exibida pelo SBT, Cortina de Vidro, dirigida por seu pai nos anos 90. Todo o resto, bem como sua nova entrada na Casa dos Artistas 3 (sim, ela participou duas vezes do reality), foi mérito de sua personalidade. Fortíssima!

A figura polêmica era auto-explicativa, e nem precisava dos cursos de balé, canto, talento para atuar, ou da vivência longe do Brasil. Tida por muitos como barraqueira, Carola era um prato cheio para os programas populares, daí ser do povo. Elaborava sem receios os seus discursos, mas ignorava as reações que poderiam lhe causar. E soltava cada palavra como uma bomba atômica, prestes a explodir as contradições, as atitudes alheias e, claro, sua própria cabeça. “Estou cansada da imprensa marrom. Sabe porque ela se chama marrom? Porque tem a mesma cor de...”, declarou no programa Raul Gil, enquanto tirava o chapéu.

Carola era uma manifestação latente de uma personalidade feminina que jamais pensaria em se acomodar ou calar. No casamento com Chiquinho, chocou a nobreza ao aparecer com unhas vermelhas. Foi orientada a tons mais claros, mas preferiu escandalizar.

Mas é certo que ninguém vive de polêmicas. E em uma das tentativas absurdas de se profissionalizar, já que sua opinião gerava tanto debate, chegou se pré-candidatar à prefeitura de São Paulo pelo PMDB. “Primeiro é preciso reestruturar o orçamento. Quero uma equipe econômica eficiente para viabilizar um orçamento voltado para os ideais do povo”, discursou à revista Istoé. Não foi aprovada, claro.




SOCIALITE POPULAR

Embora fosse vista como socialite pela mídia, a princesa em questão não se assemelhava em nada à comicidade de Narcisa, nem às festas requintadas de Loyola, as figuras mais conhecidas da categoria. Ao contrário, dizia-se que vivia na pindaíba e que era princesa do povo. E, assim como mostra seu autor favorito, Maquiavel, seguia a risca o trecho: “para conhecer a natureza dos povos, é preciso ser Príncipe, e para conhecer a dos príncipes, ser povo.” Em um ato que assemelha-se ao de muitas garotas do Brasil, confessou em reportagem sobre Turismo Sexual de 2009 que sobrevivia fazendo programas sexuais no Rio Grande do Norte. Vai saber...

Posou para a revista VIP em ensaio histórico, foi a aposta de Silvio Santos, casou e descasou com um conde, incomodou beldades como Luiza Ambiel e Syang, foi um dos nomes mais comentados em 1999 e 2002... De certo, Carola se escondia na pele de uma personagem polêmica e guardava o lado dócil em alguma gaveta repleta de cadeados. Não que não fosse assim, mas teria cometido uma auto-explosão há muito tempo caso fosse apenas nervos. O fato é que é uma incógnita até para os que acompanharam sua trajetória, mesmo tendo participado de dois shows da realidade. Verdadeira, destemida, inteligente, uma princesa do povo? Ou uma oportunista, fria, maluca e candidata à interesseira do século? Carola não queria explicar nada: veio para confundir.

Na história de nosso país, dificilmente teremos figura tão peculiar como esta princesa, uma invenção de si mesma, um kamikaze. Despediu-se no final de fevereiro, vítima de falência múltipla dos órgãos, diabetes e insuficiência renal crônica, deixando um filho. Talvez, ao chegar para o lado de lá, diga o que afirmou em sua desistência da Casa dos Artistas: “Foi um prazer para alguns, um desprazer para outros, mas o que vale é a experiência”.


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.