Entrevista

'Já abri mão de muito dinheiro em nome da ética’, diz a apresentadora Regina Volpato; leia entrevista


Por Neto Lucon (Caras, 2013/ Foto: Lailson Santos)
“Ela é linda de viver, tem uma voz maravilhosa e é especialista em assuntos que mexem com o coração da gente”. Essas foram as palavras de Hebe Camargo (1929-2012) ao receber Regina Volpato (44) em seu programa homônimo na RedeTV!. Na ocasião, Regina estava afastada das telinhas, desde encerrou a versão soft do Casos de Família, do SBT, e contou com a campanha da rainha para retomar a carreira. 
“Ela não pode ficar de fora da TV, é um talento”, disse Hebe, que passado alguns meses, viu sua afilhada e amiga ser de fato contratada pela emissora, comandar o Manhã Maior e agradecer as várias contribuições em uma nova participação. Hebe explicou a admiração: “Eu assisto muito televisão, então observo as pessoas e penso: ‘Essa nasceu para isso, é uma estrela’”, continuou.

Ao lado de Daniela Albuquerque (30), Regina brilhou e esbanjou talento na atração e, assim como Hebe, conseguiu elevar o nível e trazer elegância a um programa popular. Com o dom da comunicação, voz agradável e suave, a apresentadora driblou os percalços do ao vivo, se esquivou das fofocas de bastidores e recebe elogios de colegas de trabalho e telespectadores.

Pela primeira vez, a reservada apresentadora abre a sua casa à CARAS Online, revela detalhes de sua vida pessoal, sonhos e seus próximos projetos. “Sinto falta de conversar com o público”.   
- Ao contrário de muitas celebridades, você não se expõe tanto e afirma até que é tímida. É timidez mesmo ou uma maneira de preservar a sua vida?
Acho que são os dois. Em festas, por exemplo, não sou daquelas que mais falam, que mais aparecem, pois é da minha natureza observar mais. Não é por acaso que moro neste lugar, onde tenho o meu quintal, o jardim, onde é silencioso... E por consequência gosto de preservar a minha intimidade para ir tranquilamente à feira, à padaria, gosto de ter esse direito. Se eu me exponho, eu perco isso. Não compreendo as pessoas que falam sempre de si mesma, falam sempre da vida pessoal, aí quando são abordadas, não gostam. Poxa vida, você deu essa liberdade. Eu me mantenho reservada e as pessoas me respeitam.
- Você compara a sua vida ao movimento das tartarugas. Explica melhor...
As tartarugas ficam no fundo do mar um tempão e aí elas sobem pegam o ar e voltam para o fundo. Fiquei olhando e vi que isso acontece comigo. Estou sempre envolvida com o trabalho, daí quando acho que já deu, que preciso me renovar, colocar a cabeça para fora, eu vou, saio e me preparo para voltar. É como agora, neste momento. Olha, não tenho nada em vista - é faro - mas acho que em 2013 vai acontecer alguma coisa na minha carreira: uma guinada, outro rumo, pode até ser na RedeTV!, pode até ser no ‘Se Liga Brasil’, mas eu acho que vai dar um outro colorido para minha carreira.
- O ‘Se Liga Brasil’ é o tipo de programa que te satisfaz como profissional?
Sou muito grata por exercer a minha profissão sempre. Hoje, estou em um projeto da emissora e visto a camisa para que dê certo. Por intuição, sinto falta de conversar com as pessoas [Regina trabalha somente no estúdio]. Sempre gostei de ouvir histórias, comecei a carreira na Fundação Roberto Marinho, entrevistando adultos que estavam retomando os estudos depois de uma vida muito dura. Então, hoje sinto falta de conversar com estes guerreiros anônimos, que na vida real são verdadeiros artistas.
- Você é conhecida como uma apresentadora elegante e que trabalha em nome da ética. Como é fazer parte de um sistema de televisão que muitas vezes busca a audiência a fórceps?
Trabalhar com aquilo que gosto e ser reconhecida pela qualidade do meu trabalho é um troféu. Nesta carreira, é muito difícil olhar para trás e sentir orgulho do que se fez. Eu me sinto realizada totalmente pela minha história. Já tive que renunciar muita coisa, tive que dizer “não” a muitas outras. Muitas vezes abri mão de ter dinheiro em nome da ética, investi em  projetos que não traziam muita remuneração, mas que faziam sentido para mim. Esse tipo de escolha, que custa muito caro e que me enche de orgulho, são escolhas que o público se identifica. O telespectador não é bobo, não é idiota, não dá para ludibriar. Dá para enganar durante um tempo, mas não o tempo todo. As pessoas identificam quem é sério e quem não é. E eu sempre sou elogiada.


