Entrevista

Advogada Luisa Stern revela rotina pós-redesignação sexual aos 46 anos


Quanto tempo leva para um sonho ser realizado? Para Luísa Helena Stern, advogada e militante gaúcha, o sonho de ser uma mulher completa [e adequar o corpo e os documentos ao que sempre sentiu] demorou 46 anos. Pouco tempo para quem tem a consciência de que nunca é tarde para ser feliz. E mais: que soube aproveitar com inteligência cada fase de autodescoberta.

Em maio de 2012, a ruiva mudou legalmente o nome civil. No dia 1º de fevereiro de 2013, foi submetida à cirurgia de redesignação sexual [a mudança de sexo] no Hospital das Clínicas, em Porto Alegre. Um mês depois, mais uma conquista: No Dia das Mulheres, tornou-se matéria do site G1 para falar sobre detalhes de sua vida e as pelejas das MULHERES transexuais.

Entrevistei pessoalmente Luísa em 2009, quando ela comentou sobre a vivência crossdresser, o trabalho como funcionária pública e o sonho da cirurgia. Três anos depois, ainda em recuperação, o NLucon conversa novamente com ela para um papo sincero e franco sobre as latentes dores do pós-cirúrgico, a mudança de área profissional, militância e direitos.

Abaixo, a entrevista com uma das mais inteligentes mulheres transexuais do nosso Brasil. Agora, muito mais feliz e segura:  

- Há três anos, fizemos uma entrevista em que você falava sobre a “descoberta” sua transexualidade. Hoje, converso com a mesma Luísa?

Sim, sou a mesma Luísa. Porém, com mais experiência e a felicidade de ter conseguido realizar algumas coisas que, naquela época, ainda eram sonhos. A mudança dos documentos, por exemplo, me deixou muito mais feliz e muito mais segura. Isso aconteceu quase que ao mesmo tempo em que fui aprovada no Exame de Ordem da OAB. Então, já consegui me registrar como advogada como o nome feminino. Imagine só, se hoje eu tivesse que ir à uma audiência, e ouvisse falarem em voz alta o antigo nome masculino? Causaria enormes constrangimentos...



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"Declarações de Feliciano colaborou para que gays se unissem mais"

- Além disso, você passou pela cirurgia de redesignação sexual. Como foi ser operada aos 46 anos?

Entendo que a gente não tem limite de idade para ser feliz. Se eu tivesse conhecimento e o mundo fosse menos preconceituoso, teria feito há mais tempo. Mas o momento ideal é uma combinação entre a gente se sentir preparada e o surgimento da oportunidade. Neste sentido, posso dizer que foi o momento ideal. Ainda não deu para sentir muitas diferenças em minha vida, pois ainda estou me recuperando. Sinto que daqui para frente a minha vida pode mudar bastante, pois poderei fazer muitas coisas que antes não poderia fazer, por questões óbvias.

- Existem muitos mitos e muitas inverdades sobre a cirurgia na mídia. O que você não sabia sobre ela e que só descobriu vivenciando?

A dor (risos). Como a recuperação é dolorida... Enquanto estava no hospital, tudo foi perfeito, fui muito bem tratada e tinha injeção de analgésicos quando precisava. Depois que fui para casa, é que senti dor de verdade.

- De 0 a 10 quanto é essa dor?

É 11, localizada na região genital, como se tivesse um círculo de arame farpado por baixo da pele, com alguém apertando o tempo inteiro. Se achar que pode chocar, tira essa frase (risos). Também é preciso dizer que a dor é uma questão muito pessoal, pois existem meninas do meu grupo que dizem ter sentido pouca dor e voltaram às suas atividades normais, de trabalho, inclusive, muito menos tempo do que eu. A dor não interfere no resultado. 

- Lea T disse que a cirurgia não era fundamental e deu um tom de arrependimento. Pensou em algum momento que seria melhor ter desistido do processo?

