Trans em Debate

Trans em debate: Quem te representa no meio artístico?


Nas últimas semanas, vimos a cantora Joelma, da banda Calypso, dizer que é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, muitos artistas – tais como Gaby Amarantos, Fernanda Montenegro, Elza Soares e afins - manifestaram seu apoio à comunidade.

Por mais que a opinião de uma celebridade não interfira diretamente nos direitos e não faça alguma diferença real na vida de uma pessoa, ela inevitavelmente cria referência, admiração ou repúdio naqueles que a escutam. 


Não é por acaso que Daniela Mercury está sendo ovacionada e Joelma tendo os discos "quebrados" pelos LGBTs... Para vocês, qual é a maior referência que temos no meio artístico? Quem te inspirou na infância? E quem te representa?


“Admiro muito as músicas pop coreanas e japonesas. Portanto, para mim, a grande referência foi a cantora Harisu, uma cantora sul-coreana transexual. A considero muito bonita, talentosa e admiro por levar o nosso talento e disciplina para o mundo.

Harisu esteve recentemente em um musical chamado Drag Queen e, de tão talentosa que é, consegue chorar enquanto canta, em uma cena linda [assista ao vídeo abaixo]. Gosto porque ela canta, dança, atua e até criou uma escola de arte para transexuais e já participou da Dança dos Famosos de lá.

Também aprecio muito a cantora transexual mirim, Kim Petras. É uma menina linda e foi uma das mais jovens transexuais a se operarem no Canadá, aos 15 anos. Na internet, temos vários vídeos dela.

Na minha infância, admirava a cantora Sandy e sonhava ter os cabelos longos como os dela, de cantar como ela, e de ser uma mulher como ela é. Gosto muito da postura dela da mídia, de ser uma menina certinha. Foi com esta conduta que ela ajudou na construção do meu caráter".




Kimberly Luciana

“São muitos nomes importantes, mas no momento tiro o meu chapéu para o deputado federal Jean Wyllys, que tem a sua luta diária para conseguir os direitos para a nossa comunidade LGBTT. Ele mata um leão por dia, é o ‘cara’ e nos representa, dignamente!

Quando era criança, a Xuxa era minha referência. Como qualquer criança da época, queria ser ela ou uma das paquitas (risos). Ela e minha mãe têm muita relação com minha construção como pessoa, com o meu caráter e com a minha honestidade.

Nunca tive a chance de vê-la de perto, mas sempre fui a seus shows e era seguidora doente por ela, daquelas de até ser sócia de fan clube! Colecionava tudo que saía em revistas e tudo ainda está guardadinho lá na casa da minha mãe. Cresci e essa paixão ficou de lado, mas faz parte da história da minha geração.

No segmento T, sem dúvidas Lea T nos representa. Além da visibilidade que ela proporcionou ao tema, ela abriu portas de um mercado para muitas transexuais e travestis. Modelos trans estão conseguindo desfilar no mesmo patamar que as modelos nascidas biologicamente mulheres. Além de mostrar a aceitação do pai, que vem de uma profissão machista. Que muitas famílias sigam esse exemplo de prova de amor de pai e filha!
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“Quando pensamos em referência pessoal, pensamos naquela pessoa em que, de alguma forma, influencia a nossa vida, seja ela um artista, cantor, escritor... Mas, quando resolvi mudar o rumo da minha vida, tive duas referências que não eram famosas: minha esposa, que me deu todo o apoio, e uma travesti que eu admiro e respeito muito.

Trata-se da atriz Dandara Vital, que mora no Rio de Janeiro e que eu conheci quando estava pesquisando sobre o assunto na internet e encontrei o blog dela. Admiro a Dandara pela história de vida, pela batalha e pela vontade de vencer.

O que ela sempre diz – e que me marcou muito – é que o fato de sermos travestis não nos impede de fazermos nada, principalmente de exercermos a nossa cidadania. Todos que a conhecem e sabem desse espírito de batalhadora, a admiram. 



