Entrevista

Stripperella: “Presença trans em Salve Jorge representa era de menos preconceito e mais realidade para a dramaturgia”

"O número está bem ousado, tem bate-cabelo, pegada e muita sensualidade"

O talento, a beleza e o profissionalismo de Melisa Alonso, mais conhecida como Stripperella Uber, poderá ser visto na novela Salve Jorge nesta quarta-feira [8]. A artista, que é considerada uma das melhores das casas LGBT, gravou na última semana e comemorou o convite para o folhetim da TV Globo.

Dona de medidas generosas, definidas e de um bumbum que deixa qualquer homem [ou mulher] de queixo caído, a performer loiríssima vai levar para a TV Globo o conhecido show de bate-cabelo – uma de suas maiores especialidades - em um número sensual e surpreendente para o horário.

Em entrevista exclusiva ao NLucon, Melissa [ou Stripperella, como queiram] revela detalhes de sua participação, fala sobre a carreira, transformações, religião e da relação com a família. Será que Russo (Adriano Garib) ou Lohane (Thammy Miranda) vão resistir aos encantos da beldade no palco? 

- Como surgiu o convite para se apresentar em Salve Jorge?

A produção me telefonou, disse que viu o meu trabalho e que conseguiu o meu contato através da Mariana [Melina, que teve um número da Beyoncé]. No começo, achei que fosse um trote [risos]. Só comecei a ver que era fato depois que trocamos informações via e-mail e definimos tudo. Estou escalada para três cenas, mas quantas vão ao ar eu ainda não sei [risos]. O número está mega ousado e sensual, tem pegadas, bate-cabelo e muita sensualidade.

- O que rolou nos bastidores?

Foi maravilhoso! Fui muito bem recepcionada e todos do elenco foram atenciosos. Ao chegar no Projac, dei de cara com o José Loreto [no ar em Flor do Caribe], que foi simpático, fofo e sorridente. A Vera Fischer [que interpreta Irina] me deixou em choque pela humildade e simpatia. Foi a que mais conversei e tive mais afinidade. Ela fazia parte da cena em que eu estava e me elogiou muito. É uma atriz linda, comunicativa e simpática. Amei!

- Acha importante a visibilidade que a Gloria Perez está dando ao trabalho de artistas trans?

Com certeza. Estou extremamente feliz com mais essa porta que se abre para nós. Pode ser o começo da meada para uma nova era com menos preconceito e mais realidade para a dramaturgia. Afinal, existem todos os tipos de tribos, pessoas e opções e inserir trans na novela é um marco. Fato que se comprova com as duas artistas da trama, que são a Maria Clara [Spinelli, que interpreta a traficada Anita] e a Patricia Araújo [que vive a traficada Priscila], que já era minha amiga. São profissionalíssimas! 

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Stripperella com Patricia Araújo e Mariana Melina

- Seu trabalho nos palcos é impecável e tem grande dose de interpretação. Com essa sua participação especial na novela, chegou a cogitar estrelar a carreira de atriz?

A dança é uma atuação do corpo, portanto atuo constantemente desde quando me tornei a Stripperella. Se surgirem trabalho como atriz, amarei claro. Só vou precisar complementar a atuação.

- Você também participou do TV Xuxa e encarnou uma paquita. Ser assistente de palco era um sonho de infância?

Sim, realizei um sonho! Foi maravilhoso, Xuxa é uma luz na Terra, magia sem igual. Poderia tentar explicar o que senti, mas nada explicaria a minha emoção de ser paquita por um dia e estar ao lado da Xuxa.

- Você começou a carreira como drag em 2004, em um concurso da Tunnel. A partir de qual momento você assumiu 24h a identidade feminina?

Foi em 2008 e, cá entre nós, já estava passando da hora (risos). Sempre soube o que eu era, só não queria chocar o meu pai. Então, esperei o momento certo para falar com ele sobre as mudanças que queria fazer em mim. Me defino como transexual, pois em minha concepção a partir do momento em que você faz mudanças em seu corpo você é transexual. Travesti é quem se traveste de mulher. Infelizmente o termo generalizou para nós. 

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"A dança é uma atuação com o corpo. Se for chamada para um papel, vou amar"

- É verdade que o seu pai teve um papel muito importante na decisão de colocar as próteses de silicone nos seios?