Faria quantas vezes precisar e nunca pensei em desistir. Inclusive, fiquei bastante revoltada com aquela entrevista dela no Fantástico, pois foi no domingo antes da minha cirurgia, que ocorreu na sexta-feira, 1º. Tanto não me arrependi que operei e, quando despertei, só olhei para o relógio de parede, para saber quanto tempo havia durado. Senti-me bem e aliviada, embora ainda não sentisse nada da cintura para baixo, por causa da anestesia. Faria quantas vezes fossem necessárias.

- Como está sendo a sua rotina?

Passo a maior parte do tempo deitada na cama e aquela dor diminuiu. Só tenho dificuldade para caminhar e ficar sentada. Nos primeiros dias, vi vários filmes, depois cansei um pouco. A situação de ficar o dia inteiro na cama não é agradável para ler ou escrever muito, pois logo dá sono. Passo a maior parte do tempo com o notebook, nas redes sociais, jogando ou fazendo algum trabalho jurídico, mesmo na cama. Estou saindo aos poucos. Mas ainda não dá para forçar muito, nem ficar muito tempo sentada. Estamos chegando aos 120 dias da cirurgia e ainda não tenho ideia de quanto tempo vai levar.


- Para você, o que é ser mulher?

Eu sou mulher, sempre fui. Porém, não me importo de ser vista ou ser reconhecida como transexual. Ao contrário, tenho orgulho disso, porque para chegar até aqui passei por dificuldades que a maioria das pessoas não vai ter. Para mim, ser mulher é sentir-se mulher, mas não me peça para definir, pois é um bocado completo. Existem “n”s tipos de mulheres que são muito diferentes entre si.

- Se pudesse escolher, teria nascido com o sexo biológico feminino?

A resposta mais óbvia é o “sim”. Mas, se eu tivesse nascido assim, não teria vivenciado tanta coisa, nem tido a experiência da transformação. Se eu pudesse escolher, creio que teria escolhido ser transexual, mas em um mundo menos preconceituoso, em que eu pudesse transicionar sem tanas dificuldades.

- Como sua família encarou esse momento da sua vida?

Eles têm me apoiado bastante. Eu moro sozinha, mas minha sobrinha mais velha e minha irmã me deram todo o apoio necessário. Até minha mãe, que mora em outra cidade, veio me visitar e se ofereceu para ficar comigo se precisasse. Minha mãe custou um pouco para me tratar como mulher, mas aprendeu a me chamar de filha. Esse apoio é muito importante, mesmo para mim, que já tinha vida independente e morava longe dos familiares há décadas.

- Antes mesmo da operação, você conseguiu mudar a documentação. O fato de ser advogada facilitou na conscientização dos tramites?

Embora na época eu não era ainda advogada, apenas bacharel, facilitou muito, claro. Mas, no meu caso, encontrei dificuldade porque além da mudança do nome, resolvi pedir também a mudança do sexo da documentação, antes de ter feito a cirurgia. Senti que o juiz estava inclinado a enrolar e postergar a decisão de todas as formas, para esperar pela cirurgia. Então, depois de um ano e um mês de tramitação do processo, cansei dessa enrolação e abri mão, temporariamente, do pedido de mudança do sexo. Aí, o juiz emitiu a sentença favorável à mudança do nome em três dias. Agora, basta desarquivar o processo antigo e juntar o laudo da cirurgia. Sem muita discussão.

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Com Jean Wyllys: "Sempre fui mulher, mas tenho orgulho de ser reconhecida como transexual"

- Você passou no exame da OAB em 2012, mas se formou em 2000. Por que demorou tanto tempo para fazer a prova?

Antes de fazer o curso de Direito, me graduei em Ciências Contábeis e trabalhava nessa área. A mudança deu-se porque antes eu tinha emprego fixo e renda certa no fim do mês, mas trabalhava num ambiente conservador, sem condições de viver a minha identidade feminina. Agora, sou autônoma, militante e trabalho como voluntária no Serviço de Assistência Judiciária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o SAJU da URFGS.

