Entrevista

Nany People questiona submissão das mulheres em monólogo: 'Ainda nos tornamos governantas dos maridos'; leia entrevista



De leque ágil na mão, texto na ponta da língua e cabelos rubros, a atriz, apresentadora e humorista  Nany People (47) solta aos quatro ventos: “Sou a mulher que se auto fez”E tamanha construção já foi ressaltada por Hebe Camargo(1929-2012), respeitada durante o reality show A Fazenda e consagrada no carnaval 2013.

Agora, a divertida estrela feminina – e feminista! - se prepara para entrar em cartaz no dia 20 de fevereiro com o espetáculo Meninas Crescidas Não Choram, de Yuri Gofman, no Teatro da Livraria da Vila do Shopping JK, em São Paulo.

Ácida, ágil e inteligente, Nany dá vida à polêmica Lilith Éden, uma escritora e terapeuta, que, cansada do machismo que ronda a sociedade, procura alertar as mulheres sobre os papeis arcaicos que elas assumem nos relacionamentos com os homens. Faz rir, pensar e transformar as relações.

Tanto que, surpresa com o conteúdo empírico, a atriz garante que a peça mudou a sua própria vida e a fez repensar até mesmo a postura de ser mulher e a maneira de como lida com o amor. Solteira, ela afirma que passou a aprender dizer “não” e que percebe um novo desejo nos últimos anos: o de ser mãe.Confira: 

- Na maioria de seus espetáculos, tais como o ‘Nany People Salvou meu Casamento’, as questões sobre relacionamento amoroso sempre aparecem. Por que esta afinidade com o tema?
Tenho a tese de que o teatro só vale a pena quando tem o poder de transformar o outro. Então, nas minhas apresentações, procuro mandar uma mensagem, um “fica a dica”, sabe? Acredito que as pessoas se acomodam facilmente com uma situação, com os relacionamentos, então procuro abrir possibilidades, trazer reflexões. Como transitei entre o universo masculino e feminino, consigo falar mais sobre o ser humano. E sempre com o humor, pois ele chega mais fácil para as pessoas.
- Sua personagem questiona a postura submissa das mulheres em relação aos homens. Em pleno século 21, por que ainda vivemos esses resquícios vibrantes do machismo?
Querido, existem mulheres que acham que ser independente dá muito trabalho. Então, para elas, é mais fácil leiloar a virgindade, se submeter ao que o marido quer, fingir que é feliz, tudo para comprar a bolsa de grife no final do dia. A Lilith diz que mulherada foi atrás do prejuízo nos últimos anos, se libertou, se emancipou, mas agora cai na curva e vira a governanta do marido. Até mesmo as que chegam à independência acabam sofrendo em um patamar da vida, porque aparece a necessidade de se apaixonar, de querer ter filhos...



- Você acha que o amor emburrece as pessoas?
Não, não emburrece. O que emburrece é a maneira como levamos o amor. Quando você está apaixonada isso só canaliza. O amor tem que ser levado como algo a mais na vida, não como algo único, absoluto. A mulher tem que entender que ela é profissional, amiga, irmã, estudante e... também casada. Ser casada é um algo a mais na vida dela, entende? Muitas vão até as últimas consequências , abandonam os amigos, sofrem e se culpam demais com um término, tudo porque se entregaram demais. Tem mulher que se culpa por uma traição: “Onde foi que deixei de seduzi-lo?”. Ah, para, por favor! Aprender a ficar só é o primeiro passo para ficarem junto de nós.
- Existe machismo até mesmo no humor feito por mulheres?
Existe, tanto que quando a mulher faz humor e fala um palavrão, ela faz se depondo. A Marília Gabriela me questionou: ‘Mas não é natural que a pessoa se detone para fazer graça?’. É, mas ela não precisa dar ponto para o homem, falar de questões que denigrem a sua própria imagem, pois é essa mensagem que vai ficar. Por toda a minha construção, a construção de minha identidade feminina, eu faço humor mais feminista que muitas mulheres.
- Muitos humoristas engraçadíssimos no palco são bastante sérios na vida privada. Você é bem humorada?
Sou e dou risada até de fratura exposta (risos). Quando era pequena, era tímida, mas meus pais eram muito engraçados e me inspiraram muito. Meu pai, que estava na cadeira de roda, pedia "replay" quando caía no chão. Hoje, dou risada de tudo e só passei a me perdoar mais quando soube das histórias da Hebe, que dava risada em velório. Se a Hebe podia, tudo bem, vou me confortar. Mas não vou nestas ocasiões, porque acaba virando piada. 
- De alguma maneira esses valores feministas e humorados da peça mexeram com a sua maneira de observar os relacionamentos?
Essa peça me libertou, pois estava carregando o mundo e muita gente nas costas. Minha casa, por exemplo, vivia sempre cheia de gente e botei todo mundo para correr. Aprendi a dizer não e a deixar que as pessoas passem por aquilo que elas têm que passar. Afinal, ser generosa é qualidade, mas ser generosa demais é um defeito.
- E como é a Nany apaixonada?


