Realidade

Gays de 14, 15 e 16 anos se jogam na matinê da Freedom; mas o que rola por lá?

 

Por Neto Lucon (Revista Junior, 19/ 2010)

São 15h e o sol esquenta os coloridos bonés. Esperam ansiosos, perfumados e arrumados em frente ao clube gay Freedom, na esquina do Largo do Arouche, em São Paulo. Pelo rosto marcado por muitas espinhas, é possível notar que não passam dos 18 anos. E o RG revela que não passam mesmo. São cerca de 450 adolescentes de 14, 15, 16, 17 anos no máximo que, ao colherem frutos de um cenário novo e mais tolerante, conseguem se divertir em uma colorida matinê gay. 

Acompanhei a festa do início ao final, às 22h.  

FIGURINO DE SOBRA, DINHEIRO CONTADO

Com as pernas agitadas e RG nas mãos, os amigos Kaique Silva de Lima, de 15 anos, e Romulo Silva de Oliveira, 14, estudantes do primeiro e segundo colegial respectivamente, chegam de metrô e aguardam por outros companheiros na fila. Animados para dançar, eles frequentam o clube há três meses e, desde então, não perdem um domingo ou feriado. “Batemos cartão”, diz Romulo, cuja produção leva um lenço envolto ao pescoço, várias pulseiras coloridas e moletom. “A maior preocupação é de não repetir a roupa da semana passada”, brinca. 

Ao todo eles gastam R$5,00 para entrar, além do bilhete do metrô. Qualquer imprevisto, como chegar depois das 17h e pagar 8,00 ou sem flyer e desembolsar 12, pode complicar a diversão. “Minha mãe e minha avó é que me dão o dinheiro. Vou com ele contado”, diz Kaique, que veste moletom, boné e um colar de soco inglês.

“Já eu vou juntando a grana durante toda semana”, conta Romulo, que prefere não comentar com os familiares para onde vai. “Falo que vou ao shopping, nunca em uma balada gay. Minha mãe já perguntou se sou gay, mas eu sempre nego. É melhor evitar, pois acho que pode complicar um pouco”, explica ele.

AGUA OU REFRIFERANTE?

O espaço é único e pequeno, com apresentações de gogoboys e shows de drag. O som também é basicamente igual ao de um clube adulto. Segundo eles, o maior motivo para sair de casa e deixar de lado as faixas tocadas no computador. Na seleção do DJ Andy, o ambiente é contagiado pela música eletrônica, além dos remixes de divas como Rihanna, Lady Gaga, Beyoncé e Lorena Simpson. “A Lorena é demais! Estamos loucos para assistir um show dela por aqui. Você sabia que ela é brasileira, né? Canta música inglês, mas é brasileira”, anima-se Romulo ao falar sobre a musa de Manaus.

Na pequena pista, também se jogam Ronieli Santos das Virgens e o amigo Bruno Wesley dos Santos Lima, ambos de 16 anos. Com pirulito na mão, eles dançam e arrastam tímidos olhares para os lados. Essa é a segunda vez que eles vão ao clube e confessam que, na primeira, sentiram-se ao mesmo tempo “horrorizados” e “realizados” ao ver tantos homens se beijando. “É claro que eu já havia visto dois homens juntos, mas não tanto, né?”, diverte-se. “Hoje é super natural e tranquilo.”

Meia hora depois, os jovens continuam dançando e carregam uma garrafinha de água nas mãos. “Aqui não vende bebida para menores. Só vendem no piso de cima e a gente não pode ir”, explica Bruno. “Quando sentimos sede, bebemos água ou refrigerante. Nunca cerveja, até porque não gostamos de cerveja”, disse ele que, do lado de fora, confessa beber vinho, smirnoff ou caipirinha. “A maioria bebe vinho da porta para fora. Acho que se alguém ficar com uma pessoa mais velha aqui dentro, ela também consegue beber. Mas a gente não”, garante.

DRAGS E DIVAS

No canto da balada, Marlon Carneiro Soares (foto) espera o amigo chegar. Aos 14 anos, ele demonstra estar bem à vontade com o ambiente e pergunta: “Você é da JUNIOR, né? Gostaria de falar também...” 

O cabelo minuciosamente ajeitado com gel e uma corrente com o símbolo do sexo masculino, que comprou em uma feira da escola, fazem parte da produção. Para ele, o domingo é o melhor dia da semana. Tanto que começa a escolher a roupa no sábado. “Essa matinê é um lugar onde a gente tem a oportunidade de se auto-aceitar. Aqui eu esqueço todos os meus problemas, posso ser livre”, afirma.

Fã incondicional de Lady Gaga, ele fecha os olhos e se realiza quando começa a tocar “Bad Romance” e afirma que a cantora o ajuda a se encontrar. “Além das músicas maravilhosas, é através dela que consigo superar aqueles momentos chatos da adolescência”, afirma.

Assim como a referência do jovem, é possível notar que os exemplos dessa nova geração, pelo menos a que frequenta a matinê, assemelham-se pelas divas da música (Gaga, Beyoncé, Lorena...), mas variam pelas drags, com nomes não tão populares. 

