Trans em Debate

Homem trans, ator Leo Moreira Sá diz que lei estadual pode servir de argumento para travestis e transexuais usarem banheiro

Na coluna Trans em Debate desta semana, discutimos sobre qual banheiro travestis e transexuais devem utilizar. O único homem transexual da roda, o ator talentoso Léo Moreira Sá, deu uma verdadeira aula sobre a questão e propôs um inteligente argumento, baseado na Lei Estadual 10.948/2001.

Embora não haja legislação que permita a entrada de trans em banheiros contrários ao sexo biológico, a lei “constituí ato atentatório ou discriminatório ao direito dos cidadãos proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente aberto ao público".

Inteligente, embasado e repleto de contextos, Leo fala ainda sobre a questão histórica e propõe o banheiro comum, sem segregações, para a sociedade. Confira o discurso inédito na íntegra:

“O que nós precisamos conquistar, antes de tudo, é o direito a autodenominação. Somos nós quem tem que dizer quem somos e não a sociedade. A cultura nos define a partir do nosso sexo biológico e não a partir da nossa identidade de gênero, ou seja, a partir daquilo que somos, independente da nossa estrutura biológica. Essa forma reducionista de categorizar as nossas existências nos traz muitos transtornos e constantemente somos vítimas no nosso cotidiano de violência moral, psicológica e física em decorrência disso. Numa sociedade democrática, temos o direito de escolha, e esse direito não pode ser cerceado num espaço como o banheiro público.

Nós, transexuais e travestis, precisamos denunciar toda e qualquer discriminação, e mesmo que ainda não tenha uma legislação específica pra assegurar o nosso direito a escolher livremente qual banheiro público que queremos usar, temos a Lei Estadual 10.948/2001, cujo artigo estabelece que "constituí ato atentatório ou discriminatório ao direito dos cidadãos homossexuais, bissexuais e transgêneros proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente aberto ao público". Só haverá uma mudança se denunciarmos sempre!

Sou definitivamente contra um terceiro banheiro porque tem caráter segregacionista. Sou a favor de um banheiro comum a todos, porque o banheiro público é um espaço social que se constituiu como um universo de convivência entre pessoas de diversas cores e idiomas, de diferentes classes socias, faixas etárias, comportamentos, estilos, etc, e pode ser também um espaço de convivência e respeito com as diferentes expressões de gênero e orientação social. 

Eu sempre tive muitos problemas em frequentar banheiros públicos. Na minha adolescência, quando eu ainda tentava me adequar ao gênero feminino, sempre que eu entrava no banheiro das meninas, elas entravam em pânico! Me lembro uma vez, quando eu era da banda Mercenárias nos anos 80, eu usava um casaco preto todo fechado até os pés, moicano e óculos escuros e entrei no banheiro feminino do aeroporto de Congonhas; tinha uma funcionária que tava limpando o banheiro, e quando ela me viu soltou um grito e saiu correndo... Ela foi chamar a polícia dizendo que tinha entrado um homem no banheiro feminino. Quando eu saí o guarda estava me esperando e me fez mostrar os meus documentos.

Hoje, uso o banheiro público masculino e nunca sofri nenhuma discriminação porque nunca questionaram a minha masculinidade, mas ainda sofro quando preciso ir ao banheiro porque normalmente eles só tem mictórios de parede ou reservados com portas pela metade... Os do shopping Frei Caneca as porta são de vidro com frestas enormes.

Investigando os fatos históricos, foi no Egito, em torno de 2100 a.C., que surgiram as primeiras latrinas usadas por pessoas sentadas, mas os primeiros banheiros públicos datam do século III D.C. na Roma Antiga e eram frequentados tanto por homens quanto por mulheres que se reuniam e defecavam lado a lado. E na Idade Média todas as pessoas rotavam, defecavam e urinavam em espaços públicos sem distinção de gêneros.

Não é por acaso que os primeiro banheiros públicos com separação por gêneros datam depois da Revolução francesa, justamente na época em que as novas teorias biológicas sobre sexualidade e a necessidade jurídica de se distinguir os sexos, deram origem aos conceitos modernos de homem e mulher com base na matriz binária heteroreprodutiva. Todas as outras infinitas possibilidades de expressões de gênero foram patologizadas e fortemente estigmatizadas, e por consequência discriminadas principalmente nos espaços públicos”.



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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