Entrevista

Primeira travesti a fazer novela, Claudia Celeste diz preferir os palcos


Foi em 1977 o ano em que a televisão brasileira trouxe pela primeira vez a presença de uma atriz travesti em novelas. Trata-se de Claudia Celeste, estrela do teatro que estrelou Espelho Mágico, da Globo, e causou um verdadeiro boom. A atriz esteve no núcleo de coristas da novela e, para o público, era vista apenas como mais uma mulher.

Porém, os holofotes em cima da atriz estiveram com os dias contados. Por conta do Regime Militar, que não permitia que travestis e transexuais aparecessem na tevê, ela teve que sair às pressas do folhetim. Claudia só voltou em outra telenovela dez anos depois, em Olho por Olho (1988), de José Louzeiro, na extinta TV Manchete.

Lá, fez sucesso na pele da travesti Dinorá, que cativou o público. Foi a única travesti a estrelar uma novela inteira até os dias de hoje. 

Aos 61 anos, a atriz tornou-se nome de prêmio sobre a diversidade sexual, continua vivendo de arte, se uniu a grandes talentos trans - tais como Rogéria, Divina Aloma, Suzy Parker e Marquesa - e desenvolve um belo trabalho para resgatar os antigos shows com vedetes travestis. 

Em entrevista ao NLucon, a atriz relembra seus momentos na TV, a atual presença do grupo na mídia e revela por que não voltou a aparecer em novelas. Parte da entrevista abaixo foi publicada no site de celebridades, O Fuxico.

Antes mesmo de Rogéria estrelar Tieta, em 1989, você esteve em uma telenovela nos anos 70. Como foi driblar a ditadura e fazer história na tevê?

Foi um momento importante, pois era impossível falar de travesti na televisão. Fui convidada pelo Daniel Filho quando fazia o papel de mulher no teatro Brigite Blair e ele nem sabia que eu era travesti. Mas como já era conhecida do meio (ela foi Miss Brasil Trans 1976) a mídia começou a noticiar sobre mim. Resultado: a Globo teve que me cortar. Mas não me abalei, nem fiquei triste, apesar de ser muito jovem. Encarei muito profissionalmente, sem estrelismos. Pensei: fiz uma ponta, gravei alguns dias, ganhei meu cachê e está tudo certo.

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"Nos bastidores, diziam que eu parecia com a Sônia Braga"

Como foi contracenar com a Sônia Braga?

Foi maravilhoso, ela é uma pessoa muito gracinha e este foi um dos primeiros papeis dela como estrela. Teve um fato curioso nos bastidores, pois diziam que nós éramos muito parecidas. Quando nos vimos, ela concordou e disse: “Nem minha irmã é tão parecida comigo” (risos). Também contracenei com Lima Duarte e ele também demonstrou ser um grande profissional.

Você sofreu com o Regime Militar?

(Respira fundo) Não posso dizer. Teve o problema da novela, mas fora isso não posso revelar...


Conta então alguma curiosidade daquela época...

Por causa da Coccinelle [transexual francesa dos anos 60 que se casou na igreja católica] fizeram um show chamado Internacional 7, anunciando para a imprensa um casamento gay. Foi um escândalo e parou o Rio de Janeiro. Para a noiva, chamaram a Marquesa, que parecia uma dona da alta sociedade... Estava tudo lindo, trouxeram até um bolo de noiva, mas desandou tudo, chamaram de casamento do diabo e ela foi presa. Em vez da coisa ir para o lado positivo, foi para o lado negativo. Isso foi em 63.

Por que demorou tanto tempo para estrelar outro folhetim?

Fui trabalhar com shows na Europa, me casei e vivi durante este tempo lá. Até que estive no Teatro Alaska, no Rio, e me disseram que abriram um teste para a TV Manchete. Procuravam um papel de travesti que fosse feito por uma atriz travesti e não por um homem. Fiz o teste com 150 artistas, fui uma das últimas chegar e me dei bem. Antes mesmo de voltar a minha casa tive a notícia que era para voltar para lá. Fiquei sabendo que, se eu não fosse fazer, era a Claudia Wonder que ficaria com o papel...

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"A Globo teve que cortar, mas não me abalei. Fiz a minha ponta, recebi e está tudo certo"

Em Olho por Olho conseguiu finalmente mostrar o seu talento? 

Foram 130 e poucos capítulos e fiz a novela praticamente de cabo a rabo. Todos os dias tinha uma cena comigo, com texto e até musical. Como o José sabia que eu tinha um trabalho nos palcos, aproveitou muito bem na novela. Aliás, ele sempre perguntava a opinião sobre o texto, se estava muito longe da realidade, se estava em disparate com a Dinorá. Muitas vezes estava e ele alterava. Trabalhei com Beth Goulart, Mario Gomes e todos foram legais. Nunca me fizeram nada parecido como este papel, travesti só faz ponta na tevê.


