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Única festa para travestis em SP, Terças Trans resgata cultura, divas e respeito



Por Neto Lucon / vídeo: Alex Brito

Pouca gente sabe, mas a festa mais democrática, cultural, colorida e surpreendente de São Paulo ocorre todas as noites de terça-feira. Trata-se da Terças Trans, balada organizada pela produtora de eventos Paty Delli há três anos, localizada na Rua Bento Freitas, 66, Largo do Arouche, destinada às travestis e transexuais. 

“Nossa! Uma casa noturna voltada para as trans
? Deve ser babado e confusão”, dirão. A princípio também pensei, mas adianto que a surpresa foi pra lá de positiva. Além da presença de lindas trans, a casa reúne [com muita harmonia] todo o grupo LGBT, além de héteros, crossdresser, e promove um verdadeiro espetáculo artístico.

Logo no hall, a hostess Leona Top Fluor recebe os convidados com seu excêntrico e fluorescente figurino. Com 11 anos de carreira, a simpática e educada drag encaminha o público à bilheteria, que conta com grande espelho e globo multicolorido. No balcão, o flyer revela: a noite é Las Divas! 

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Paty Delli, Natasha Dumont e Leona Top Fluor

Ao chegarmos à pista, deparamos com mesas, cadeiras e o pequeno palco xadrez ao centro. O cenário, que pertence ao bar-videokê Muss, aponta que um show com artistas da noite LGBT - sendo duas ou mais divas da comunidade trans - está por vir. Mas quem são elas? A priori, os ícones Marcinha do Cortinho e Natasha Dumont. 

DJ Sugon comanda as pick-ups, toca o melhor da música eletrônica e convida quem se aproxima para dançar. Cinco gogoboys, vestidos com sungas coloridas e vibrantes, tomam conta do palco e fazem as “tradicionais” coreografias robóticas do grupo. 

Até uma hora da manhã, o espaço é frequentado somente por um pequeno grupo de amigos gays, trans pontuais e... Eu e meu namorado, que aguardamos a chegada das meninas e o triunfal talento das veteranas. Uma dica para quem chegar e quiser se soltar: a caipirinha de limão. Demora, mas é ótima!

Por volta da 1h30, as trans finíssimas começam a chegar e o [até então] modesto espaço se transforma e se ilumina. Desfiles, animação, closes e belezas variadas... O look periguete [vestido curtíssimo e pernas à mostra] predomina e até a Miss Bumbum, Amanda Sampaio, que circulou pela mídia em 2012 como a candidata da Bahia, também circula por lá.

Homens héteros e t-lovers começam a pipocar pelo espaço, assim com as mulheres lésbicas, crossdresser e homens gays . Enquanto alguns dançam, outros ocupam as mesas, conversam com amigos e fazem novas companhias. 

O contato é altamente respeitável e harmônico, e o único peito de fora - que sempre é visto e criticado nas Paradas de Orgulho LGBT - só escapou sem querer de um vestido, deixando a trans em questão com as bochechas vermelhas. 

A dona da festa, Paty, é vista correndo de um lado para outro, checando tudo o que ocorre com a casa. Produzidíssima e profissionalíssima, recebe todos os amigos, os novos visitantes, as artistas, resolve problemas e até carrega mesas. “Queridos, fiquem à vontade, se precisarem de alguma coisa podem falar comigo”, disse. 
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Pegue o pirulito na sunga do bofe

Não demora e Paty vai para o palco. Ela anuncia que irá apresentar as brincadeiras e promover interatividade entre as trans, os demais convidados e os gogoboys. “Vou colocar o pirulito na sunga deles e as meninas devem pegar com a boca. Quem pegar primeiro, ganha uma garrafinha de água”, brinca.

Logo, as candidatas aparecem e os gogos se posicionam para o game. Eles estão longe de serem lindos – dos cinco desta noite, dois chamam atenção – mas todos causam euforia por seus outros “atributos”. Ao ser dado o sinal por Paty, a travesti arranca o pirulito antes mesmo de você terminar de ler esse parágrafo.

A dona da festa pede o tira-teima, mas ela volta a vencer. “Não pode colocar a mão dentro da sunga, isso aqui é uma festa de família”, diz Paty, que domina o palco e que é respeitada pelas convidadas.

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As maiores divas

Na noite Las Divas, comemora-se a carreira de Natasha Dumont, uma das mais bela trans dos anos 90, que se tornou sucesso após participar do Programa Silvio Santos, no SBT. Aos 40 anos, a diva continua belíssima, se prepara para dois números e receber a homenagem de outros grandes nomes, como Marcinha do Corinto, Carla Hellen e Liliam Paixão.

