Entrevista

'Tive que superar o estado de miséria antes de me assumir transmulher', diz a atriz Laysa Machado


A história da paranaense Laysa Machado daria um lindo filme de Almodóvar, Duncan Tucker, Lee Daniels, John Lee Hancock ou até mesmo de Breno Silveira. Atriz, historiadora e professora, Laysa  é uma transmulher que percorre por caminhos profundos, ornamentados por espinhos, pontes e flores de essências raras.

Não somente pela trajetória trans, que intrinsecamente faz parte da sua vida. Mas pela vivência familiar, da extrema miséria, da superação através da arte e de uma difícil promessa que fez para a mãe antes de ela morrer: a de que jamais vestiria roupas femininas.

“Não estamos preparados para os momentos de angustia. Cada perda deixa uma marca, ou você transcende, abstrai ou se torna a sua marca da agonia”, reflete Laysa sobre o filme Marcas da Agonia, de Jansen Hinkel, em que interpreta uma mulher que se torna a felicidade de uma mãe que perde o filho.

Levando a frase à risca, inclusive em sua própria vida, Laysa transcende. Leva as dificuldades com bastante leveza, arte e a bravura do seu sangue indígena. Sua incrível história já foi contada na novela Páginas da Vida, em 2010, em um depoimento no fim do folhetim.

Recentemente, foi cotada para estrelar Salve Jorge, fez vídeos para o arquivo da Globo e recebeu elogios da produção. Com vários cursos de teatro, dublagem e preparação para a tevê, Laysa só aguarda a oportunidade de atuar ao lado de Lília Cabral e Maria Clara Spinelli em outro folhetim. Um exemplo de vida, uma explosão de arte. 
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- Você assumiu ser uma mulher trans aos 26 anos, uma idade tardia se comparada às meninas que se assumem logo na adolescência. O que aconteceu?

Apesar de ter me assumido mais tarde, sempre soube e me senti mulher. Tanto que a mais remota lembrança ocorre aos cinco anos de idade. Uma colega disse que eu não poderia brincar de casinha porque não era uma menina. Resultado: peguei um tijolo e dei na cabeça dela! (risos). Com sete anos, roubei uma boneca da minha tia, a escondia no mato e brincava escondida de todos. Porém, apesar dessas referências terem me marcado, descobri que antes da descoberta da transexualidade, eu teria que superar o estado de miséria em que vivia com a minha família.

- Como assim? Não seria exagero dizer que vivia em um estado de miséria? 

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Laysa na escola e com a irmã, Larissa

É sério! Minha infância foi uma miséria total. Minha família morava numa “invasão”, em um casebre coberto com lona. Não tínhamos nem o que comer, tanto que dos 6 aos 13 anos juntava restos de comida em um lixão que jogavam coisas de supermercado. Além disso, meu pai assediava sexualmente a minha irmã menor e eu presenciava toda a situação. Ele nunca chegou a abusá-la, mas era horrível presenciar o assédio dele, nojento. Para piorar, minha mãe ficou doente – tinha insuficiência renal – e faleceu aos 35 anos. Minha irmã se casou logo para escapar do meu pai e eu fiquei sem eira e nem beira...

- Como foi ficar com o seu pai? Neste ambiente, ser gay ou transexual era impossível, não?

Era, mas além disso tudo, eu me culpava pela morte da minha mãe.

- Sente-se à vontade para falar a respeito?

Com uns 12 anos, vestia roupas mais femininas, colocava calção curto... Minha mãe era permissiva, fingia que não via, mas meu pai brigava, xingava, fazia eu tirar as roupas. Aos 13, me apaixonei por um guri da vila, escrevi uma carta e pedi para alguém entregar para ele. Ele tirou sarro da minha cara e fez questão de mostrar para a favela toda, até chegar aos ouvidos da minha mãe. Aí vem o trauma...  Minha mãe perguntou se era verdade que eu era viado e disse: “Deus me livre, quero que Deus me leve, quero morrer se você for isso que estão falando de você”. Respondi que não e ela me fez jurar que jamais iria usar roupas femininas. Meses depois, ela faleceu.

