Trans em Debate

Trans em Debate: Como foi a sua primeira vez?

Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Mas será? O Trans em Debate desta semana perguntou - por meio de um e-mail de leitor - quando e como foram as primeiras relações sexuais das nossas meninas.

A virgindade no mundo trans é valorizada? Como é se entregar para alguém com um corpo que não condiz com a sua essência? O sexo mudou com o passar dos anos? 

O resultado da enquete é surpreendente e evidencia a variedade de experiências dentro do universo trans. Para quem pensa que a maioria das relações foram com homens, por exemplo, engana-se.  Abaixo, os depoimentos: 


Kimberly Luciana Dias

“Que chato ter que entregar parente (risos). Como não é nada inédito no nosso mundo TT, minha primeira vez foi no início da minha puberdade, com meu primo, na flor dos hormônios para ambos. Fiquei falando a ele que duvidava que realmente era um homem com H, aí ele me pegou (risos), mas o ato não aconteceu 100%.

Foi uma situação que ambos não estavam preparados, não conhecia meu corpo, foi dolorido e nada agradável. Detalhe que me fez ficar presa no armário por mais tempo, deixando de assumir a minha travestilidade por medo de relações sexuais futuras, já que a minha primeira vez não foi uma experiência muito agradável.

Passaram-se alguns anos e não tive como ficar presa no armário, assumi a minha condição de travesti, porém com medo de relação sexual. Ficava apenas nos beijinhos com garotos na minha cidade, no interior de SP, mais sempre fugia de ter algo mais intimo. Foi assim por dois anos!

Até que conheci um policial, 30 anos mais velho que eu naquela época. Foi quando, pela primeira vez, amei um homem de verdade. Ele gostava apenas de relacionar com trans teen [adolescentes], e com ele aprendi a conhecer o meu corpo, e tive a minha primeira vez realizada por completo sem traumas e principalmente com amor!





“Durante a minha juventude, sempre tive a curiosidade sobre o sexo masculino. A minha primeira vez foi com colegas que tinham essa mesma curiosidade e eu, na ocasião, ainda era vista com uma figura masculina. Foi muito bom, mas com o tempo fui percebendo que as relações eram diferentes e as minhas vontades também.

Notei que, quando era vista apenas como um gay, as relações eram mais diretas, o que falava alto era o tesão, a excitação e que não havia muito contato afetivo. Quando me tornei uma transformista, ainda na juventude, senti logo na primeira vez que os rapazes que se envolviam comigo tinham mais sentimento e a troca de carinho era mais presente.

Esse foi um dos motivos que me ajudou a fazer a decisão de me assumir transexual. Senti que, nessas “primeiras vezes”, o carinho, a atenção e o amor foram afetivamente diferentes. Minha vida sexual e afetiva tornou-se muito melhor com o tempo, pois fui descobrindo do que gosto e como gosto de ser tratada. É isso... Beijinhos!”



Alessandra Oliveira: 

“Sexo para mim sempre foi um assunto delicado, pois nunca fui muito ligada nele. Gosto, mas não é a base da minha vida ou de um relacionamento. Tive algumas primeiras vezes e algumas me marcaram profundamente e outras me ajudaram a definir minhas vontades.

A minha primeira vez foi com uma mulher e me marcou muito. Na época, eu ainda era um menino, evangélico, respeitava os costumes e desejava fazer sexo somente depois do casamento. Não foi bem isso o que aconteceu. Apesar de eu presar e preservar muito a virgindade, a entreguei para uma mulher que só quis me usar para o seu prazer.

Fiquei um ano e oito meses com ela nessa vida, cheguei a noivar, mas quando disse meu primeiro “não” as coisas começaram a desandar até culminar no fim. Não queria ser o brinquedo sexual dela.  A vida de um casal é muito mais que sexo, pois o que adianta se entender na cama e fora dela viver em um inferno. Com ela, aprendi a dar mais valor em mim e nas minhas vontades.

Também tive uma primeira vez com uma travesti, que eu namorei. E foi quando eu descobri o que é ser desejada [desejado, na ocasião] sem ser abusado, respeitando todos os limites. Era um momento gostoso, que sempre me deixava com um gostinho de quero mais.

Depois, tive a minha primeira vez com um homem. E descobri que homem não é mesmo a minha praia (risos). Desde que tive, não curti, não quis mais, embora digam que não gosto porque não peguei um que saiba proporcionar prazer. Porém, para mim, algumas coisass só preciso provar uma vez.

