Trans em Debate

Trans em Debate: Travestis e transexuais devem usar banheiro feminino ou masculino?

O simples ato de ir ao banheiro já foi (ou ainda é) motivo de dor de cabeça para muitas travestis e transexuais. Tudo porque há pessoas que defendem que elas devam ir ao banheiro masculino por conta do sexo biológico (masculino), e há outras que insistem que elas devam frequentar o banheiro feminino por conta do gênero conquistado (feminino).

Recentemente, a estudante Nell Isabelle Bezerra Abrego, que cursa o terceiro ano do ensino médio, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, vem sendo proibida de entrar no banheiro feminino na escola."Posso ser motivo de chacota, provocações e agressões, caso entre no banheiro masculino", alegou ela em reportagem do SBT local. 

Porém, o seu pedido não sensibilizou a diretoria e muitas estudantes, que pedem que ela entre somente - vejam só - no banheiro dos professores: "Na verdade, é um menino e eu não me sentiria  a vontade em dividir o banheiro feminino", defendeu uma colega. "Vou me sentir mal, pois às vezes trocamos de blusa e ela vai estar lá? É ruim."


Paralelo aos posicionamentos sobre os dois banheiros, há até aqueles que defendam a criação de um banheiro exclusivo para trans com a finalidade de acabar com os transtornos.
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Para vocês, a questão do banheiro já foi um problema em suas vidas? Como superar?



“Em alguma fase da vida, o banheiro é uma questão importante na vida de uma trans. Já passei por situações boas e ruins: na de ir ao banheiro feminino sem problemas e na de ser encaminhada ao banheiro masculino quando pergunto sobre a localização. Quando estou com minha esposa, vou ao banheiro feminino tranquilamente. Quando estou com meus filhos – sim, sempre tem um dizendo que precisa ir ao banheiro em plena compra do mês (risos) – prefiro esperar pelo lado de fora.  Recentemente, quiseram implantar uma lei para que criassem um banheiro exclusivo para trans. Considerei a ideia benéfica no início, pois levei em consideração os conflitos que temos, mas hoje penso que seja desnecessário. Temos a nossa identidade de gênero feminina, então nada mais lógico que frequentar o banheiro feminino. Na nossa vida prática e cotidiana, somos conhecidas pelo nosso gênero – como estamos vestidas e como nos apresentamos - e não pelo sexo biológico. Vou mais além. Em minha opinião, banheiro não deveria ser dividido por sexo. Em nossas casas, eles não são, não é mesmo? Esquecemos que a função do banheiro é clara: fazer xixi ou coco, lavar as mãos e ir embora”.



"Quando estava na escola, também sofri com as consequências de usar o banheiro masculino. Somente por ser feminina, fui violentada várias vezes no banheiro masculino da escola. Os meninos não respeitavam, eram malvados e me puxavam para a cabine. Eles encaravam a minha ida ao banheiro como um consentimento para abusarem de mim. Por muito tempo, usei o banheiro da diretoria para fazer as minhas necessidades. Mesmo assim, posso dizer que tirei de letra, pois tinha os meus coleguinhas e fui respeitada por quem realmente importava. Quando fui me transformando – e talvez reafirmando cada vez mais minha feminilidade - isso deixou de ser um problema e passei a usar qualquer banheiro feminino com tranquilidade. Hoje, não sofro nenhum problema com a ida ao banheiro e as mulheres até fazem festa quando me veem: pedem dicas, querem saber novidades da minha carreira, é tudo tranquilo. Desejo que a Isabeli saiba driblar esse desafio e que consiga finalizar os estudos".



“O que a sociedade quer em relação a Isabeli? Quer que ela desista novamente dos estudos e que se jogue em uma esquina?  O que as pessoas devem entender é que não usamos o banheiro para assediar, estuprar ou cometer atos obscenos: usamos para a nossas necessidades básicas. Parece bobagem dizer, mas também temos o direito de fazer o número um e o número dois. Ou devemos agora parar de comer e tomar água ou comer também (risos)? A sugestão de usar um banheiro alternativo não é boa. Não aceitaria e não me sentiria confortável estar em um banheiro alternativo, pois ele não corresponde ao meu gênero feminino, à vestimenta feminina que está fixada na porta do banheiro. Enquanto a sociedade perde tempo em discutir esses banheiros exclusivos para trans, muitas de nós continuam passando por humilhações e continuam abandonando as escolas. Afinal, ao não respeitar a identidade de gênero, a sociedade faz com que nós, travestis e transexuais, desistimos dos nossos sonhos”.