- Foi em nome da ética que você deixou de apresentar o ‘Casos de Família’, que se tornou mais pesado a partir de 2009?
Não gosto de fazer o que eu não gosto de ver. Não gosto de violência, não gosto que coloque o outro em uma situação constrangedora, que tire proveito de alguém menos favorecido por qualquer motivo. Não gosto disso, então não vou promover esse tipo de situação. Para mim é inconcebível fazer graça com alguém que senta na minha frente e divide dores, amarguras, angustias. Respeitar a dor do outro é básico, em qualquer situação. Quando apresentei o ‘Casos de Família’, mesmo nos programas mais engraçados, eu procurava entender o outro e levar de uma maneira gostosa e respeitável.

- Os seus trabalhos sempre são para a classe mais popular. Você gosta de apresentar para este público?
Eu adoro comunicação popular, sempre gostei. Para mim, comunicação de verdade é comunicação que todo mundo entende. Mas acho que isso não tem nada a ver com baixo nível, gritar, falar errado. Tudo bem o entrevistado falar errado, mas quem se dispõe a apresentar não deve. Falar corretamente não é falar difícil e ser popular não é gritar ou formular frases malfeitas. O Silvio Santos e a Hebe são pessoas populares e que conseguem trazer a elegância.
- Hebe e Silvio são figuras em que você se espelha?
Lógico. Para começo de conversa, eu devo muito aos dois. E sem dúvidas são dois modelos. Ontem eu estava assistindo Silvio Santos e vi que vai ao auditório, ele brinca, faz as graças, mas não fala errado, não grita, é super correto. Eu devo ao Silvio porque ele me deu uma oportunidade maravilhosa, porque ele me ensinou, porque ele foi tolerante comigo, porque foi um bom patrão. Também devo muito a Hebe.
- A Hebe sempre te elogiava nos programas e dizia ter muita admiração por você. Eram de fato amigas?
A Hebe sempre me recebeu com muito carinho e me orientava muito. Ela ligava para mim várias vezes e me incentivava. Tanto que a primeira vez que pisei na RedeTV! foi através de um convite dela para participar do programa “Hebe”. Lá, ela falava: “A Regina tem que vir pra cá, não pode ficar fora do ar, faz muita falta”. Ela conversava comigo e , quando decidi dar um tempo com o “Casos de Família”, recebi um telefonema dela para saber se estava tudo bem. Era uma pessoa que, apesar de todos os compromissos, conseguia estar presente na vida dos amigos. Ela dizia que é a minha madrinha e de fato é. Foi uma honra todos os momentos em que estivemos juntas.



