Entrevista

‘O importante é estar de bem com o espelho', diz Cristina Andrade, a gordinha vaidosa de ‘O Grande Perdedor’


Por Neto Lucon (O Regional, 2005)

O reality show de gordinhos a caminho do emagrecimento e saúde, O Grande Perdedor, exibido pelo SBT em 2005, contou com a participação da guaçuana Cristiana Andrade. 


No programa, “a loira do batom vermelho” foi integrante da vitoriosa equipe azul e perdeu 6,400kg durante um mês. Após sua eliminação, distribuiu autógrafos, ganhou fãs, marcou presença nos programas do Ratinho e Adriane Galisteu, mas garantiu nem ter pensado em seguir a vida de artista. 

Atualmente, ela é diretora de uma escola de informática de Estiva Gerbi, interior de São Paulo. Considerada pelo apresentador Silvio Santos, a participante mais vaidosa e uma das mais inteligentes, Cristina conta em entrevista como faz para viver sempre feliz. 

- A beleza estereotipa pela mídia interfere na vida das mulheres?

Independente da estética ideal, o importante é você olhar no espelho e gostar do que vê. Em vez de ficar procurando defeitos, procuro observar aquilo que tenho de mais bonito. A partir do momento que você não está satisfeita, realmente é necessário que se procure um médico, nutricionista ou até mesmo um psicólogo. A mídia influência no pensamento de beleza, porém a beleza é relativa. O que pode ser belo para um pode não ser para outro. O importante é você se gostar e, só assim, conseguirá que outras pessoas gostem de você.

- Então, por qual motivo participar de um programa que visa o emagrecimento?

Me inscrevi mais para saber como seria a dinâmica da atração. Fiz a inscrição pela internet, mas ao passar pela bateria de entrevistas, vi que era a participante mais magra entre eles e, por isso, achei que não entraria. Ao mesmo tempo, me deparei com a oportunidade de ter uma orientação alimentar mais saudável. Foi uma experiência positiva.

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- O que foi mais difícil desta experiência?

A saudade da família e a convivência. É difícil conviver com pessoas que você nunca teve contato e, ao mesmo tempo, ficar longe daquelas que você ama. Sou muito apegada a minha mãe, a minha filha e ao meu namorado. Os exercícios e a alimentação não foram tão difíceis. O chá verde, indicado pela nutricionista Cinthia Perine, é que não era nada bom.

- O chá verde trouxe resultados?

Ele tem um sabor ruim, mas realmente funciona. Ele acelera o metabolismo e a queima de gordura. Em sua composição, encontramos antioxidantes importantes como os polifenóis e flavonoides, que ajudam não só no emagrecimento, mas também no rejuvenescimento e na prevenção do câncer. Quando consumido regularmente também previne doenças cardíacas e derrames.

- Depois de tantas dietas, qual é a que mais funcionou?

Dieta não é igual receita de bolo. Muitas pessoas procuram as famosas dietas milagrosas, as quais podem dar um resultado imediato, porém, com o tempo, os quilos serão facilmente recuperados. A dieta tem que ser orientada por um médico ou por um nutricionista, pois para cada pessoa existe um tipo de dieta ou reeducação alimentar específica. O que não pode acontecer é ficar emagrecendo e engordando, com o famoso “efeito sanfona”, que acarreta estrias, flacidez e que causa um resultado retrógrado, pois a estima tende a piorar.

- E qual é a sua dieta?

Atualmente, faço a polêmica dieta das proteínas, dieta embasada no alto consumo de proteínas e na exclusão dos carboidratos. Você pode comer alimentos como ovos, queijo e carne à vontade e, por outro lado, exclui alimentos como açúcares, pão e arroz. Faço o regime de segunda à sexta. De sábado e domingo, tomo cerveja, como chocolate, lasanha... Essa dieta é a dieta dos gordos, de quem gosta de comer (risos).

- Você concilia a dieta com algum exercício físico?

Faço caminhada. Acredito que a caminhada ajuda na saúde física e psicológica. Física devido ao caminhar, perder calorias, exercitar as pernas... E a psicológica porque é o momento em que converso com a minha filha ou com meu namorado.
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- No programa você foi considerada a participante mais vaidosa. Quais são seus cuidados com a beleza?