"No mundo da moda, não existe isso de banheiro: sou mais uma mulher e ponto, frequento os espaços sem nenhuma dor de cabeça. Como a maioria das modelos é alta, magra, quase passo despercebida nos bastidores. Fora dele, só tentaram me impedir de entrar em banheiro feminino em duas situações. No ensino médio, uma menina me parou e disse que eu não poderia ultrapassar a porta. Mas eu disse: “Posso sim” e entrei linda (risos). E outra vez no shopping, quando um segurança entrou no banheiro feminino, dizendo que uma mulher o chamou para solucionar um “problema”. Muitas mulheres se sentem invadidas por termos menos flacidez, por não termos menstruação, mas elas não sabem as lutas de caráter feminino que temos para construir a nossa feminilidade. Passamos por tantas coisas que, quando alguém disse que não somos mulheres e que não merecíamos estar ali, isso machuca".



“Apesar de existir um amplo estudo nas questões de gênero, infelizmente o discurso ainda está voltado ao sexo biológico. No caso da Isabeli, a entidade de ensino está crua e despreparada para formar alunos e não apenas em lidar com a diversidade. Falta tato dos professores e da coordenação com os professores. Hoje, algumas empresas, escolas e universidades já vem adotando o banheiro único como é o mais comum em casas noturnas e boates. Afinal, quem deve decidir qual é o melhor banheiro a ser usado é o próprio indivíduo. Tive um ‘probleminha’ em uma empresa que trabalhei há alguns anos, a BRT Call Center, de Florianópolis. Disseram que eu deveria usar o banheiro masculino e eu, de imediato, respondi: ‘Claro, com certeza, só vejo vantagens em usar o banheiro com os homens dessa empresa”. É claro que o meu discurso era mentiroso, mas me levou ao mérito de poder escolher qual banheiro frequentar, que no caso era o feminino. O conselho que damos para as meninas que estão entrando na UFSC a respeito do banheiro é o seguinte: Entre naturalmente no banheiro, e use o reservado para tudo. Inclusive se for para arrumar os seios ou trocar uma blusa. Não dê motivos para que as pessoas se incomodem por você ser diferente, haja com naturalidade, certa de si, que tudo vai dar certo. E até hoje, sempre deu. Essa dica serve para todos os ambientes".

Luiza Gaúcha:


“Tanto na minha infância quanto na adolescência, o banheiro não foi um tabu para mim. Na época de escola, ainda usava roupas do meu sexo biológico e não fazia diferença entrar em um banheiro masculino ou feminino. Até porque a minha intenção era usá-lo para minhas necessidades fisiológicas, só. Quando completei 18 anos, me conscientizei de que as pessoas deveriam aceitar a minha identidade de gênero e que uma das provas desse respeito era respeitar a minha entrada no banheiro feminino. Já estava com os cabelos compridos, me vestia com roupas femininas, tinha comportamento feminino, estava hormonizada, então não era coerente me obrigar a ir ao banheiro masculino. Apesar do meu passado, de um dia eu ter nascido menino, hoje eu sou uma mulher e mereço ser respeitada como tal em todos os sentidos".

Leo Moreira Sá

“O que nós precisamos conquistar, antes de tudo, é o direito a autodenominação. Somos nós quem tem que dizer quem somos e não a sociedade. A cultura nos define a partir do nosso sexo biológico e não a partir da nossa identidade de gênero, ou seja, a partir daquilo que somos, independente da nossa estrutura biológica. Essa forma reducionista de categorizar as nossas existências nos traz muitos transtornos e constantemente somos vítimas no nosso cotidiano de violência moral, psicológica e física em decorrência disso. Numa sociedade democrática, temos o direito de escolha, e esse direito não pode ser cerceado num espaço como o banheiro público. Nós, transexuais e travestis, precisamos denunciar toda e qualquer discriminação, e mesmo que ainda não tenha uma legislação específica pra assegurar o nosso direito a escolher livremente qual banheiro público que queremos usar, temos a Lei Estadual 10.948/2001, cujo artigo... (continue lendo clicando aqui). 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

cristiany aprendendo a viver disse...

a ignorância das pessoas me deixam passada.
o povinho atrasado....
certo e respeitar a aparência
até porq no carnaval muitos homens se vestem de mulher e por ignorância quem ssbe querer se achar no mesmo direito .RSS
vamos trans nos impor sempre e exigir o respeito seja onde for..
constrangimentoss nunca mais..

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