De todas as experiências, aprendi uma coisa interessante: a diferença de fazer sexo e fazer amor. Sexo é só uma coisa de atração da carne, é tesão do momento. Já o amor... É diferente e isso eu aprendi com a minha esposa; é você se entregar a uma pessoa num momento de prazer com algo a mais no toque, no olhar, no próprio tesão. Cada momento com minha esposa é único.


Patricia Araújo:

“Era muito assediada na escola, mas estava decidida a ter a minha primeira vez com um garotinho por quem eu realmente fosse apaixonada. Antes, eu até tentei ter uma primeira vez com alguns coleguinhas, mas nunca conseguia ir até o fim. Conheci um colega de escola, conversamos, nos encontrávamos, senti o coração bater forte e não tive dúvidas: era com ele iria até o fim.

Como éramos menores de idade, não existia lugar fechado, apropriado... Então, foi ao ar livre, em um quiosque afastado da escola, à noite. Lembro até hoje da lua maravilhosa e da ansiedade que estava sentindo.

É claro que era inexperiente, que não foi a melhor relação sexual da minha vida, mas foi importante porque houve sentimento. Não foi um momento descartável, afinal nós dois realmente nos gostávamos. Acho que foi o sentimento da primeira vez que ficou e provou que sexo é ótimo, mas quando há um carinho a mais é melhor ainda”.

.
Lirous K’yo Fonseca

“Minha primeira vez foi um tanto quanto interessante, pois o meu tesão era por uma menina, uma vizinha de baixo do apartamento que eu morava. Tinha um amor platônico por ela, até o dia que ela me pediu isso abertamente. Fiquei pasma e, ao mesmo tempo, decepcionada, pois trazia uma série de preconceitos a respeito desse tipo de situação, o que acabou matando o que eu sentia por ela.

Depois da primeira, tive outras vezes com ela mesma, mas era apenas por fazer, o desejo pelo proibido. A paixonite acabou.

Passei por um momento triste ao acreditar que existia um padrão de beleza, de corpo, de físico para ser mais ou menos desejada. No meu caso, sentia que não estava neste padrão, mas consegui superar com o tempo. Triste vive quem ainda pensa dessa forma, quem anda por aí ocupada preenchendo o corpo e esquecendo de pegar um livro para preencher a cabeça.

Sempre tive uma vida sexual muito ativa, tanto com homens quanto com mulheres. Sempre tive namoradinhos e namoradinhas exclusivas para sexo, mas nada sério. Somente hoje, depois de casada, que tenho uma relação monogâmica e nem sinto falta de ter outros relacionamentos. Sexo com quem se ama de verdade supre qualquer desejo físico, parece que amortece. Acabo não reparando mais em ninguém, no máximo admiro a beleza de amigos e passantes

Sexo é um debate tão simples e ao mesmo tempo polêmico graças à religião. Aprendi que amor e sexo nem sempre vem acompanhadas da mesma paixão. Existem pessoas com quem fui para cama e que, para mim, só para isso me interessavam, outros em que o sexo não era interessante, mas que namorei por anos. Existe uma confusão enorme a respeito de sentimentos que envolvem o sexo, e com isso o significado fazer amor, ganhou um conceito muito maior do que apenas ir para a cama com alguém. 
.

Fernanda Vermant: 

“Minha primeira vez foi incrível. Foi com 15 anos e com um menino que eu gostava muito – embora não tenha dado em nada (risos). Eu e minha melhor amiga [mulher biológica] nos encontramos com meninos que a gente sempre saía. Bebemos muita vodka, puríssima e fomos para a casa de um amigo.

Nosso amigo, que era gay, queria porque queria fazer um sexo grupal, mas a gente não cogitou a ideia, já que não queríamos que os nossos boys ficassem com homens, né? (risos). Resumindo, transei com o menino que eu gostava e minha amiga transou com o amigo dele, que ela também gostava.

Bêbadas, tentamos trocar de parceiro no meio da relação, mas rolou muito ciúmes, não deu certo e ficamos do jeito que estava (risos). Dormimos agarradinhas, cada uma com o seu boy. Não foi tão perfeito assim, mas não me arrependo. Afinal, o que é perfeito?”

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Pakito Silva disse...

Quero ser o primo da Kimberly!

Tecnologia do Blogger.