O que pensa sobre os novos personagens trans?

Não dizem muita coisa, tudo é feito pela metade e ainda estamos fadadas ao deboche. A Rogéria, por outro lado, teve um papel maravilhoso em Lado a Lado, interpretando uma senhora, avó. Ela é um ícone, fantástica. Hoje, temos a Lea T e ela está mostrando um lado positivo, de uma trans com profissão. Mas temos que lembrar que nem toda travesti é artista. 

Sente saudades das novelas?

Não sinto saudades, eu voltei para a Europa depois de Olho por Olho, fiquei morando 16 anos lá, trabalhando com meu marido fazendo espetáculos na Alemanha, França e Espanha. Quando voltei, há 10 anos, já havia perdido o contato com todo mundo, não voltei mais. Hoje, tenho vontade de trazer de volta os grandes espetáculos de travestis no teatro. Acho que essa é a minha praia, é o que eu sinto e gosto de fazer.
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"Hoje, tenho vontade de trazer os grandes espetáculos de travestis no teatro"

Você se descobriu trans no teatro?

Me descobri... Comecei a trabalhar com arte e me vestir como mulher em 1973. Saí do exército e peguei o emprego de maquiadora. Comecei a frequentar o universo do teatro e comecei a ter vontade de me vestir. Vi a Valéria [trans cantora brasileira] e achei demais. Em 1968, houve uma proibição e os espetáculos ficaram parados. Em 1973, o Américo Leal conseguiu uma concessão para o retorno. Eu estava com 21 anos e já estava trabalhando em uma boate como mulher, pois era muito feminina. Me apresentaram para ele, fiz um teste e entrei para o elenco do Teatro Rival.

Neste período, não existiam tantas referências como temos hoje. Em quem se inspirou?

Realmente era uma das poucas que tinha seios, que era trans mesmo. A maioria era transformista. A primeira que eu vi foi a Valéria, que foi capa da Manchete e assisti em um espetáculo. Fiquei doida! Eu já era maquiadora e disse: “É isso que eu quero fazer, me vestir de mulher, entrar em cena e ser artista". Me vesti de mulher por causa dos espetáculos e o resto foi consequência. Sabe, as coisas vão acontecendo de uma maneira tão rápida que a gente nem percebe os porquês e as referências.

Você sempre diz que neste período travesti não era sinônimo de prostituição...

E não era mesmo, não se falava disso, embora existisse. As artistas não tinham contato com o meio da prostituição, era outra coisa. O teatro de travesti era considerado uma especialidade da arte. Éramos artistas e é exatamente por causa dessa história que queremos uma ONG, que começou com a Welluma [Brown, a travesti chacrete], e que visa valorizar a cultura LGBT. 


Como é essa ONG?

Queremos capacitar esses novos jovens artistas, que perderam o profissionalismo, a direção. Está tudo jogado, as pessoas fazem o que querem no palco, sem direção, sem nada. É claro que pode bater cabelo, afinal é uma manifestação atual, mas são necessárias algumas referências e direção. Hoje,  por conta da falta de referência, ficou a imagem da prostituição, das travestis bagunceiras... Quero um espetáculo com algo bonito, de luxo, de categoria, nada que denigra a imagem da mulher. Quero que a travesti seja vista como algo bonito, como arte.
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"Falta direção nos shows de travestis atualmente"

Atualmente, você continua trabalhando como artista?

Claro! Estou escrevendo um livro chamado o Glamour das Divas, ao lado de um professor de história e da Suzy Parker. Vamos contar as histórias das grandes figuras que representaram os espetáculos de travestis no Brasil dos anos 60 até os 80 - que foi até quando realmente houve uma valorização. Pretendo lançar em 2014. Também estou com esta ONG que visa resgatar a história da arte LGBT . E dirijo o Miss T Brasil, que está em sua segunda edição. Além disso, faço parte do show Agora É Que São Elas, com Rogéria, Valéria, Aloma, todas as veteranas do show de travestis. E também escrevo outros textos para o palco... 


Que fôlego! E o que o palco representa para você? 

(Pensativa) É algo muito profundo. Chego a compará-lo com minha respiração...
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Claudia Celeste em Olho por Olho, com Mario Gomez
Claudia no filme Beijo na Boca

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Franco Araujo comenta disse...

O problema é que ela se achou tão estrela que acabou sendo preterida até mesmo nos palos hoje em dia. Umas plateias minusculas ainda a aplaudem lá no Rio.

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