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Com 50 anos de Zé do Caixão, José Mojica diz: 'Ainda sou incompreendido'

Zé do Caixão, José Mojica e Liz Vamp

Longe da capa e do chapéu, José Mojica acorda todas as manhãs rezando o Pai Nosso, oração que também faz religiosamente todas as noites antes de dormir. Aos 77 anos, o cineasta comemora 60 anos de carreira, 50 anos de Zé do Caixão, seu mais importante personagem, e afirma que só tem medo do amanhã.

O ato de rezar – que certamente surpreende muita gente, já que seu icônico personagem é ateu - vem da consciência de que deixou as orações quando era coroinha. E que, agora, estaria “pagando” todas as orações que por ventura “esqueceu” durante a vida.

“Acredito em uma força suprema, que as pessoas chamam de Deus. É incrível, você joga uma semente na terra, vê ela brotar, virar uma árvore, produzir frutos, flores, é por isso que eu acredito que por trás dessa perfeição há um ser superior, celeste, que seria Deus”.

Mas não pense que Zé abandonou o horror e se converteu. Longe disso! O monstro do terror tupiniquim continua amante dos sustos, pesadelos e, ao contar uma história, exibe sua inconfundível voz. O lado religioso é apenas mais uma das fascinantes características que diferencia a persona do personagem.

Extremamente lúcido e consciente de sua obra, Zé comemora a carreira fazendo workshops pelo Brasil. Ao lado da filha Liz Marins, também conhecida como Liz Vamp, ele ensina o que aprendeu durante os anos de dedicação ao cinema. Uma oportunidade única!

Uma das primeiras fotos da turnê de 50 anos de Zé do Caixão

“Minha inspiração vem dos pesadelos”

A entrevista ocorre depois da meia noite, após o encontro do mestre com jovens aspirantes a cineastas terminar no Tênis Clube Paulista, em São Paulo. O monstro do terror bebe vinho, come polenta frita, fuma um cigarro e afirma que o único problema de ultrapassar os setenta é a dor de uma hérnia na virilha e insônia.

“A idade não mudou muita coisa, pois fui adaptando minha criatividade à realidade do mundo. Minhas ideias se manifestam pelos pesadelos e vem muita coisa de pós-morte. O Mario Schenberg [físico] dizia que meus pesadelos traziam mensagens futuristas e que, se eu montasse o quebra-cabeça, veria muita coisa. Um dia montei, mas não gostei do que vi e desisti”.

Foi durante um sonho que ele descobriu que também era sonâmbulo e, ao lado e um sócio, saiu pela noite de São Paulo a procura de pastel. De acordo com o cineasta, o zelador correu atrás dos dois, mas não chamou a atenção porque, para sua surpresa, eles dormindo. Com os olhos fechados, eles comeram pastel, pagaram e voltaram para a casa, a pé.

“Na infância, rezei para um morto voltar e ele se levantou”

Filho único de pais de origem espanhola, José morava nos fundos de um cinema desde os 3 anos. Recebeu todos os mimos da mãe – que não acreditava sequer nas travessuras admitidas - e dos amigos, que adoram bajulá-lo só para irem ao cinema de graça. A experiência mais próxima do terror ocorreu aos oito anos, quando um homem muito próximo morreu. 


“Ele contava histórias da carochinha, dava balas e eu o adorava. Descobri que ele havia morrido e eu fui chorar no velório. Comecei a rezar e a pedir para ele voltar, voltar. De repente, o homem se levanta do caixão e se apavora! Ele não estava morto, ele teve uma catalepsia. Todos saíram correndo e eu fiquei em frente a ele, sorrindo, feliz. Isso me marcou muito”.

Segundo Mojica, o episódio não deixou nenhum tipo de trauma e, ao comentar a sua relação com a morte atualmente, ele diz que ela é inevitavelmente uma passagem e possivelmente um encontro. Para ele, o verdadeiro medo é de sofrer em uma cama.

“Não tenho problemas com a morte, desde que ela não seja dolorida. Gostaria de morrer dormindo ou com um raio. Admito que tenho mais medo do dia seguinte, por não sabemos o que vai acontecer. É um pavor! Há coisas que a gente não está preparado como, por exemplo, a perda de um amigo de 55 anos que tive. Pô, mais de 50 anos de amizade e, do nada, o cara vai embora?”.

“Sou incompreendido no Brasil, as pessoas acham que sou o bicho-papão”

José dirigiu 39 filmes, atuou em 25, sendo o último em 2009, A Cruz e o Pentagrama, e coleciona vários prêmios. Segundo o cineasta, comemorar 50 anos de um personagem é uma vitória, mas ele ainda se sente incompreendido pelo público brasileiro, que ainda confunde a sua vida com a do Zé do Caixão.

“Acho bacana esse sucesso, mas me sinto incompreendido. O meu terror é bem tupiniquim, bem brasileiro e não tenho tanto valor com aquilo que eu protejo tanto, que é o Brasil. As pessoas me observam como o Bicho Papão, Lobisomem e não tem nada a ver. As pessoas me julgam sem assistir aos meus filmes, sem saber que eu defendo, por exemplo, as crianças”, desabafa.

Cena do filme À Meia Noite Levarei a Sua Alma (1964)

O cineasta garante que nunca se confundiu e pontua as diferenças: O Zé do Caixão é ateu, Mojica acredita em Deus. O Zé quer o filho perfeito, ele tem sete. O Zé busca a mulher ideal, e ele já viveu os meus amores. O personagem usa cartola e capa, e ele dispensa a vestimenta em seu cotidiano. A única semelhança está nos sustos que, sem querer, ele provoca ao percorrer as ruas. 