Sou Mariazinha, lavo roupa, trago café na cama (risos). Mas agora estou solteira e adorando. A primeira pergunta que faço é se ele gosta de cachorro, porque tenho quatro e uma [a Graça, que foi retirada da rua] que dorme na minha cama e é ciumenta. Amar é um trabalho, um bordado que temos que estar a fim de fazer conta. Já fiz loucuras de sair de São Paulo, pegar um avião para Belo Horizonte só para um jantar. Daí, vi ele me traindo, dei na cara e acabei com tudo. Espero que agora eu mude.
- Você decidiu assumir-se integralmente Nany People e mulher quando um namorado encontrou e se assustou com você desmontada, de homem. Que fim deu esse romance?
Não deu certo porque descobri que ele tinha déficit de atenção, não se deu conta com quem estava se relacionando. Era uma pessoa muito complicada e eu não estava disposta a pagar por aquele pacote, pois quando você casa com alguém vem sogra, tia, irmão, problemas... De qualquer forma, ele foi um divisor de águas, me fez entender que não estava assumindo a minha essência, que até então estava apenas brincando de ser [mulher]. Quando voltava de uma apresentação, era o Tio Chico. Aos 37 anos, olhei para o espelho e falei: para de se enganar! Hoje, sou a Cinderella.
- Você diz que é a mulher que se auto fez. Se pudesse escolher, teria nascido biologicamente mulher?
Ai, não sei. Talvez eu me tornasse uma mulher submissa, ficasse lá na minha cidade e não fosse traçar a história que tracei. Ao mesmo tempo, talvez eu tivesse um espírito mais revolucionário, fosse mais determinada e mandasse em casa e no marido (risos). Mas preferia ter vindo Nany People, tenho orgulho da minha história, da minha carreira.
- Pensa em ser mãe?
Agora você me lembrou de uma cassetada da vida. Ano passado, quase adotei uma criança de um ano e cinco meses. Fui visitar uma amiga, que trabalha no Conselho Tutelar, e um menininho veio até mim e abraçou a minha perna. Ela levou um susto porque ele, que tinha histórico de uma mãe drogada, essas coisas, não ia com ninguém. Peguei no colo, dei uma volta e ficamos encantados um com o outro. Depois, soube que ele foi para a adoção. Me interessei, mas outros casais já estavam na fila e eu não poderia fazer mais nada. Ele tinha um olhar tão forte, tão forte, que me marcou. Tenho uma foto dele até hoje e pensei muito nele neste natal. Sei que na minha linha da mão existe uma criança e quero ser mãe, sim, quero viver essa experiência.



- Você foi a única repórter do programa Hebe, tinha uma relação muito próxima da apresentadora, mas não se pronunciou sobre a morte dela. Por quê?
Tudo o que eu tinha que falar para a Hebe, eu falei diretamente para ela, em vida, não sobrou uma vírgula. Além disso, fui saber da morte por uma jornalista. Ela me ligou pela manhã, pediu para eu dar um depoimento, mas eu não sabia de nada. Quando ela me perguntou se eu iria ao velório, comecei a chorar e não consegui terminar. Hebe foi a minha segunda mãe e me disse coisas que jamais vou esquecer. No último encontro, ela falou: “Nunca deixe de ser você. Você fala o certo, mesmo quando briga, está certa. Eu assino em baixo tudo o que você disser”.
- Nany, qual é o seu maior sonho?
Meu sonho é ter um programa de televisão, mas um programa que tenha a minha identidade. Gosto de entretenimento e informação, amaria um talk show. Sei que sei fazer e todo mundo sabe que eu faria muito bem. Seria uma grande Ellen Degeneres, pois, como o Amaury Jr. me disse, tenho uma maneira de perguntar que não agride, diverte!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.