Romulo e Kaique, por exemplo, até ouviram falar dos nomes mais conhecidos, mas para eles, a grande drag do momento chama-se Robytt Moon (foto). “A Robytt arrasa no show. Ah! Não conhece? É a rainha do bate cabelo. Tem o maior bate cabelo do Brasil”, apontam eles para o flyer. “É, ela não está tão bem nessa foto, mas é bem melhor pessoalmente”, defende Romulo.

A drag Cicete Karolyne, que também trabalha como hostss do clube, é um dos pontos fortes da matinê, de acordo com Marlon. “Ela é muito engraçada. Sempre aparece cantando a música da Xuxa e deixa a balada muito divertida”, diz. 

Considerada a rainha dos baixinhos, Cicete sente o carinho. “A criança é mais meiga, amiga, carente”, elogia ela, que chega a acompanhar algumas histórias. “Ixi, eu escuto muitos desabafos aqui. Neste domingo apareceram duas chorando, dizendo que o namorado estava com outro lá dentro. Eu dou conselho, né? Também aparecem mães com a foto do filho e, se eu sei, falo que ele está lá dentro”, entrega. “Até porque não existe problema em estar em uma matinê gay. Eles estão aqui para se divertir, como em uma matinê hétero.” 

BEIJOS E HORMÔNIOS

Fase em que os hormônios explodem, é natural que os desejos também fiquem a flor da pele. “A primeira vez que vim fiquei com 15”, solta Bruno. “Eu sou mais tímido. Venho mais para me divertir”, revela Ronieli, que conversa abertamente com a mãe sobre seus ficantes. 

“Minha mãe pergunta e eu sempre conto. O problema é que ela pensa que eu vou saber o endereço dele, que vou apresentar em casa. A maioria eu nem sei o nome”, gargalha.

Sem anéis de compromisso, Romulo está “enrolado” com um rapaz de 26 anos [muitos se envolvem com homens muito mais velhos]. “Estou acompanhado. Quer dizer, eu estava namorando. Terminei com ele ontem. Ele falou que viria hoje, mas se der bolo então é ex-namorado mesmo. Vamos ver...”, cogitou no início da fila. Durante a matinê, ele encontra o parceiro na pista e reata a relação. “Agora estamos juntos de novo”, comemorou o jovem, que alternava entre ficar abraçado com o namorado e dançando com o amigo.

Todos os entrevistados disseram preferir pessoas mais velhas. E ser mais velho, para eles, pode significar ter 19 ou 20 anos. “Os mais novos só querem bagunça”, deduz Roni. Mas namoro é algo que nem eles pensam. “Eu fico, claro, mas não penso em namorar. Não tenho tempo. Estudo muito, tenho outras tarefas e não teria como me dedicar a outra pessoa. Prefiro ficar solteiro”, enfatiza Marlon.

MAIS ASSUMIDOS?

Ronieli é assumido para a mãe, irmã e amigos. Por ele, o pai também ficaria sabendo de sua sexualidade, mas a mãe, com quem tem um bom contato, o proibiu. “Minha mãe falou seria uma decepção muito grande para ele saber que sou gay. Ele desconfia, tanto que chegou a perguntar, mas ela negou”, declara aparentemente sem mágoas. Trabalhando como vendedor de uma loja, ele diz que almeja conquistar a independência financeira para viver com mais liberdade. E é com o dinheiro do seu trabalho que ele paga o ingresso da matinê.

Marlon pede dinheiro para os pais, que descobriram sua orientação, mas não sabem sobre a matinê. “Meu pai me flagrou conversando com um amigo no telefone e descobriu. Quando estou saindo, falo que vou a uma balada, mas não digo se ela é gay”, frisa. 

Segundo ele, muito do preconceito que os jovens sofrem é proveniente da religião. “A religião faz muita gente ter preconceito. Eu não suporto ver o pastor Silas Malafaia na televisão. Ele usa comparações tão pequenas e um monte de gente acredita. Chega a falar ‘Adão e Ivo”, nossa, nem o pessoal de quinta série fala mais isso”, compara indignado.

Ao falarem sobre homossexualidade, Kaique interrompe: “Acho que ainda sou bi, pois também fico com meninas”. E é cortado por Romulo: “Aloka! Eu tenho nojo de mulher”. Com briguinhas típicas de adolescentes, ambos conseguiram chegar a um consenso e disseram que já nasceram assim, gays ou bis.

Para eles, a oportunidade de ir à matinê só ajuda na auto-aceitação. “Antes deveria ser muito chato só ter que ir a um lugar hétero e se sentir um peixe fora dágua. Na escola ainda é horrível. Hoje aqui é mais normal. Não que seja mais normal, mas é visto com mais naturalidade.”   

TCHAU CINDERELLO

Depois de quase 6h de matinê, o funk toma conta da pista. Muita gente vai embora e, aos poucos, os garotos também saem. Cansados e felizes, caminham rumo ao conforto de suas casas, enquanto os gays mais experientes começam a se aprontar para sair. 

“Tem gente que fala mal, mas a matinê não é uma bosta. Eu venho todos os dias que abre e sempre fico satisfeito”, garante Kaique. “Eu gosto do público e tenho orgulho de ser o que sou. Ainda bem que temos um lugar onde não precisamos nos esconder e viver nossa adolescência livremente”, finaliza Marlon, que nem imagina como era a adolescência dos anos 70, 80 e 90.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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