Trans em Debate

Travestis e transexuais respondem: “Qual é a sua relação com Deus e o divino?”

Em um país onde as igrejas tradicionais propagam preconceito contra o grupo LGBT e dizem que todos, caso não se “curem”, estão fadados ao inferno, a intolerância e violência contra gays, lésbicas e travestis crescem a cada dia. Pastores como Silas Malafaia e Marco Feliciano ganham voz, cargos de poder e as minorias definitivamente não se sentem representadas pelo religioso. 

Religião, sexualidade e identidade de gênero mais do que nunca parecem caminhar em sentidos opostos, como se Deus não tivesse feito o sexo e não quisesse que seus filhos desfrutassem do prazer e da auto-aceitação. Por outro lado, o divino está no campo imaterial, pessoal e o discurso pode mudar mediante a interpretação, trechos, cultura e crenças.

Na Bíblia, ao mesmo tempo em que Levítico diz: “Com homem não te deitará como se fosse mulher, é abominação”. Eclesiastes afirma: “Dois homens juntos são mais felizes. Se dormem juntos, aquecem-se; mas um homem só como há de se aquecer?”.Isso sem falar nas mensagens de amor ao próximo e de não condenar o outro, que estão principalmente no segundo testamento.

Também não podemos esquecer as religiões que aceitam tranquilamente o grupo LGBT, como o candomblé, a umbanda, espiristismo, igrejas contemporâneas criadas por gays. Surgem como uma redenção, uma porta aberta frente a tantas outras fechadas. Abaixo, travestis e transexuais falam da sua relação com o divino.


FernandaVermant

"Por conta da ambiguidade da Bíblia, por vir de uma família evangélica, saber da história das igrejas, das fraudes... Fui buscar explicações no espiritismo, ocultismo e até nas crenças mais, egípcias. Fascinei-me por todas, mas não assumi nenhuma religião. Acredito de tudo um pouco, misturo todas as formas de crenças.

Acredito em Deus devido a minha criação, mas não sei se ele existe e se é este carrasco que muitos afirmam ser. Mesmo assim, faço minhas orações para Ele. Aliás, tanto para ele quanto para Jesus, guias espirituais e afins.

A transexualidade aos olhos da religião ainda é algo confuso. Na mesma proporção em que em alguns lugares é uma abominação. Em outros, como na Índia, somos vistas como seres divinos, dignos de respeito.

Acredito que exista uma explicação espiritual para a nossa existência, pois é mais que estética, é profundo, está nas entranhas do nosso ser. Mesmo que seja considerado por muitas de nós mesmas um carma ruim, ser transexual parte de uma evolução, pode ser divino. Afinal, vem de dentro para fora".



“Fiz cinco anos de catequese, três anos para fazer a primeira comunhão e dois anos para crisma. Me considero católica e vou à missa uma vez por semana. É por conhecimento de causa que digo que não sou obra do demônio, foi Deus quem me fez assim: eu nasci trans.

O que outros pecadores julgam sobre mim não é o mais importante. Friso isso porque não posso acreditar que Deus seja preconceituoso ou homofóbico. Ele sempre esteve ao lado dos excluídos. Cristo foi condenado à morte, sofreu preconceito e chegou a ser crucificado por não o compreenderem.

Deus nos ama como somos. Foi Ele quem criou os gays, lésbicas, travestis e transexuais. Para Deus, não existe condição sexual em outros planos espirituais. Na verdade, Ele mesmo não se intitula hétero e nem homossexual. Deus simplesmente é o criador e não existe rótulo para Ele.

Para quem diz que nós somos pecadoras, digo que, com essas atitudes, dia a dia nós, travestis e transexuais, estamos sofrendo violência e, em alguns casos, até morte por sermos condenadas. Que Deus os perdoe e os mantenha afastados... Amém!"



"Sempre vi a religião como algo fundamental na vida do ser humano. Não conseguia racionalizar a possibilidade de Deus não existir. Venho de família católica, estudava em colégios católicos e, inclusive, tive muito destaque dos meus familiares, pois sempre falava em seguir a carreira religiosa. Com 13 anos, meus problemas começaram...

