Trans em Debate

Trans em debate respondem: O que é ser mulher?

Seres que remetem a variados e controversos sentimentos, definições e auto-definições. Homens? Mulheres? Mulheres em corpos de homens? Homens que querem ser mulheres? A junção do masculino e feminino em um só corpo? 

Falar sobre transgêneros – ou seja, de pessoas que transitam de um gênero ao outro, como as travestis e transexuais - exige alta reflexão. Afinal, ainda é tabu reavaliar conceitos sobre o que é macho, fêmea, sexo, sexualidade, gênero e identidade.

Para uns, são a personificação dos fins dos tempos: homossexuais depravados, que desafiam as regras pré-estabelecidas com a finalidade de ganhar a vida com a venda do corpo. Há aqueles que as encaram como um mero fetiche. E existe quem as observam como alguém em busca da felicidade. Pessoas que se identificam com o gênero aposto ao sexo biológico e procuram, através das transformações corporais, a auto-identificação.

A psicologia, a medicina e as ciências sociais trazem definições particulares. Argumentadas por teses de suas áreas, elas não se anulam, mas constroem e arquivam a ‘evolução’ ou transformação dos pensamentos da época e contribuem para reflexões contemporâneas. 

Apesar de não desprezar as referências da medicina e psicologia, que procuram explicar e/ou analisar os porquês do comportamento, procuro utilizar os estudos e definições das ciências sociais, que observam as travestis e transexuais como mais uma forma de manifestação da complexidade sexual do ser humano e de suas identidades. 

Afinal, o que é ser homem, ser mulher, ser travesti, ser transexual são palavras e atributos que se ressignificam  com o passar o tempo. E encontram respostas diversas. Há mulheres como Cássia Eller, como Paris Hilton, como Madre Teresa de Calcutá, como Marília Gabriela, como Roberta Close, como Elza Soares, como Dilma Rousseff....

Abaixo, as meninas respondem o que é ser mulher:


Costumo citar Simone de Beavouir: ‘Ninguém nasce mulher, torna-se mulher’. Me orgulho de ser 100% travesti e me sinto realizada. Me aceito com a minha genitália, gosto de me ver nua em frente ao espelho, sem ter vergonha. 

Aprendi a me amar e a me respeitar. No início, acreditava ser transexual, mas o mundo e os relacionamentos me mostraram que é possível, sim, ser feliz, e se auto-aceitar como uma ‘mulher com surpresa’. Muitas vezes, com pontos positivos e negativos por esse algo a mais.

Não é o fato de ser uma travesti que sou menos mulher que uma biológica (que nasceu mulher) ou mesmo uma transexual operada. Aliás, vejo que nós travestis estamos muito mais femininas que a maioria das mulheres e mulheres transexuais que vemos por aí. Na minha condição de travesti, por exemplo, não conseguiria usar o meu pênis em uma relação com mulher. Mas já vi muitas transexuais que já tiveram filhos e são pais por relacionamentos antes da operação.

Tenho plena consciência que no meu caso a cirurgia [de resignação sexual, popularmente conhecida como mudança de sexo] nunca me tornaria mulher de nascimento, mas respeito as transexuais que acreditam nisso. A conclusão que tenho é que ser mulher está na mente e na alma, independente de feminilidade e belezas externas.




“Mulher é um papel de gênero imposto pela sociedade. Você não nasce mulher, nasce do sexo feminino e é moldada até se tornar uma referência mais próxima de mulher. O maior erro social é impor o que a criança deve gostar de acordo com o sexo biológico que ela carrega. 

Roupinhas azuis para meninos e rosas para meninas. Meninos brincam de carrinho, meninas de boneca. É um erro social não estimular mulheres a brincar com ferramentas, pois perdemos a oportunidade de futuras engenheiras ou mecânicas. E homens a não brincarem de casinha, pois perdemos que ele tenha responsabilidade de ajudar no lar.

Os papeis aceitáveis pela nossa sociedade são bem extremistas ou você é homem com pênis, machista, turrão, insensível e opressor. Ou você é uma mulher com vagina, submissa, delicada, sensível e obediente. Pouco a pouco mudamos esse cenário.

Sou uma mulher e não há como definir de outra forma. Percebo que a sociedade ainda não está preparada para receber de braços abertos as novas mulheres da nossa sociedade. Mulheres que podem carregar o sexo biológico masculino ou feminino, que podem ser femininas ou mais masculinizadas. 

Não gosto de nomenclaturas, mas sabemos que há um erro grande em acreditar que a travesti ou a transexual é gay. O fato de estar presente num mesmo contexto LGBT, mais conhecido como bandeira gay, não as define dessa força. Aliás, se forem prestar atenção na sigla temos as três primeiras letras representando a identidade sexual do indivíduo e apenas uma referente a identidade de gênero. Na época que houve a junção, havia a confusão de que “tudo era gay”.

Geralmente, as trans ou travestis intersexuais sofrem por não aceitarem o corpo de acordo com o seu sexo. Algumas até aceitam, mas as transformações físicas na puberdade (neste caso, naturais e contrárias ao sexo biológico) causam transtornos em suas vidas, pois elas não entendem o que ocorre naturalmente com o corpo. Eu mesma, por exemplo, passei a ter um corpo feminino antes mesmo de começar a tomar hormônio feminino.

