Entrevista

Paty Delli diz que superou preconceito e calote para manter festa trans


Todas as terças-feiras, a produtora de eventos Paty Delli promove a festa Terças Trans, curiosamente destinada às travestis e transexuais de São Paulo. O espaço intimista e harmônico [para todos do grupo LGBT e héteros] conta com shows de dublagem, homenagens a divas trans, brincadeiras com gogoboys e até concursos de miss.

A ideia surgiu há três anos e tornou-se a grande paixão da vida [e razão de viver] da produtora. Quem a vê correndo de um lado para o outro, vendo todos os detalhes – e dando o sangue para conseguir realizar mais uma edição do evento - percebe o brilho no olhar e o carinho que ela sente pela festividade, pelos convidados e seus frequentadores.

Paty quer levar as travestis e transexuais para outro patamar e ressaltar o trabalho de quem já fez tanto pela arte da comunidade LGBT. E, nesta caminhada dos bastidores [às vezes, ela se arrisca nos palcos também], a loira conseguiu se destacar e chamar atenção. Tanto que concorre ao prêmio de Talento Transexual 2012 do site Papo Mix.

Abaixo, uma entrevista com a responsável, profissional e cativante produtora da única festa feita por [e para as] travestis.

- Você comemora três anos de Terça Trans. Quando promoveu a primeira festa de sua carreira? 

As primeiras festas foram para o meu aniversário. Chamava algumas amigas que faziam shows e levava todo mundo para o espaço. Era sempre um evento muito bacana e, com o tempo, começaram a falar para eu expandir e tornar uma festa fixa. Há três anos, organizei um evento que homenageou a grande artista Carla Hellen, que é uma pessoa que eu conheço há muitos anos e que eu adoro. Depois, começamos a fazer outras homenagens e valorizar outras trans talentosas. A Carla tornou-se a madrinha. 
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Paty e a Miss Pluss Size Gay, Carla Hellen e Salete Campari
  
- Mas por que uma festa voltada para as travestis?

Notei que existem festas para o público lésbico, para todos os grupos de gays e até crossdresser, mas nunca escutei falar de uma festa voltada para travestis. Refleti e vi que muitas pessoas acham que a travesti não consegue ir além do óbvio, da marginalidade, da prostituição. A sociedade dá um limite para nós e faz vigilância para ver até onde vamos. Então decidi criar uma festa para todas aquelas que conseguiram superar o preconceito, ou seja, para as divas que fazem shows, que viajam o mundo trabalhando e para aquelas que vivem bem em sociedade. É uma festa que mostra que travesti não é bagunça. 

- Mas uma festa às terças-feiras é ainda mais atípica, não?

No começo, era uma vez por mês e foi em uma segunda-feira. Passamos para 15 dias e, hoje, abrimos todas as terças. Escolhi essa data porque era o único dia em que São Paulo não promovia uma festa para a comunidade LGBT. Na segunda já havia três, na quarta a Salete [Campari] abre a Danger, daí quinta, sexta, sábado e domingo são os dias tradicionais de boate, então só sobrou a terça. Mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, pois o nome pegou de uma maneira incrível. Agora, temos dois “T”s, o de terça e o de trans. É uma obra de Deus e do destino.

- É difícil criar, organizar e manter uma festa destinada às travestis? 

Se eu disser que foi e é fácil, estarei mentindo. As pessoas não acreditam que uma travesti pode fazer uma festa de qualidade. Como tudo na vida de uma trans, é muito difícil superar e realizar um trabalho, seja ele qual for. No começo, ninguém apoiou, ninguém patrocinou, ninguém acreditou. Até mesmo as travestis tinham receio de vir, pois pensavam que a festa só teria travesti. Hoje, os poucos incentivos que temos são muito importantes. Podemos respirar, mas ainda não dá para soltar a corda. A coisa não tá boa ainda, mas com certeza todo dia de festa é a superação de um obstáculo.
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Com a diva Natasha Dumont e dançando no palco da casa

- Você disse que as travestis achavam que na Terça Trans só entrava travesti. Gay não pode entrar?

Nós não temos preconceito com ninguém, fazemos uma festa democrática. Entra gay, lésbica, héteros, casal, travesti, transex, drag, crossdresser. No início, a gente até queria só travesti, mas daí uma travesti trouxe um amigo, outra trouxe variadas companhias e eu também comecei a sentir vontade de trazer meus amigos gays. Naturalmente, criou-se uma festa que é denominada trans, mas que o público é formado por um mix de pessoas. E com zero de brigas. Todo o convívio é gerado em torno da amizade e não importa como você se veste ou como você se aceita. O que importa é que você se divirta.