- Que forte... E essa promessa repercutiu e repercute em sua vida?

Na época pensei, “Meu Deus, mesmo não usando roupas femininas, não vou conseguir esconder minha essência, ou seja, o que eu sou matou a minha mãe”. Por isso, me assumi tarde. Tentei sublimar minha real essência estudando, lendo... De certa maneira consegui superar. Amo a minha mãe, sei que na época ela não entendia o que eu era e queria me proteger do mundo, de uma maneira errônea, claro.
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- E você viveu só com o seu pai depois que ela faleceu? 

Uma assistente social pediu ajuda na igreja católica e aos 14 anos fui acolhida por um padre alemão. Aí minha vida mudou. Morar com o padre foi positivo, pois ele me contou que era homossexual e que era padre para justificar a homossexualidade à família. Contei para ele que me sentia mulher e ele disse para eu não fazer isso, que era para continuar como estava, disse que eu sofreria muito. Aí pensei: “Posso viver assim sem me assumir”. E tentei: estudava, fazia cursos, arrumei um trabalho numa rádio, fazia teatro, dançava... Tudo para extravasar sem assumir. Vivi com esse padre mais ou menos 10 anos, até ele ir embora para a Alemanha. Ele me pagou curso de alemão, me deu uma casa própria, móveis e uma viagem para conhecer a Alemanha, Áustria, Bélgica, Suíça, Portugal e Holanda. Faleceu em maio de 2009, vítima de câncer. 

- Quais eram as referências de trans que existiam na época? Teve alguma que era uma inspiração?

Roberta Close! Lembro que os meninos me chamavam de Roberta Close na escola. Por dentro, eu adorava, mas batia neles fingindo que não gostava (risos). Depois, vi a Rogéria brilhando em Tieta, aí pensei: “É isso que quero para mim”.

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- A arte foi uma maneira de você estar de mulher?

Foi. Na escola, a primeira peça me enfeitaram de índio e as professoras que não me conheciam, diziam: ‘Olha que menina linda, ficou linda de índia’. E a minha professora corrigia: ‘É um menino’. Com 12 anos, fazia e participava de peças de teatro, dança e interpretação. Quando fiz faculdade, já estava atuando. A primeira peça como atriz de fato foi em 2008, na Companhia Pé No Palco, interpretando uma das cinderelas.

- Você se incomoda com o rótulo atriz trans?

Incomodar não incomoda, mas como atriz e historiadora acho complexo. De um lado precisamos de visibilidade, mas de outro penso que ninguém se refere a uma atriz como “atriz héteros” ou “cis atriz”. Sou atriz e pronto. Quando me apresento como professora para a minha turma de sexto ano, por exemplo, não digo: “Bom dia, meu nome é Laysa e sou trans”. Primeiro que ser trans, no meu caso, já está impregnado ao meu bio tipo.

- Existe preconceito por ser uma trans na carreira de atriz ou de ser uma atriz com uma história trans?

Em 2009, fiz um curso de interpretação de TV e cinema com o Alexandre Lanes (diretor do Vídeo Show), ele se encantou comigo, adorou, disse que eu era uma atriz pronta. Porém, quando um ator contou que eu era trans, “desencantou”. Depois de todos os cursos que fiz, teatro, cinema, televisão, dublagem, comercial pra tevê, percebi que o preconceito é enorme e muitas vezes se sobressai a arte. Fiquei frustrada, decepcionada, depressiva, até porque pensei que nunca seria possível fazer uma novela, um comercial de tevê... Tenho que dizer que o teatro ainda é o lugar da arte mais aberto para as atrizes transexuais.
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Na TV Educativa do Paraná e com o vice-governador do Paraná, Flávio Arns

- Qual é o seu sonho profissional?