“Existem pessoas que se benzem quando me vê, tem gente que se espanta. Teve uma que, ao me ver na feira, começou a gritar. Quando eu me apresentei à Censura, a primeira coisa que os censores fizeram foi pegar em mim, saber se eu era de carne e osso. Ora, é o fim da picada”. 

Durante a carreira, Zé virou garoto-propaganda de um desodorante, perfume, sabonete, vitalizante para unha, cachaça e até inspirou um modelo de carro. Ele brinca que o sabonete era tão forte que eliminava espinha e era capaz até de tirar cheiro de enxofre.

 “Mulheres se arrepiavam com minhas unhas”

Se em muitas pessoas o cineasta botava medo, em muitas mulheres ele despertava paixões arrebatadoras. Ao todo, foram três esposas oficiais [a primeira, foi uma espanhola aos 16 anos], muitas amantes [admitidas e a se revelar] e sete filhos. Segundo ele, um dos atrativos que despertava o interesse do público feminino era a gigantesca unha, que o acompanhou fora das telas durante 35 anos. 



Alex Paes e fã americana exibem suas tatuagens

“Elas adoravam que eu passava a unha comprida nas costas delas. Era o maior carinho que eu poderia fazer, pois aquilo arrepiava a mulher. Elas diziam que era uma sensação diferente e que nunca mais experimentariam com ninguém. Já fui muito galinha, mas daqueles de mandar flores, de guardar o beijo na sacada. Hoje, sou tranquilo”, afirma, exibindo apenas a unha do polegar grande.

O cineasta garante que sempre gostou de unhas expressivas e revelou que quem sugeriu que ele adotasse o visual foi um maquiador da época. A ideia era que chamasse atenção e criasse uma identidade. E a prova do sucesso é que durante, uma viagem à França. descobriu que foi o seu personagem quem inspirou o também icônico personagem Freddy Krueger.

“Mas a inspiração foi do terror tupiniquim e ninguém se preocupa em dar os créditos. De qualquer maneira, fiquei feliz”

 “Já fui atrás de lobisomem e ET”

Entre os momentos de glória, esquisitos e macabros de sua carreira, o cineasta destaca a recepção do público francês e português. O astro diz que ficou hospedado no castelo de Dom João 6 e Maria Joaquina, em Portugal, avistou de seu quarto uma árvore onde criados eram enforcados e expostos, e chegou a tomar banho na banheira da realeza. 


 
Capa do disco de Zé Ramalho, A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, e seus filmes

“Tinha que ser comigo, né? Mas me senti o dono da bola e fiz até sucesso com a mulherada (risos). Uma vez, uma mulher linda entrou no meu camarim e pediu um beijo. Quando fui dar, o marido dela entrou. ‘Meu Deus, vai ter confusão!’, pensei. Mas ele disse. ‘Por favor, você tem que beijar, senão não vou conseguir dormir com ela. Foi a coisa mais estranha que eu fiz neste sentido”.

Outras experiências esquisitas foram as várias caças a seres fantásticos. O cineasta afirma que já ficou pendurado em uma torre no interior de São Paulo em busca de extraterrestres, já ficou sozinho em uma montanha, que dizia ser habitada por lobisomem e já entrou em uma casa que desapareciam pessoas.

“Nesta casa, localizada em Amparo [interior de São Paulo] descobri que só desapareciam os jovens que queriam fugir da família e se casar com seus pares. Quando visitei cidades vizinhas, encontrei várias pessoas que estavam desaparecidas. Pela minha experiência – e olha que já procurei muito – acredito que os monstros, seres fantásticos existem apenas na imaginação. Mas eu acredito em essência e alma”.

Quem será o sucessor? Ou seria sucessora?

Atualmente, Zé apresenta o programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, no Canal Brasil. Nele, ele entrevista personalidades como Alessandra Negrini, Malu Magalhães, Laerte e Danilo Gentili. Feliz com a oportunidade de manter o seu trabalho, Mojica garante que não encontrou um sucessor até o momento.


Zé do Caixão e Liz Vamp, personagens de José Mojica e Liz Marins

“Já procurei em todos os lugares, coloquei até anúncio e apareceram várias pessoas. Mas não adianta vir vestido do Zé do Caixão, eu quero alguém com a mente evoluída. Neste sentido, o Zé do Caixão não terá sucessor, terá apenas sucessora, uma mulher”, diz ele. 

José, que se considera conservador e muitas vezes machista, aponta para a filha Liz Marins, que encarna a personagem Liz Vamp. O cineasta afirma que gosta do trabalho desenvolvido pela sucessora – que criou no Brasil o Dia dos Vampiros - e revela que o contato com o terror vem desde quando ela era pequena e ele a levava para assistir os seus filmes e dar alguns “sustinhos”.

Missão cumprida!

“Poderia ter ficado rico se não ocorressem alguns percalços da vida, promessas, amizades que se aproveitaram das boas fases. Mas profissionalmente a minha sensação é de missão cumprida. Agora, quero ter uma velhice tranquila”, revela Zé, que em sua casa gosta de assistir um bom filme de terror, beber vinho, picanha mal passada com alho, comida japonesa e árabe.

Um pouco dessa rica história poderá ser vista em um filme biográfico, que está sendo produzido e terá a atuação de ninguém menos que Matheus Naschtergaele - uma escolha do próprio homenageado. E nas aulas do cineasta, que podem ser contatadas pelo e-mail zedocaixao50@gmail.com.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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