“Acho importante um espaço como esse, que valoriza a nossa cultura, as grandes artistas e abre espaço para as meninas que estão chegando. Eu gosto dessa nova geração, que cada vez mais cedo se assume, se transforma e se dá conta dos direitos”, afirma Natasha, em entrevista ao NLucon (leia clicando aqui).

De repente, o pequeno espaço do camarim se transforma em uma verdadeira união de beldades e perfumes de divas internacionais. Para quem conhece a história trans, era como se Cher, Madonna e Tina Turner trocassem de roupa e dividissem figurinhas sobre as suas vidas e carreiras. Simplesmente e-mo-cio-nan-te!

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Plumas & Paetês


Diante do momento mais aguardado da noite, todas as pessoas se calam e se viram para o palco. Aplaudem, comemoram e admiram as performances. O show performático de dublagem não é visto como MAIS UMA atração – bastante comum até mesmo nas casas conhecidas pelos shows. Ele é visto como A PRINCIPAL atração e elas são as maiores damas do tabuleiro.
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Natasha, por exemplo, prova que não esqueceu do passado ao trazer com Liliam o hit “No More Tears”, de Donna Summer e Barbra Streisand. Mas também mostra que atualizou o repertório, ao emplacar “Laserlight”, da cantora pop Jessie J. “Não dá para cantar só música do passado. O segredo para estar até hoje é se renovar sempre”, defendeu.

Com apresentação de Sylvetty Montilla, as artistas apresentam seus números e fazem um verdadeiro espetáculo. Marcinha surpreende pelo corpo esculpido e dublagem de uma música indiana. Carla surge expressiva como uma artista italiana. E até mesmo Paty Deli – sim, a dona da festa – faz uma performance da brasileira Lenda das Sereias, na voz de Marisa Monte.

Rosas vermelhas são jogadas do palco para o público, que corresponde com calorosos aplausos.


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Palmas e sucesso
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Após os números finalizados, a sensação é de que todos fazem parte de um mesmo grupo. Com ambiente de boas vibrações, Paty consegue controlar de maneira louvável todos os naturais excessos da noite. Não vi briga, roubo ou ninguém dando trabalho por droga e bebidas.

Há certo respeito de todas as trans pela figura de Paty, seja por sua trajetória e pelo sonho de realizar um bom trabalho. “Essa festa me tirou da depressão e faz parte da minha vida. Sem ela, eu não conseguiria continuar. Quando vejo as pessoas entrando, se divertindo e assistindo aos shows, me sinto absolutamente realizada”, diz Paty

A Terça Trans é uma festa intimista, tranquila, gostosa e que promove acima de tudo a cultura LGBT e amizades.“Temos índice ZERO de brigas em três anos. Esta é a prova de que travesti não é bagunça”, informa Leona, antes de irmos embora. E, de fato, não é mesmo! Travesti também é profissionalismo, história, arte e educação



Neto Lucon, Paty Delli e Alex Brito
Paty e os meninos da Terça Trans

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

7 comentários:

Jamily disse...
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Marcela Trans disse...
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Felipe disse...

Excelente artigo, meu velho! Eu estou ensaiando uma visita à festa já há algum tempo e este me motivou ainda mais! Já cheguei a conversar com algumas citadas aqui através do falecido msn e a opinião acerca da festa foi unânime, todas recomendaram! Em breve irei, demorei um pouco para entender, e até admitir, que trans me atraem tanto quanto mulheres mas não há como fugir e ter uma festa como essa é muito bom. Eu não frequento nenhum tipo de balada, nunca gostei pra ser sincero, contudo a premissa de ter uma voltada só para trans, admiradores e entusiastas é maravilhoso!

Marco Lima disse...

Parabéns pela materia de alto nivel, adorei a Casa muito simpática, um ambiante super descontraído e acolhedor...espero em breve poder visitar a casa juntamente com algumas amigas crossdresser assim como eu. ..Bjs e sucesso.

Anônimo disse...

Sou apaixonado por trans elas na minha opinao merece uma festa assim adoro a Paty

Dj ale disse...

Oi gostaria de saber mais sobre a casa. pois sou hetero e gostaria de conhecer esse casa linda eu posso ir nesta casa.grato

Dj ale disse...

Oi gostaria de saber mais sobre a casa. pois sou hetero e gostaria de conhecer esse casa linda eu posso ir nesta casa.grato

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