Sou geminiana, então tudo é no plural. Meus sonhos são quebrar paradigmas e talvez ainda fazer uma novela. A coisa mais triste da minha vida foi quando minha sobrinha de cinco anos chegou para mim e disse: “Tia, minha amiga falou que você nunca vai fazer novela porque é travesti. Ela disse que travestis são do diabo”. Eu chorei tanto que não consegui nunca dar uma resposta para ela. Mas prometi para mim: Não quero morrer sem responder à minha sobrinha, com meu talento, com meu profissionalismo e com o meu caráter.

- Ver Maria Clara Spinelli em Salve Jorge é uma luz no fim do túnel?

Quando a vi na novela levei um susto e ao mesmo tempo fiquei alegre. Pensei, nossa uma atriz, que é transexual, fazendo uma trans! Que lindo isso. Adoraria contracenar com ela, a Maria Clara me emociona!

- Além dela, com que gostaria de contracenar?

Lília Cabral!!! Tenho admiração gigantesca por ela. Ela é completa!

- Dos seus trabalhos, quais você destaca?

Do teatro, com certeza destaco a Cinderela Dada, uma personagem pansexual, que deixei ela leve, meio infantil, brinquei com o texto e funcionou bem. Também adorei os dois curtas que gravei em Curitiba: o Lugar de Todos e, agora, como Eleonora do elogiado Marcas da Agonia, onde interpreto uma mulher livre, aberta, romântica, espontânea e não necessariamente bissexual.

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Laysa e Anidra Stadler no filme Marcas da Agonia

- O curta Marcas da Agonia fala sobre solidão. De qual maneira esse tema mexeu com você?

Foi difícil gravar, pois foi em meio a uma crise do meu casamento, em setembro de 2012. Mesmo infeliz, tentei deixar a personagem leve e extremamente feliz. Afinal, ela é responsável pelos momentos de alegria da protagonista. Sobre a solidão, penso que nunca estamos preparados pra enfrentar estes momentos de perdas, angustias... E cada perda deixa uma marca. Ou você transcende, abstrai ou se torna a marca da agonia.

Por falar em casamento, você é casada com um boy magia. Como se conheceram?

Ele é lindo e descobri recentemente que já foi dançarino dos Leopardos. Nos conhecemos depois que terminei o relacionamento com um namorado evangélico. Estava cheias de traumas e fui a uma balada héteros e lá estava ele. Ele sempre soube tudo sobre mim, me respeita e tem um amor incondicional. É carinhoso, companheiro...

- Hoje em dia, além da carreira de atriz, você é historiadora. Conta para mim esse outro lado...

Sou formada em história em universidade estadual, pós graduada em Teoria do Conhecimento Histórico, Educação Especial e estou fazendo outra de Gestão em Educação. Dou aula de História e sou diretora auxiliar num colégio estadual chamado Chico Mendes. Segundo o MEC, eu era, não sei se ainda sou, a única transexual num cargo diretivo de uma escola publica do Brasil que foi eleita democraticamente. Fico até dezembro de 2014.
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Como historiadora, acha que o universo trans avançou nestes últimos anos? 

Com certeza! Se de um lado temos pessoa pregando o preconceito por ignorância, de outro temos pessoas como Felipa Tavares, Carol Marra, Maite Schineider, Barbara Aires, Lea T, Marina Heidel... E, para terminar, o maravilhoso João Nery.

E você também Laysa! Além de trans, você é descendente de índios kaingang e quilombolas do Pinhão. Acredita que este sangue guerreiro a ajuda a superar todas as adversidades que viveu?

Sou uma trans mulher, que moldou a forma, mas não perdeu a essência. Olha, nunca aceito um “não” como resposta, e outra coisa, não aguento desaforo de ninguém, entro onde quiser e não me vitimizo NUNCA. Sabe esta coisa de ser frágil? Comigo não rola! Se tiver um cara me xingando, brigo, bato, feito madame (risos)... Morro lutando, se preciso for, mas não desisto. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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