Pride

Alessandra de Oliveira: eletricista, marido, pai e... TRAVESTI!

Alessandra e a mulher: "O amor dela foi tudo para mim"

Conheci Alessandra de Oliveira em 2009, quando mergulhava no universo trans para escrever o livro reportagem Por um Lugar ao Sol – histórias de travestis e transexuais no mercado de trabalho

De longe, a trans eletricista fugia totalmente dos estereótipos. Tanto pela aparência quanto pela incrível e admirável história de vida. Afinal, Alessandra é uma profissional qualificada em uma profissão considerada masculina, é casada com uma mulher e pai de três lindos filhos. 

Na época, ela morava em Ubatuba, estava com 29 anos e fazia apenas um ano e três meses que havia se assumido trans, embora sempre soubesse de sua verdade. Quem deu apoio total para a transformação - pasmem! - foi a sua apaixonada esposa.

Abaixo, uma história de entrega e amor:  

"Me assumi trans aos 28 anos, mas sempre me senti diferente - apesar de não saber exatamente o que era essa diferença. Abri o jogo com a minha esposa logo quando começamos a namorar e ela, ciente do meu amor fiel e verdadeiro, me surpreendeu e me apoiou.

Por questões externas, vivi como “menino” durante cinco anos do meu casamento. E, acredite, não foi fácil me assumir aos 28 anos, estando casado e tendo três filhos. Entrava em crise existencial, chorava e pensava em fazer bobagens, mas em todas elas a minha esposa esteve ao meu lado. O amor dela foi tudo pra mim!


Hoje, assim como antes, temos um casamento maravilhoso. Vivemos em Ubatuba em uma boa casa, meus filhos estão na escola, me respeitam muito e me amam de verdade.

Minha esposa também me ama e me compreende. Saímos juntas para fazer tudo, compras, levar as crianças no medico, tudo, tudo, tudo! É claro que certas coisas não mudaram em casa como, por exemplo: mesmo sendo travesti sou o MARIDO da minha esposa, sou o PROVEDOR da casa e sou PAI dos meus filhos.



Consegui desvincular o masculino dessas palavras, pois ser marido não me faz macho, ser provedor não me faz masculino, e ser pai não me faz homem. Me sinto feminina e crio meus filhos – dois meninos e uma menina – normalmente".

Dentro de casa, ela, a mulher e os filhos vivem uma família feliz. No trabalho, é eletricista industrial na área de manutenção de uma empresa estadual, prestadora de serviços. Respeitada pelos colegas de trabalho, não sofre piadinhas, mas ainda é chamada pelo nome de batismo. Normas da empresa.

"Na cidade onde moro não sofri qualquer preconceito, só algumas “saias justas” por causa do documento, mas nada gritante. As pessoas ficam admiradas por eu ser uma travesti casada com uma mulher e ter filhos, afinal não é todo dia que se vê um caso assim.

Sou respeitada no meu bairro, pois sempre dei o respeito. Por onde passo, tento tirar essa idéia de que travesti é lixo da sociedade, que podemos ter uma vida normal como todo mundo, que podemos ser “produtivas e prestativas” como qualquer pessoa. Pois o fato de ser travesti não nos faz menor que ninguém!"

Alessandra: exemplo de profissional e pai de família

Alessandra quebra os padrões e as caixas pré-estabelecidas. Afinal, ao contrário do que muita gente pensa, uma travesti pode ter a sua orientação sexual diversificada, assim como qualquer pessoa. Apesar de se identificarem com o feminino, não se sentem atraídas necessariamente por homens.

Isso porque elas não estão em uma categoria de sexualidade [que aborda os desejos sexuais], mas sim de gênero [da pessoa que se identifica com símbolos, vestimentas e comportamentos culturalmente divididos em feminino ou masculino], logo podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais...

Sendo assim, a eletricista embaralha o quebra-cabeça, muda a norma, ressignifica as palavras masculinas e, assim, vive plenamente a sua feminilidade. Uma batalhadora trans que, ao formar a sua autêntica família, prova mais uma vez que diversidade é o melhor caminho para a felicidade!

 ATUALIZAÇÃO Hoje, Alê atua na área de gerenciamento e manutenção eletromecânica e preditiva em saneamento básico na cidade de São José do Rio Preto. Tem 10 anos de casada, idade de sua filha mais velha!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

KIMBERLY disse...

Toda forma de amor tem que ser respeitada ...

Carlos Augusto Pinheiro Da Silva disse...

Eletricista,marido,pai,travesti e sem vergonha

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