- Da sua experiência como advogada, qual é o direito principal que as travestis e transexuais devem ir atrás?

O reconhecimento da identidade, com a retificação do registro, porque a maioria das situações de preconceito pelas quais passamos decorrem disso.

- Quando e quais são os tipos de preconceito e transfobia merecem ser denunciados?

Entendo que todas as formas de discriminação devem ser denunciadas. Senão, o resto do mundo não fica sabendo e se torna difícil de tomar medias para combater o preconceito. Legalmente falando, no sentido mais escrito, a transfobia não é reconhecida como crime ou ilícito. O que existe são normas mais amplas, como o princípio constitucional da não-discriminação, previsto no artigo 3º da CRFB, os crimes contra a honra do Código Penal, por onde se pode enquadrar uma conduta discriminatória. Para as agressões físicas e homicídio, já existe previsão legal, a discriminação pode entrar como agravante, dependendo do caso. E na área cível, o direito de buscar indenização ou reparação sempre que a pessoa se sentir prejudicada, independente do motivo.

- Em uma de nossas conversas, você disse que a militância ajudou a ser quem você é. Como você avalia a atual militância LGBT, tendo em vista que grande parte sente apatia pelas manifestações?

Existe apatia em todos os setores da sociedade. O maior problema com a militância LGBT é o fato de ser muito dividida. Neste aspecto, as bizarrices do Feliciano até que serviram para nos unir um pouco mais.

- Por falar no Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, não dá para fazer nada legalmente com eles por conta das declarações preconceituosas?

Eles têm imunidade parlamentar. Mas estão sendo processados no STF [Supremo Tribunal Federal] que, por sua vez, pode ser um tanto moroso e fazer julgamento políticos em vez de jurídicos, como tem feito ultimamente.

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"Se pudesse escolher, teria vindo ao mundo como transexual"

- Conta um pouco sobre o seu trabalho de militante... E o que são os mutirões que vocês fazem? 

Comecei como militante na Igualdade RS faz alguns anos. Em 2012, passei a coordenar o núcleo de transexuais e também a fazer assessoria jurídica. No fim do ano, comecei como advogada voluntária no SAJU da URRGS, no grupo G8-Generalizando, que trabalha com direitos sexuais e de gênero. Então, da ligação entre as duas instituições, surgiu a ideia de fazermos um mutirão de processos judiciais para retificação do registro de travestis e transexuais, para ser entregue em 29 de janeiro, no Dia Nacional da Visibilidade Trans.

- Qual foi o resultado?

Foi um sucesso, com decisões favoráveis em tempo recorde. Em função disso, a procura pelo serviço aumentou bastante. Em 17 de maio, fizemos a segunda edição do mutirão, com mais uma quantidade de ações judiciais. E ainda têm dezenas de pessoas na fila, esperando a sua vez. Para explicar melhor, o mutirão é um trabalho coletivo e gratuito de advogados, psicólogos e estudantes dessas áreas para fazer os atendimentos às pessoas interessadas, elaborar parecer psicológico e as petições para os processos judiciais.

- Uma curiosidade. Como você teve uma vivência crossdresser, qual é a relação que tem com o grupo atualmente?

Permaneço em contato com as crossdressers, embora mais distante. Esse é outro grupo meio dividido, tenho muitas amizades no meio, outras nem tanto. Tem gente que  me admira pela coragem de ter levado a transição adiante e outras que pensam que, por eu ser transexual, não deveria mais estar no meio delas.

- Hoje, qual é o seu sonho?

A paz mundial, um pônei e... Estou brincando (risos). Não dá para resumir em um só, mas ainda faltou eu encontrar um príncipe encantado.

* Agora começa uma nova etapa em sua vida. Nós, colaboradores e leitores do NLucon, desejamos muito mais felicidades nesta caminhada!


Agora, só falta encontrar um príncipe encantado!
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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