“Cresci vendo a Roberta Close na televisão, nas revistas e jornais. Era uma grande inspiração. Adorava ver os ensaios com ela e a Luiza Brunet, dois exemplos que marcaram a minha geração. Acredito que a Roberta conseguiu colocar a trans em um lugar de destaque na família brasileira.

Para termos uma ideia, ela posou nua para várias publicações masculinas nos anos 80, ou seja, há 20 anos atrás. Ganhou uma música do Erasmo Carlos, fez filme, gravou um disco, falou pela primeira vez sobre a cirurgia de readequação sexual, escreveu um livro...

É claro que devemos valorizar todas as meninas que surgiram nos últimos tempos, mas sempre digo que até agora não existiu um furacão como a Roberta Close. Mesmo fora da mídia, ela continua sendo uma diva para todas nós".
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“Quando falamos de referência musical, remete à minha infância, que foi carregada de música clássica, jazz, bossa nova e havia um lado alternativo como Ray Conniff e Carpenters. Aos oito anos, comecei a ter afinidade com música e aos 12 já estava cantando em um coral do colégio La Salle Gonzaga, do Rio Grande do Sul. Trabalhei com música durante muitos anos e só agora deixei de lado.

A minha identificação foi mais vocal mesmo, pois sempre tive muitos agudos, admirava as cantoras sopranos, que é onde a minha voz mais se encaixa, como a Emma Shapplin, que é o grande amor da minha vida. Mas desconheço qualquer tipo de militância neste sentido.

Nunca tive o prazer de conhece-la, mas já aprontei uma... Fui atrás do Edson Cordeiro em Pelotas pelo simples fato de ele ter feito uma entrevista com ela para o Vídeo Show em meados de 1996. Precisava sentir a energia dela nele, isso já me bastava. Mas é claro que o estilo musical dele me atraía muito também.

Como não passei pelo processo de escolha corporal, em nenhum momento me inspirei em alguma artista para ser quem sou fisicamente. Na questão de vestimentas, me identifico com roupas mais abertas e estilos mais masculinos, talvez pela grande influência que tenho de amigas lésbicas e do meu amor platônico pela Michelle Rodriguez, que inspira o que eu visto.

Recentemente, achei incrível o apoio da Daniela Mercury e dos artistas que se posicionaram sobre a causa. Ando desinformada sobre as novas caras do Brasil, mas tenho fé na Maria Gadu, na Wanessa Camargo e até na Ximbica para representar a classe LGBT, quem sabe a Clarice Falcão não ascende? Já os demais, me desculpem, mas não há nada que me agrade ou me represente no novo cenário musical. Música não é para qualquer um.

Não é porque o seu cérebro responde a estímulos positivos ouvindo determinadas músicas, que significa que a música é boa. Quanto mais primária, crua e repetitiva for, mais o cérebro destreinado vai gostar, e eu sei diferenciar muito bem isso.

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E VOCÊ? QUEM TE REPRESENTA?

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Claudia Regina Linhares disse...

A JOELMA TÁ COLHENDO O QUE PLANTOU. ESPERO QUE ISSO ACONTEÇA TAMBÉM COM O TAL DE MARCO FELICIANO,MARCOS PEREIRA E O JAIR BOLSONARO.

Laylah El Ishtar disse...

Acho q nao uma pessoa,mas uma personagem dos quadrinho q ganhou vida numa série de TV nos anos 70,me foi uma verdadeira fonte de inspiração. Diana Prince foi contra as regras de sua mãe Hipólita pra viver oq realmente qria ser ,tornando-se a Mulher Maravilha.Vejo um poder libertador nela.
No meio artístico Thelma Lippi,Roberta Close e Rogéria foram na minha adolescência sinônimos de coragem,cresci vendo essas divas na TV.Hj acho q Laverne Cox é um grande nome na militância trans*,no meio artístico Daniela Mercury e Madonna são exemplos a seguir contra o preconceito.
Ainda no universo trans* ,seria injusta se falasse alguns nomes,são tantas fontes de inspiração, antigas e novas lilitantes,formadoras de opinião e com muita força em nome do nosso bem estar como seres humanos.

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