Entrevista

'Foram brigas homéricas', diz Dácio Pinheiro, diretor do filme sobre Claudia Wonder

Filme acaba de entrar no circuito comercial de cinema do Brasil

Poucos artistas tiveram o privilégio de ver sua obra reconhecida em vida. Com a eterna artista multimídia Claudia Wonder, que nos deixou em 2010, a regra virou exceção. Graças ao olhar sensível, transgressor e apurado do diretor Dácio Pinheiro, Claudia se emocionou ao assistir em 2009 a sua história – e os muitos pioneirismos de sua carreira - no documentário “Meu Amigo Claudia” [Piloto], exibido e premiado em diversos festivais. 

O filme conta a trajetória da artista, que logo na infância se encantou com os aplausos durante uma apresentação escolar e que marcou o cenário underground dos anos 80 e 90. Fala de sua presença em filmes da Boca do Lixo, da banda de rock Jardim das Delícias, da carreira no Teatro Oficina e das marcantes manifestações artísticas para reivindicar direitos.


Com depoimentos de Leão Lobo, Zé Celso Martinez, Kid Vinil, Grace Gionoukas, Sérgio Mamberti e Glauco Mattoso, a obra também apresenta o cenário político do grupo LGBT e o panorama artístico brasileiro. Nele, um mergulho nu de Claudia em uma banheira de groselha, no subsolo da casa noturna Madame Satã, simbolizando o sangue num período de aids e preconceito. 

Neste mês, o longa entra no circuito comercial de cinema no Brasil. A estreia será na próxima quinta-feira, 30, e integra a programação cultual da Parada LGBT 2013 de São Paulo, que acontece no dia 2 de junho. “E estreia será no Shopping Frei Caneca e, a princípio, ficará uma semana. Depois deve rodar em São Paulo, BH, Rio de Janeiro e Recife”, informa Dácio.

Abaixo, uma entrevista com um dos mais importantes amigos de minha amiga Claudia:


- Dentre tantas figuras fantásticas do mundo LGBT e paulistano, por que escolheu Claudia Wonder?

Já conhecia a Claudia de vista, mas o contato só estreitou em 2003. O Ricardo Castro e a Claudia Guimarães me chamaram para fazer um vídeo – o Claudia Wonder International Show – e nos bastidores escutei várias histórias dela. Em dado momento, ela me deu a chave do apartamento dela para pegar uma pasta com fotos. E a gente ficou até tarde da noite vendo aquelas fotos e escutando todas as histórias. Depois de escutar todas, pensei: estou diante de um documentário incrível!

- Ela era atriz, cantora, militante, escritora... Quais destes trabalhos mais chamaram a sua atenção?

Uma das principais atitudes que me motivou a produzir o documentário foi a performance da banheira [ela se jogava nua em uma banheira de groselha no subsolo do Madame Satã, num período em que o mundo tinha medo e preconceito com pessoas com aids] . Eu achava incrível, principalmente por ser uma performance marcante e com um fundo meio manifesto, meio político. Isso de cara me catou. Depois, fui vendo e gostando do lado rock. E, por fim, do lado político. Como o Zé Celso disse, Claudia era uma militante que fazia arte para fazer serviço, não precisava gritar. Tudo era com leveza...

- Além de falar sobre a história da Claudia, o documentário tem como pano de fundo o momento político. Foi uma preocupação não se ater à história da artista?

A princípio, era apenas a história dela. Mas comecei a ver que existia muita coisa por trás do que ela contava. Claudia me disse, por exemplo, que participou de uma passeata de travestis quando o Tancredo Neves morreu. Fui ao arquivo da Folha de São Paulo e o que vejo? A foto dela, da Claudia, puxando essa passeata! Depois, fui ao arquivo do NP [Notícias Populares], fui em todos os jornais e vi as matérias para ter a dimensão de tudo o que ela falava. Tanto que tenho um projeto que é um pouco filho da Claudia, por conta de tanto material de pesquisa que achei: como era ser gay e travesti nos anos 80.

Foto da Folha de São Paulo em que mostra Claudia em manifestação política

- Como foram os bastidores do filme, tendo em vista que a Claudia não gostava de tocar em alguns assuntos de sua vida nem sem as câmeras? Chegaram a brigar?

Claro, tivemos brigas homéricas [risos]. Teve uma terrível, em que ela disse: “Você me matou com esse filme”. Nunca foi muito fácil, pois ela sempre aparecia com um problema: “Ai, você chegou de surpresa, não estou boa hoje”. Alguns temas foram difíceis, como as do parque, em que ela falava sobre a aids, amigos que morreram. Naquele dia, ela ficou mal, me ligou e disse que não estava bem com a gravação... Mas percebi que conseguia extrair muito mais conteúdo quando só estávamos gravando só eu e ela [geralmente a equipe era formada por quatro pessoas]. Ela falou mais verdades para a câmera, por exemplo, na cena do carro [ela fala sobre preconceito entre as próprias pessoas que formam a comunidade LGBT].