É por isso que digo que, Indiferente da forma com que tudo ocorra, na minha concepção não existe mais ou menos mulher. Somos todas mulheres. 

Patricia Araújo

Para mim, não tem segredo. É sabido que para a sociedade mulher é aquela que nasce biologicamente com o sexo feminino. Mas hoje me considero um ser iluminado por Deus, que com dom, vontade e sentimento feminino consegui me tornar também uma linda mulher. Os conservadores e preconceituosos, querendo ou não, devem se preparar para nos respeitar e legitimar a nossa existência feminina.


 Foi uma busca, uma construção e uma realização. Sou uma transex e não penso na operação, mas isso não faz de mim homem. Vivo 24h como mulher e isso deve ser o mais importante no tratamento dado a mim. O passado, o que eu tenho na intimidade, só diz respeito a mim e ao meu parceiro. Para quem me vê, sou uma mulher e ponto.

"Acredito muito no poder do sentimento. Ser mulher, para mim, é se sentir como mulher, é viver como mulher, é caminhar, falar, agir em geral como uma. Eu sempre me senti mulher, mesmo antes de fazer qualquer operação. Somos o que queremos ser, pois se a nossa mente age de tal forma, acabamos nos transformando no que ela quer.

Cada pessoa vive de uma maneira diferente e é o que pode ser. Somos o que a nossa mente nos permite e estamos sempre em busca da nossa felicidade. Não gosto de comparar quem é mais mulher – uma travesti ou uma transexual – porque somos o que sentimos e sentimos o que somos. É importante respeitar a particularidade, os sentimentos e as auto-definições". 


“Muita gente acha que ser mulher é simplesmente colocar uma saia, deixar o cabelo crescer falar fino e pronto... Mas será que é isso mesmo?

Definição do Wikipédia: ‘Uma mulher (do latim muliere[1]) é um ser humano adulto do sexo feminino. Na infância, normalmente é denominada em português como "menina" e, na adolescência, como "moça"ou "rapariga". O termo "mulher" é usado para indicar tanto distinções sexuais biológicas quanto distinções nos papéis sócio-culturais’

Nós, travestis e transexuais, usamos a distinção sócio-cultural para nos identificarmos na sociedade, tanto que passamos a ter algumas características ‘femininas’ para mostrarmos essa distinção (e que se dane a biologia... risos).

Porém, para mim, ser mulher é algo que vai além da compreensão, pois seria necessário uma referência, um modelo. E existem todos os tipos de mulheres no mundo. Eu me identificado como mulher, mas reconheço que seja em partes. Primeiro, não tenho tantos atributos e tantas características que uma mulher tem. E alguns prefiro nem ter mesmo.

Por outro lado, há quem considere que as travestis são até mais mulheres, pelo jeito de se vestir e no comportamento ultra-feminino – pois ela reforça a sua feminilidade para firmar a sua identidade. E outras que as transexuais são mais mulheres por correrem em busca da operação de readequação sexual – uma conquista.

Todas buscamos a essência e para mim todas figuras femininas que se definem como tal são mulheres. Para poder definir melhor, deveríamos ter uma referência, até mesmo para as mulheres biológicas do que é ser mulher”. 


“Acredito que ser mulher abrange ser do gênero feminino, ter identidade feminina e o sexo também. Mulheres transexuais tem essas mesmas características, porém infelizmente o sexo genital é masculino. Me considero uma mulher transexual não operada, pois desde criança me identifico como pertencente ao sexo feminino.

Para que entendam o que eu quero dizer, recomendo que assistam ao vídeo no fim do texto. Se puderem assistir, ver e refletir a pureza do ser mulher, eu fico feliz. Vocês vão saber o motivo de eu me expressar meio rude, pois eu com essa mesma idade já tinha o gênero feminino, só não tive pais que me entendessem e me ajudassem nesta questão – igual a todos que existem neste Brasil.

Gostaria que mais documentários e reportagens desse tipo fossem feitos no Brasil para que o transexual seja mais entendido perante a sociedade. E, assim, seja mais respeitada pelo desconforto de estar no corpo errado.

Eu não acredito que a transexual seja superior a travesti, mas é muito diferente. Acredito que vocês assistindo ao vídeo dessa menina ficará bem claro o que é ser transexual e o que é ser travesti. Muita gente burra neste Brasil confunde. Quem é transexual não aceita o corpo que está, quer ser e de fato será 100% mulher.”


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

4 comentários:

Anônimo disse...

Luiza Gaúcha é uma fofa! Com respostas racionais! Adoro... TOMAAAAAAA!

Rafaela Mastronelly disse...

Para Kimberly ser mulher é continuar a ter um pênis ?

Patricia Andrade disse...

kimberly luciana de onde vc tirou que é mais feminina que as mulheres e trans? desde quando travesti que vive em beira de esquina tem direito de se achar mais mulheres do que as outras? acorda bichaaaa

Bruno Boy disse...

Parabéns Kim, você não é uma iludida, os transexuais nunca serão mulheres. Acordam Alices.

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