Estudava no colégio La Salle, do RS, e nesta época não sabia absolutamente nada sobre transexualidade. Cantava no coral e era solista por ter a voz semelhante a de um castrato Meus seios começaram a se desenvolver naturalmente, sem ajuda de hormônios, e os meninos perceberam. Do mesmo modo que riam das meninas, passaram a rir de mim.

Fui com o meu pai a vários médicos e ninguém sabia do que se tratava. Fui diagnosticada como uma criança estressada. Minha vida desmorona e acabo indo pela primeira vez para um colégio público. Com medo dos demais, escondia meus seios com jaquetas que usava inverno e verão. O que poderia fazer? Me aceitar?

Não. Fui tentar descobrir quem era eu com Deus. Achei que, se seguisse carreira religiosa, em algum momento aceitaria a minha condição. Me aceitei totalmente só aos 22 anos. A relação de trans com Deus é bem engraçada. Na história de Jesus, ele passou por algumas travestis da época, sendo que uma era rei e o julgou como louco, mandando de volta para Pilatos.

Em algumas culturas, o ser intersexual é considerado semi-deus, a retratação católica é clara. Todos os anjos e santos são andróginos ou efeminados, basta olhar nas suas imagens e retratações. Me sinto em paz com Deus e a religião, mas não acredito mais no Deus dos homens.”



“Deus é uma força muito poderosa, que nos dá razão para viver. Não acredito na religião em si, e sim na fé que temos. É a fé que move montanhas. Sobre ser trans, penso que vivemos no livre arbítrio e, se Deus quer a felicidade, por que ele nos castigaria se somos felizes?

Acredito que todos nós estamos fadados ao inferno. Para nos tirar das trevas, basta cada um procurar em si a verdadeira luz. Num mundo onde todos são pecadores, fica difícil falar quem está certo ou errado, mesmo diante de tantas regras e superstições”.



“Acredito em um Deus que cura, liberta, que é justo e que salva. Antes, quando era menino, fui evangélico, líder de grupo de jovens e obreiros da igreja onde frequentava, porém sempre sentia que aquilo não era para mim. Hoje, não tenho religião porque simplesmente não acredito nela. Mas não confunda Deus com religião, pois são duas coisas completamente diferentes.

Já li muito a Bíblia e em nenhum lugar está escrito sobre transexualidade [estou falando de transexualidade, portanto também não confunda com homossexualidade, ok?]. Mas já li sobre uma coisinha que todos deveriam respeitar. Chama-se livre-arbítrio, que nos dá o direito de escolher o caminho que queremos trilhar e, com isso, colher os frutos que plantamos.

Diferente do que muitos falam, ser travesti ou transexual não é um passaporte para uma viagem sem volta para o inferno. O que carimba essa passagem são nossas atitudes, ser ou não promíscuo e isso vale para todos, sem exceção. Quem disse que, de repente, um gay ou uma travesti, não podem ter uma experiência com Deus, sendo que o próprio filho Dele andou com todos os pecadores e veio à terra para dar livre acesso ao pai?

Ninguém pode nos julgar, até porque a própria palavra de Deus, que eles tanto pregam, diz: “Não julguem para que vocês não sejam julgados” (Matheus, versículo 7, de 1 a 5). “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês;”. “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?. Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu?”.

E é isso o que eu digo aos Silas e Felicianos da vida. Quem os constituiu juízes para dizer quem vai para o inferno ou não? Com tanta intolerância que vejo, usando o nome de Deus, percebo que retrocedemos ao tempo de Jesus, onde os escribas e os fariseus dominavam a religião impedindo qualquer um que não estivesse de acordo com os padrões deles de adorar a Deus, em que as igrejas viraram um grande mercado de benções. Isso não é só sobre gays e trans, é no geral!

Deixo a minha mensagem: a salvação é algo pessoal e ninguém pode salvar ninguém. Quando alguém aponta um dedo para outro, existem outros apontados para ele mesmo, inclusive isso é um ato terrível chamado pecado induzido. Pensem nisso..."

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Andressa Bitencurt disse...

Cada vez mais e mais fan da Kimberly!

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