Você sabe de tudo, hein? (risos). Meu pai é minha vida, minha paixão e, sim, ele foi o responsável por eu colocar as próteses. Afinal é o que tenho como exemplo de tudo. Foi um pai educador, mestre, homem da casa, administrador... Ele sempre soube que um dia isso iria chegar e simplesmente me fez amá-lo ainda mais. Ele disse: “Vai lá, faz o que tem que fazer e seja feliz. Minha felicidade é ver vocês felizes”, referindo-se a mim e ao meu irmão. É um amor sem igual.

- Neste domingo, teremos o Dia das Mães. Como é a sua relação com a sua mãe? E tem alguma história, conversa ou frase que tenha te marcado em um momento com ela?

Minha mãe é a irmã que não tive. Ela é linda, jovem, moderna, mais antenada em produtos para nos mantermos eternizadas que eu (risos). Quando coloquei prótese, ela mandou por correio um sutiã cirúrgico e estava escrito: “Até que enfim você vai ser feliz filha, parabéns”. Isso marcou muito também!


- Qual é a sua referência de feminilidade?

É minha mãe, ever [sempre].

- Por existir essa mudança de sua persona, existe algum plano de carreira de firmar o seu nome como Melissa Alonso para o grande público? Ou você acredita que a personagem Stripperella é muito forte?

Stripperella é única e sempre serei ela, pois este é o meu personagem dos palcos. Mas ninguém vive só em cima do palco e eu tive que colocar meu próprio nome em algumas redes sociais. Não adiciono mais nomes fantasias.

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"Minha mãe enviou um sutiã cirúrgico com a mensagem: 'Até que enfim você será feliz'"

- Converso com muitas drags e elas dizem que a vida amorosa é um tanto complicada, pois geralmente os homens se apaixonam pela figura feminina, rejeitam a masculina ou vice e versa. Sentia essa “dificuldade” anteriormente?

Quando era drag, tinha um namorado e, quando terminamos, eu já era trans. Depois namorei novamente e sinceramente não vejo dificuldade. Acho que depende mais de nós mesmas para fazer uma relação ser gostosa que dos homens.

- Aliás, você tem um corpo que deixa héteros, gays e lésbicas de boca aberta. Qual é o segredo?

(risos) Muito obrigada! O segredo é a alimentação e a dedicação do treino. Inclusive, as pessoas ficam felizes em me ver mais seca que marombada. Estou bem feliz com my body [meu corpo, em inglês].


- Você é considerada uma das melhores artistas a bater-cabelo, mas também desenvolve números que vão além deste atributo. Você acredita que a febre do bate-cabelo está passando?

Acho que não. O bate-cabelo é uma arte e, em minha opinião, assim como o samba representa o Brasil o bate-cabelo representa as drag queens brasileiras. É um ícone único criado por nós. Acho que hoje em dia existem muitos estilos desenvolvidos no palco, mas existem artistas que arrasam e levam pessoas a loucura com o bate-cabelo. É uma arte que precisa de muita força e equilíbrio. 

- Me contaram que você é evangélica praticante, o que acaba causando espanto em muita gente. Como é a sua relação com os outros fieis?


Sempre acredito muito em um Deus vivo que fez muito por nós. Hoje, pouco fazemos pelo o que ele nos ensinou, mas minha relação com os demais fiéis é muito positiva. Quando não vou à consagração, sentem a minha falta. Acho isso lindo demais e aí não tem como não querer ir. Sobre os líderes religiosos, tais como o Marco Feliciano e Silas Malafaia, dispenso dar minha opinião. Só entendo que eles não me representam em nada. Existem seres humanos que vivem muito da casca e esquecem o espírito.

- O que você costuma fazer em seus momentos de lazer?

Vou muito ao parque com minha cachorra, visito o meu pai e meus sobrinhos diariamente. Trabalho muito em pesquisar novas ideias de show. E, claro, sempre gosto de ver e me informar sobre o que está acontecendo no mundo para não ficar de mente vazia.
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"Meu sonho é ver sorriso nas pessoas por onde eu passo"

- Qual é o seu maior sonho?

Já vivo  um pouco o meu sonho. É ver sorriso nas pessoas por onde passo, deixar um pedacinho de mim em cada lugar que vou. É isso que me faz muito feliz.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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