Trans em Debate

Transhomem, ator Leo Moreira Sá diz: “Mulheres héteros e homens gays se interessam por mim”

 
Leo fala sobre relacionamentos de homens transexuais

No Trans em Debate, travestis e transexuais responderam: “Homem que fica com travesti é gay?”. E, além das várias reflexões que obtivemos, o ator Léo Moreira Sá - que é transhomem (de mulher para homem) – também escreveu ao NLucon e trouxe novos argumentos e contribuições 

Aqui, Leo fala sobre as diferenças entre orientação sexual e identidade de gênero. De acordo com ele, as pessoas se interessam pelas outras por meio do biotipo (aparência, gênero), independente do sexo biológico (pênis ou vagina). 

Tanto que ele, que nasceu com o sexo biológico feminino, passou a atrair a admiração de homens gays e mulheres héteros quando assumiu o gênero masculino.

O inteligente texto de Leo me fez relembrar outro produzido por mim, A desconstrução do Pênis, que fala sobre atração gay sobre transhomens. Vale a pena dar uma olhada e deixar a sua opinião!

Leia abaixo e aprenda mais sobre o ser humano

“O senso comum costuma confundir transexualidade com homossexualidade, o que é um grande equívoco. Transexualidade se refere à identidade de gênero e expressa quem você é no mundo, mais especificamente como você se autodenomina: homem, mulher, travesti, transexual, enfim, qual é a sua posição num mundo que nos cobra definições.

Homossexualidade se refere à orientação sexual que determina pra onde o seu desejo orienta seu corpo pra um outro corpo, evidenciando assim a sua preferência sexual. Acredito que o desejo antes de mais nada é químico, porque às vezes um corpo passa por nós e nem precisa ser bonito pra atrair... Simplesmente atrai.

É claro que nossas preferências relativas à orientação sexual direcionam nosso olhar, mas antes de vermos os órgãos genitais, somos atraídos/as pelo biotipo de nossa preferência. Por exemplo, o gay na academia que me olha, está desejando o homem que eu sou. É bem possível que quando ele souber que eu sou um trans, mude de ideia, mas o que o atraiu foi antes de mais nada o meu biotipo masculino. 

Na minha adolescência, quando eu ainda não tinha consciência da minha transexualidade, tentei frequentar lugares de mulheres lésbicas, só que acabei desistindo porque elas nunca me olhavam. Demorei pra compreender que eu nunca atrairia uma mulher lésbica que busca um biotipo feminino que eu jamais tive mesmo antes de tomar hormônios. Homens gays também não se atraem por travestis ou transexuais femininas pelo mesmo motivo.

Concluindo, acredito que homens que se relacionam com travestis ou transexuais femininas são heterossexuais porque se atraem pelo biotipo feminino independente dos órgãos genitais. E quando vão pra cama com elas, se relacionam com uma mulher com pênis, e se se serão ativos ou não, isso não muda a sua orientação sexual. Quantos homens são passivos com mulheres *cisgêneras que os penetram com vibradores e mesmo assim não deixam de ser heterossexuais.

Eu mesmo fui casado com uma travesti e mesmo sendo penetrado, nunca me senti dentro de uma relação cisgênera heterossexual. O fato de a cultura valorizar e definir o ser humano pelo corpo biológico gera essa imagem distorcida e desrespeitosa da transexualidade que apavora os homens e os deixa envergonhados porque a cultura patriarcal falocrática questiona a sua "masculinidade".  Esse mesmo pensamento justifica que os homens que são ativos com gays não são gays. Ou seja, o que interessa, trocando em miúdos é: quem "come" quem. 

Há 10 anos, assumi a minha transexualidade e passei a atrair ainda mais as mulheres héteros e bissexuais, além de atrair muitos homens gays. Como sou um ativista em defesa dos direitos das pessoas transexuais e transgêneras, faço questão de marcar a minha diferença em todos os lugares que frequento, e se conheço uma nova pessoa, é a primeira coisa que eu falo. Sinto que as mulheres são menos cobradas nesse sentido pela nossa sociedade patriarcal falocrática e por isso podem assumir mais facilmente uma relação com um homem transexual sem tantos conflitos. 

Sinto que vivemos hoje um momento de esvaziamento dos significados , que eu considero extremamente positivo, em que as categorias conceituais e nomenclaturas que estão à nossa disposição atualmente, não tem dado mais conta de explicar a diversidade de expressões de gênero e pluralidade das orientações sexuais humanas. Isso porque as combinações e equalizações dos diversos elementos que podem compor nossa identidade são infinitas e espero que um dia todas as pessoas possam se libertar da "camisa de força" conceitual que pretendem formatar as nossas individualidades e idiossincrasias.

*"Um indivíduo é dito cisgênero (do latim cis = do mesmo lado) quando sua identidade de gênero está em consonância com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, ou seja, quando sua conduta psicossocial, expressa nos atos mais comuns do dia-a-dia, está inteiramente de acordo com o que a sociedade espera de pessoas do seu sexo biológico. Dessa forma, o individuo cisgênero é alguém que está adequado ao sistema bipolar de gêneros, em contraste com o transgênero, que apresenta algum tipo de inadequação em relação a esse mesmo sistema."Letícia Lanz


Duas artes da comunidade transpatologico.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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