Trans em Debate

Trans em debate: A Parada do Orgulho Gay ajuda a combater o preconceito?


Considerada o maior evento LGBT do mundo, a 17ª edição da Parada do Orgulho Gay ocorre neste domingo [2] em São Paulo. O evento, que será realizado pela Avenida Paulista, espera reunir três milhões de pessoas, que vão [pelo menos deveriam] gritar o tema de 2013: “Para o armário, nunca mais! União e conscientização na luta contra a homofobia”.

Todos os anos, o evento gera debate e diversos comentários. Será que a Parada não é nada mais que um carnaval fora de época? Será que esta mobilização é o mais importante evento do grupo LGBT, haja vista as manifestações? Será que tudo não pasta de um interesse econômico da prefeitura, que vê R$400 milhões serem movimentados e 20% a mais de turismo?

Abaixo, as ativistas Kimberly Luciana Dias [que tem destaque da Parada Gay de São Paulo no carro de travestis e transexuais] e Lirous K’yo Fonseca [que participou das manifestações da Parada de Florianópolis] dão inteligentes argumentos e respondem: “A Parada do Orgulho Gay ajuda a combater o preconceito?”. Leia até o fim e ajude na reflexão sobre o tema. 


Lirous K’yo Fonseca: “Após a Parada, todo o enfrentamento é guardado para o ano seguinte”

“Quando resolvemos reviver a Parada em Florianópolis - chamada Parada da Diversidade - marchávamos com a esperança de um mundo melhor, ouvíamos discursos, palavras de ordem, comprometimento, palavras de amor, víamos gays e lésbicas se beijando livremente na esperança de uma cidade mais justa. Porém, nos dias seguintes, as promessas tornaram-se lembranças, o discurso foi esquecido e o enfrentamento guardado só para o ano seguinte.

Pela minha observação e vivência, a Parada da Diversidade perdeu o seu caráter e o seu sentido Não somente pela postura dos envolvidos, mas por ser um evento que esqueceu a essência e que atualmente visa o lucro. O cenário está na presença de personalidades locais que almejam a promoção política partidária, promoção individual e a promoção de alguns estabelecimentos LGBT da cidade. 

Infelizmente, formou-se uma panela com interesses individuais e focados em quanto os gays trazem de giro: a renda per capita, gastos em hotéis, com o turismo, em saunas e em casas noturnas e no comércio. É só ver os carros/trios que, ao contrário da intenção inicial, se enchem de promoções de festas. E estar em um deles é muito caro e trás um status para aqueles que querem "estar em cima" - o que nada tem a ver com igualdade.

Isso sem falar da presença de artistas de fora da cidade ou de fora da comunidade, que cobram cachês para estarem presentes na parada e ainda levam o título de militantes. Já os artistas locais, acabam sendo desvalorizados e não recebem nem a ajuda de custo, com a justificativa de terem que fazer por amor a camiseta. E ainda assim são questionados quando levam shows pobres ao público. 

Durante e fora do evento, muitos gays sofrem preconceito de outros gays por serem militantes e quererem um debate mais sério, como se isso fosse demérito para alguém, como se fosse "coisa de pobre", como já ouvi da boca de um. Querem que o coletivo o sirva sem ele nunca ter servido o coletivo, enche a boca para dizer que é um direito seu, sem nunca ter lutado pelo o que foi conquistado. E isso, em minha visão, não o dá direito de exigir.

Definitivamente, não acredito que a parada nesses moldes possa trazer alguma visibilidade positiva, não acredito em uma parada encabeçada por pessoas que se alimentam da homofobia em promoção própria. Lembrando que a intenção inicial é de combater a violência e o preconceito. E que, se a Parada existe, é porque muitas pessoas estão sofrendo, não para as pessoas extravasarem os seus desejos sexuais reprimidos. 

Hoje, só frequento esses eventos quando é para interferir de alguma maneira direta nas ações da parada, trazendo a tona assuntos que não são mais pertinentes para os "donos" da parada e os demais organizadores da comissão. Posso voltar a fazer parte posteriormente, mas só quando esse caráter de hoje acabar, dando lugar a uma marcha de luta novamente. Ela, infelizmente, se perdeu”.


Kimberly Luciana Dias: “Foi através da visibilidade da Parada que passamos a ser escutados”

“Tenho absoluta certeza que esta edição da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, que leva o tema Para o armário, nunca mais!, vai dar o seu recado político mais uma vez. Em minha opinião, todos os anos a Parada ajuda no combate ao preconceito e a homofobia , pois mostra nossa visibilidade e diversidade à sociedade preconceituosa.

Não é por acaso que ocupamos as ruas, mostramos a nossa cara e, a cada ano que passa, temos recordes de pessoas engajadas e querendo participar. Foi por meio dessas manifestações de visibilidade que passamos a ser escutados, que a sociedade parou, viu que existimos e que queremos os mesmos direitos. A cada ano, um tema é divulgado e a mensagem é dada em meio à festa.

Já participei de cinco edições desse evento e, como prova de que levamos informação, em 2012 todas as meninas trans do trio combinaram de irem vestidas com uma profissão, para falar sobre nossa inserção no mercado de trabalho. Eu fui de bailarina [do Cisne Negro], a Bianca Mahafe foi de presidenta Dilma e todas cumpriram o combinado. Nunca precisei ficar nua no manifesto, pois sempre tive a minha visibilidade – em jornais e portais de todo o país - com criatividade.

Além disso, desde 2003, a Parada se tornou mais que um dia no ano para mim, pois durante todos os meses travestis e transexuais voluntárias, assim como eu, têm um importante papel na APOGLBT. Se hoje, por exemplo, as casas noturnas gays de São Paulo não aumentam o valor do ingresso ou proíbe as entradas de travestis no ambiente foi por uma luta que tivemos ali dentro. Tenho orgulho de dividir com mais três companheiras a Coordenadoria das TTs.

Neste ano, assim como os outros, estarei no Trio das TTs. Estou honrada por ser a autora de duas frases que sairão estampadas no trio. Sobre a minha fantasia, ainda é segredo... Adianto apenas que o nome é Esplendor da Diversidade e que voltarei a surpreender. Aguardo todas e todos nesse domingo, lembrando que sempre estarei ali por uma causa. Beijos!

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Murilo Farias disse...

foi-se o tempo em que a parada gay tinha o propósito de revindicação de nossos diretos,nos dias atuais a parada gay nada mais é que um "carnagay" quem há frequentou no inicio logo quando surgiu o evento entende bem o que estou expondo, é logico que a parada gay mostra que estamos aqui e que fazemos a nossa opinião diferença mas mostra também a quantidade de promiscuidade e vulgaridade que tem ,normal no mundo hétero isso existe é obvio, mas a corda arrebenta para o lado do mais fraco, enfim acredito que a parada gay se tornou algo importante sim , mas já não tem a mesma causa que tinha no inicio , é perceptível, basta fazer uma pesquisa de quantos homossexuais deixaram de ir esse ano devido a essa opinião ,bom agora é torcer para que a parada volte a ser o que era no inicio , uma manifestação por direitos iguais.

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