- Em algum momento você se emocionou com o documentário? Qual foi?

Existem vários momentos emocionantes na história da vida da Claudia, mas lembro do dia em que ela assistiu ao filme [já pronto] pela primeira vez. Foi emocionante, pois ao ouvir a música da parte política ela desmontou. Estávamos no Centro Cultural Banco do Brasil, em uma exibição só para ela e eu estava ao lado. Foi muita emoção. Além disso, durante todo o processo, estive envolvido nas descobertas das histórias, nos depoimentos do Leão Lobo, Zé Celso... Fiquei louco e, então, emocionado por ter esse material incrível em mãos.

- A priori, o trabalho era independente. Como foram surgindo as parcerias?

Antes, eu e a Claudia começamos a fazer o filme com uma câmera, meio informal. Em 2006, mostrei o projeto para a Piloto e eles toparam fazer. Deram-me toda a estrutura e equipe. Em duas semanas, entrevistamos todo mundo que precisava entrevistar. E foi tudo na raça, mesmo. Em 2009, ficou pronto, fomos para o Festival de São Francisco, mas não tínhamos vários direitos de imagem. Daí fomos aprovados pelo edital de finalização da Prefeitura de São Paulo e conseguimos regularizar o filme completo. Agora, ele pode ser comercializado, virar DVD... Tanto que foi vendido ao Canal Brasil...

Sérgio Mamberti e Grace Gionoukas estão em Meu Amigo Claudia

- Que maravilha! Claudia iria amar saber que o filme dela será exibido no Canal Brasil...

Até chorei e me perguntei por que ela não estava aqui para curtir esse momento. Certamente, ela estaria muito feliz, era o que ela queria... Vai ser exibido no Canal Brasil, assim que sair do cinema.

- Houve alguma mudança e edição do filme nestes últimos meses?

Tirei a mordida de pau [cena da pornochanchada Sexo dos Anormais, o primeiro protagonizado por uma travesti, no caso, a Claudia].  Quero que esse filme tenha uma vida também educacional. A história da Claudia é repleta de coisas ligadas à história do país, tem um lado educacional, que poderia ser exibido em escolas... Então, preferi tirar essa cena mais erótica que poderia dar algum problema. Mudei alguns recortes de jornal, que a gente não achou a matéria original, mas substituímos por outro com o mesmo título. E o fim, com o a informação de que ela morreu.


- Claudia contou que era intersexo, mas isso não foi abordado no filme. Qual o motivo?
Ela só foi me dizer depois que terminamos a entrevista e as gravações. Fizeram essa pergunta durante um debate sobre o filme, mas não sei por qual razão ela foi falar só depois que terminamos. Agora, não pretendo acrescentar a informação, afinal o documentário terminou no último dia em que gravamos. 

- Onde estava quando soube que a Claudia morreu?

Foi uma história bizarra, pois fui passar uma temporada na Alemanha. Uma semana antes, eu conversei com ela e ela estava ótima. Fui para Berlim e soube que ela estava internada. Quando fui para Praga e visitava uma igreja, decorada com ossadas humanas, me telefonaram para falar que ela havia morrido. Foi uma sensação esquisita, pois estava dentro de um lugar muito esquisito. Fiquei muito mal...

Montagens do filme Meu Amigo Claudia

- Além da realização de contar uma história, qual fruto esse documentário trouxe para você?

Foi legal para as pessoas conhecerem o meu trabalho e pela questão da pesquisa. Descobri o prazer de fazer pesquisa, vasculhar coisas... E também novas oportunidades de fazer outros filmes, trabalhos, tais como o clipe do Stop Play Moon. Hoje, estou com um novo projeto, que não posso dizer muito agora. É uma série de horror, bem brasileira, mas ainda estamos no roteiro...

- A última aparição pública de Claudia foi no ENUDS 2010 [Encontro Nacional Universitário da Diversidade Sexual], em Campinas. Ela estava feliz porque a sala da exibição do filme foi preenchida por universitários da nova geração...

O filme é muito forte neste sentido. As novas gerações não têm ideia de como os gays e travestis de antes passaram. Se hoje está ruim, antes era muito pior. Hoje, as pessoas andam com maior coragem nas ruas, de uma maneira mais livre. Nos anos 80, era muito difícil. Esse filme tem um papel importante para esse público. Muitas vezes fico prestando atenção na reação dos jovens de 18, 19 anos... Muita gente comenta comigo a cena em que várias pessoas dos anos 80 dizem abertamente [para um canal de tevê] que queriam que gays fossem assassinados. A nova geração também comenta muito sobre a cena da banheira...

- O que Claudia deixa para todos nós?

A força que ela tem de ser o que se é, a força de vontade de fazer o que se quer e ao mesmo tempo fazer com que as pessoas entendam. Não importa se é homem, travesti, gay ou hétero.


Claudia aplaudindo Dácio durante Festival Mix Brasil

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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