- Como surgiu o seu interesse pela cultura trans? Se inspirou em alguém?

Eu assistia aos shows de travestis que tinha no Programa Silvio Santos. Ficava encantada, achava bonito, diferente... Lembro principalmente da Marcinha [do Corinto], que estava sempre lá. Não cheguei a me inspirar em ninguém, mas com certeza elas foram um alicerce para a construção de quem eu sou. Hoje, além da admiração como artista, eu as tenho como amigas. Também as admiro como amigas.

- Além dos shows, o que tem mais na Terças Trans?

Os shows realmente são o ponto alto, mas toda festa é diferente. Também temos sorteios, alguns concursos, como o Miss Plus Size Gay e o concurso do gogoboy, as homenagens.. Temos contato com algumas Ongs, que informam como agir quando somos vítimas de preconceito e fazem orientações. Para você ter uma ideia, sorteamos até próteses de uma clínica e realizamos o sonho de 12 trans. É emocionante porque, quando começou, não tinha noção do que iria acontecer. Mas hoje a festa faz parte da minha vida e de muitas meninas.
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"Não tivemos uma briga sequer desde a primeira festa"

- O que você fazia antes de se tornar uma produtora de eventos?

Minha história não é diferente da maioria das travestis. Em Salvador, tive uma vida de prostituição e não sabia o que ia fazer. Montei um salão, mas acabei fechando. Montei o segundo e fechei novamente. Aí vim para São Paulo, fui para a Europa, onde fiquei dois anos. Quando voltei, montei a festa. Mas não me arrependo de ter viajado para fora, de ter me prostituído. Tudo o que eu fiz me serviu de alicerce para a pessoa que eu sou hoje.  

- O que esta festa significa para você?

Muita coisa porque, logo quando montei, ocorreu um problema muito sério na minha vida. Foi um desfalque muito grande - um "amigo" pediu dinheiro emprestado para um projeto e sumiu com tudo o que juntei da Europa. Fiquei no zero, arrasada e quase entrei em depressão. A festa serviu de alicerce para eu me agarrar, senão certamente iria cometer uma loucura. Ela serviu de remédio, me tirou daquela angustia, da depressão, me salvou e me motivou.


E como deu a volta por cima? 

Quando esse "amigo" deu o calote, faltava uma semana para a festa do meu aniversário. Acabou que as pessoas souberam o que eu passei, de como eu fiquei e me apoiaram. Foi uma união dos amigos, que me fizeram superar. Hoje, m
uitas vezes eu não tenho lucro, mas não existe possibilidade de eu desistir da Terça trans. As pessoas devem entender que a única festa de São Paulo que tem as travestis e transexuais como divas, então não podemos perder. 

- O que você sente quando vê o espaço cheio, as pessoas se divertindo, a música rolando?

Me sinto grata, não tem explicação. É maravilhoso subir no palco, ver as pessoas me aplaudirem, querer tirar foto comigo. É muito legal ver pessoas me adicionando nas redes sociais, me desejando felicidade, sucesso. A Terça Trans é o filho que nunca tive. Então, filho a gente mima, a gente cuida, a gente acalenta. Eu cuido da Terça Trans e a Terça Trans cuida de mim. Existe uma parceria aí. 

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"Quero ressaltar o trabalho de quem já fez tanto por nossa comunidade"

Você tem até se apresentado nos palcos e concorre até um prêmio de Talento Trans...


Tudo ocorreu por acaso. Ano passado, a apresentadora da festa em  homenagem que fizemos à Talessa Top não compareceu e eu tive que apresentar pela primeira vez. Depois, fiz uma performance dublando "Vou Seguir", da Marina Elali e sempre que tem alguma festa de amigas eu faço alguma apresentação. Brinco que não sou apresentadora, que não sou artista, mas as pessoas me recebem bem. Até porque procuro fazer com prazer, colocar um vestido diferente, uma maquiagem diferente, uma performance diferente...

Qual é o seu maior sonho? 

Sonho que esta festa entre para o calendário de festas de São Paulo. Eu sei que é um pouco complicado, mas quem sabe um dia a gente consegue, né?

 SERVIÇO 

A Terça Trans está localizada na Rua Bento Freitas, 66, Largo do Arouche, em São Paulo. 
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"É uma festa onde trans, gays, lésbicas e héteros são bem-vindos"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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