- Sua entrada na RedeTV! ocorreu quando a emissora estava com ânimos quentes. A Keyla Lima, que apresentava o ‘Manhã Maior’,havia feito um discurso bastante espinhoso em sua despedida. Como foi entrar na atração no dia seguinte?
Eu já frequentava a emissora anteriormente, mas na despedida da Keyla eu não estava presente. Pelo que vi, a produção estava tão envolvida em terminar o programa e continuar ele com uma nova apresentadora – pois, quando muda uma apresentadora, muda tudo - que esta questão da Keyla passou, tudo foi no embalo. Só depois é que a história foi tomando um corpo e as pessoas começaram a ver aquele trecho. Comigo, talvez por muita elegância, a produção e nem ninguém repercutiu. Todos sabiam que eu estava extremamente nervosa, pois estava há mais de 2 anos fora do ar, e que aquele era um momento importante. Eu estava emocionadíssima por voltar e querer dar conta, então a questão da Keyla foi menor que a minha vontade de querer fazer dar certo.
- Como este período em que você ficou afastada da TV?
Eu sofri muito, pois sentia todos os dias muita falta de exercer a minha profissão. Não teve um dia em que eu dissesse: “Ai, que bom, hoje eu não tenho que trabalhar”. Era sempre, ai, que falta, ai que saudade.  Fiquei fora porque não tinha aparecido nenhuma oportunidade concreta e que tivesse dado certo. Procurei entender aquele momento como: “A vida está dando esse momento para você se reciclar”. E foi isso que eu fui fazer. Fiz uma porção de coisas legais e acabou sendo importante para outros aspectos.
- Ao lado da Daniela Albuquerque, você já enfrentou algumas situações imprevistas do ao vivo, que pipocaram na internet. Você perdeu o medo de dar vexame?
Quando você gagueja, comete alguma gafe na vida, isso passa. Com a câmera no rosto, a proporção é outra. Mas posso dizer que perdi 100% o medo de dar vexame. E não só no programa, mas na vida. Eu perdi e, olha, tenho me divertido. Vou estar até em escola de samba.
- Será destaque de alguma escola de samba? Sabe sambar?
É verdade, serei destaque da Vila Isabel, fui apresentada neste mês na escola. Teve festa das passistas e eu, com a minha ginga toda (risos). Não sei sambar nem com os braços e é por isso que estou saindo de destaque. Ainda estamos vendo o vestido, mas uma coisa eu garanto: pelada eu não vou, né? (risos).
Você está mais bonita agora que na época do “Casos de Família”. Fez algo?
Não fiz. Acho que estou mais relaxada, tenho uma vida mais serena, perdi o medo de dar vexame... Hoje, tenho mais tempo para treinar, correr, fazer ioga, cuidar da minha alimentação, a minha realidade é mais tranquila, tudo isso ajuda. Nunca fiz plástica e não tenho nenhuma intervenção cirurgia. Pode ser que mais para frente eu queira fazer algo, mas hoje eu acho o corpo muito sagrado e tenho medo. Se eu estou saudável, está tudo funcionando bem, porque eu vou inventar moda?
- Em casa, depois do trabalho, o que você faz para relaxar?
Eu adoro ficar em casa. Abro o meu vinho, o meu espumante, vou para o ofurô, fico lendo. Aqui tem passarinho, tem bastante verde. Quando eu quero relaxar mesmo, eu fico na minha casa. É por isso que não costumo sair para badalação e ainda tenho a desculpa de que tenho que dormir cedo para trabalhar cedo.


- Você tem um belo piano na sala. Toca?
Olha, já fui uma ótima pianista, de ganhar concurso e tudo. Era a melhor a aluna do conservatório. Eu estudei piano dos 6 anos até os 17, mas parei quando vim para São Paulo. Para você ter ideia, os meus pais não tinham dinheiro para comprar piano e eu estudava na mesa, até eles conseguirem um piano usado. Quando eu vim para São Paulo, parei. Desde 2006, tenho este piano, toco muito de vez em quando, só para mim, para relaxar, mas não é nem 1/3 de quando eu tocava na infância.
- Você cozinha?
Eu cozinho e sou especialista em aproveitar o que tem na geladeira. Então, sempre tenho coisas gostosas: lula, camarão, carne, molho vermelho. Quando dá vontade de comer um risoto, vou lá e faço. Ultimamente tenho feito bastante frutos do mar. Fiquei muito tempo sem fazer e agora estou retomando este hábito.
- Você passa uma imagem de uma mulher muito equilibrada. Você nunca perde a cabeça?
Quando dou uns gritos, a minha filha Rafaela (15) fala: “Todo mundo pensa que você é sempre equilibrada” (risos). Sou normal, perco a cabeça sempre, dou uns gritos. Faço isso quando a Tina [uma cachorrinha poodle, de 8 anos] faz xixi no tapete, quando mentem para mim, quando subestimam a minha inteligência, com algum combinado não cumprido, tudo isso me deixa bem brava. Uma pessoa equilibrada é alguém com todos os sentimentos e sensações. Eu desconfio de quem é feliz o tempo todo. Ficar brava é normal, a questão é como você trabalha esse sentimento. Tem gente que dá lampadada, eu calço um tênis e vou correr. Mas admito que já me peguei gritando com a Rafaela no supermercado (risos).
- Qual é o seu sonho?
Sou muito grata, feliz e realizada pelo que já conquistei, mas profissionalmente eu ainda não fiz algo que fosse a minha cara e que fosse um projeto meu. Eu sou otimista por natureza, então torço para que aconteça em 2013. Mas se não acontecer, pode ser que acontece no outro ano ou que nunca aconteça. Tanta gente quer fazer um monte de coisas e não consegue, e tudo bem. O importante é você fazer a sua parte, o restante é consequência.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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