Sempre gostei de me cuidar. Como meu cabelo não é liso e é pintado, a cada semana chapinha e banho de creme. Também passo queratina e após 5 minutos hidratante. Para deixar o corpo perfumado e hidratado, utilizo óleo três vezes por semana. Na maquiagem, gosto de batom vermelho, sombra e rímel, em qualquer hora do dia e da noite. Em minhas unhas também dou preferência aos esmaltes vermelhos, claro (risos).

- Você já foi casada duas vezes. O que é essencial em uma relação?

A confiança é muito importante. Em qualquer tipo de relacionamento, seja entre marido e mulher, pai e filho, a confiança deve prevalecer. Outro ponto essencial é a o respeito. Cada um tem que respeitar o espaço do outro. Do mesmo jeito que o marido tem as suas colocações, suas opiniões, a mulher também tem as dela. O ideal seria ter uma troca, às vezes você ceder, às vezes ele. Sem competição, pois ela acaba desgastando a relação. Não vejo o casamento como um bicho de sete cabeças. Qual o problema de duas pessoas se amarem e quererem morar juntas? Qual o problema de esse amor acabar e elas resolverem se divorciar? Acho ruim permanecer em uma relação por comodismo, conveniência, atribuindo muitas vezes a culpa nos filhos, os quais se sentem culpados pela felicidade dos pais. Não deu, tchau.

- Qual é o tipo de relação que os pais devem ter com os filhos? 

Uma relação de verdadeiros amigos, em que se encontra a sinceridade e a cumplicidade. Muitos pais acabam reprimindo seus filhos quando estes contam, por exemplo, sobre o primeiro beijo. Mas isso acaba gerando um receio de o filho contar sobre outros assuntos ao pai. É difícil abordar a sexualidade com os filhos, porém é necessário. Eu falo sobre a importância do preservativo, as consequências de uma gravidez, virgindade. Se a minha filha [Jéssica Cristina Cassiano da Silva] não perguntar para mim, ela vai perguntar para quem? Isso sem falar da alimentação, afinal a maioria dos adultos obesos foi uma criança obesa.

- Como você avalia a atual participação da mulher na sociedade?

Apesar dos inúmeros preconceitos que ainda sofremos, observo uma mudança muito positiva. Atualmente, a mulher exige muito mais os seus direitos e busca sem medos conquistar o seu espaço. Ela é a melhor artista do mundo. Hoje em dia, em seus mil e um papéis, ela é mulher, amante, dona de casa, empresária... De um jeito ou de outro, conseguimos conciliar tudo.

- Como está sendo a repercussão do programa?

 Muito engraçada. Quando estou em um restaurante, as pessoas ficam olhando o que estou comendo (risos). Outro dia uma senhora até me impediu de comprar pão. As senhoras, fãs do Silvio Santos, são a maioria desse público. Elas apertam, querem saber se você é de verdade (risos).

- Não pretende seguir carreira na TV?

Cada pessoa nasceu com um dom. Televisão é ilusão. Ganha-se muito dinheiro apenas os grandes contratos, como os da Hebe Camargo, Adriane Galisteu... Adoro ser diretora, trabalhar com adolescente. Estou muito feliz assim. //
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OBS: Foi após fuçar vários jornais antigos que encontrei a primeira entrevista da minha carreira, publicada pelo jornal O Regional, em outubro de 2005. Trata-se de um gostoso bate- papo sobre espelho, papel feminino e comportamento com a querida Cristina Andrade, que participou do reality show O Grande Perdedor, do SBT.

Na época, eu era um mero foca [aspirante a jornalista], sonhador e voluntário da publicação [nem remunerado eu era]. Mesmo assim, fui elogiado por Amauri Rocha – o melhor editor que tive até hoje - que ao ler a entrevista perguntou animado: “Foi você mesmo que fez? Aeee, garoto! Você leva jeito pra isso”.

Sem exageros, posso dizer que essa entrevista e o incentivo de Amauri me impulsionaram a querer fazer outras e outras, e a persistir nesta tão difícil profissão. Obrigado ao Amauri e a Cristina por confiarem em mim e por fazerem parte da minha história.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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