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Trans em debate: Travestis e transexuais falam sobre suas mães

Carla Potyra e Suellen comemora Dia da Mãe com Eliane Miranda

Mãe é aquela que cuida, que educa, que dá a luz e puxões de orelha e que ama o seu filho incondicionalmente. Como já escreveu Mario Quintana, mãe tem apenas três letrinhas que, assim como a palavra céu, cabem todo o universo. 

No mundo, existem todos os tipos de mães, inclusive aquelas que são escolhidas pelo filho no decorrer da vida. Há também pais que exercem a função de pai e mãe. E amigos, que acabam sendo o único ombro nos momentos de aflição.

A Record de BH produziu a reportagem "Mãe é exemplo de amor", sobre Eliane Miranda, uma despachante previdenciária e mãe de duas filhas transexuais: Carla Potyra e Suellen. Consciente do seu papel, ela aceitou as filhas, aconselhou e apoiou as suas escolhas [assista o vídeo no fim do post]. 

Neste domingo (12) comemora-se o Dia da Mãe, uma data significativa para todas as pessoas que tiveram a felicidade de ser contemplados por uma mãe.
Abaixo, o depoimento emocionado de travestis e transexuais sobre suas matriarcas. 
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Fernanda Vermant: “Minha mãe me aceitou bem, dava até as roupas dela para eu vestir”

“Minha mãe sempre foi muito importante para mim. Só tenho lembranças carinhosas dela na infância: muito carinho, muito abraço, muitos cuidados, me levando ao médico, me entupindo de remédios para eu engordar (risos). Porém, minha mãe é evangélica e isso prejudicou muito no meu desenvolvimento como menina. 

Sempre tive medo que ela descobrisse que eu não era um menino como os demais. Que eu era na realidade uma menina que gostava de meninos.

Na escola, minha mãe sofreu muito por eu não querer ir, brigando com professores e diretores. Ela pensava que era porque eu era magra. Mas, na verdade, havia professora que tinha preconceito. E eu ficava triste por não ir à fila das meninas, não entrar no banheiro das meninas, não ter o cabelo grande, todas essas questões.

No período escolar, mesmo sem eu falar nada, minha mãe dava todo carinho que eu precisava, após sofrer tanto. No pré, eu chorava para não ir à aula e ela ficava louca. Na primeira série, morria de vergonha dos meninos e os mais velhos faziam brincadeiras comigo. Somente na educação física, uma professora deixou eu brincar com as meninas, enquanto os meninos jogavam bola.

Cresci, contei para minha mãe que eu achava que era gay, mas conforme fui desenvolvendo consegui entrar na minha transição. E ela aceitou super bem, me dando até as suas roupas para eu usar quando não queria mais as minhas.

Amo muito minha  mãe, demais! Ela não soube lidar com uma criança transexual, porém ela me deu todo carinho desse mundo na minha infância. Fica aqui o meu eterno agradecimento”. 
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Luiza Gaúcha: “Minha mãe foi a única pessoa que me acompanhou durante o processo de transformação”

“A relação com minha mãe sempre foi muito positiva. Durante a minha juventude, ela era a única pessoa que me acompanhava em casa durante o meu processo de transformação. Ela sempre apoiou minhas decisões, além de dar vários puxões de orelha (risos).

Meus irmãos também tiveram um papel importante na minha felicidade, mas eles sempre tiveram a insegurança do sofrimento que eu poderia passar durante a minha vida por conta do preconceito. Mas a preocupação de todos eles me ajudou a me preparar melhor para o mundo.

Se eu sou uma pessoa bem resolvida com a vida, por trás disso está a minha mãe e toda a minha família, que sempre me apoiou e me ajudou a ser uma pessoa melhor. A família é a base de tudo, sem o apoio deles a caminhada seria muito mais difícil. Eu posso dizer hoje: Tenho a melhor mãe do mundo. Obrigada mamãe por tudo”.

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Kimberly Luciana Dias: “Conto com ela para tudo. Quando acordo de uma cirurgia estética, ela está sempre ao meu lado"

Minha mãe só veio aceitar a minha sexualidade e identidade de gênero no dia que fui independente. E acho que até hoje existe dentro dela a esperança de que um dia eu volte para o armário (risos). 

Quando era criança e morava no interior de São Paulo, eu achava bonecas – aquelas sem alguma parte do corpo – nos lixos e brincava com elas. Mas minha mãe nunca aprovava, sempre dando o fim nas mesmas. Quem me deixava brincar era o meu pai. 

É importante dizer que, independente da incompreensão na infância, o amor de mãe para o filha [ou filha], isso nunca mudou. Minha mãe nunca deixou de me amar por esse caminho que tenho ou por qualquer outra razão. 

Posso contar com ela para tudo, desde um momento de ajuda financeira, doença, uma cirurgia para ficar mais próxima da beleza feminina... Quando acordo no hospital, ela está ao meu lado para cuidar de mim.

Não posso culpá-la de nada que passei lá no passado, já que ela foi educada para não aceitar isso – acredito que eu seja a única LGBT da família - mas ela dá uma lição de vida ao se reeducar. 

É curioso porque, toda vez que minha mãe escuta a música “No Dia Em Que Eu Saí de Casa”, do Zezé Di Camargo e Luciano, ela chora. Então, é muito amor de mãe mesmo!”.
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Alessandra Oliveira: “Minha esposa é o meu maior exemplo de mãe”

“Quando se fala de mãe, lembro de duas pessoas: primeiro a minha avó, que me criou com muito carinho em meio às dificuldades e, em segundo, a minha esposa, que é uma mãe muito boa e uma mulher dedicada aos nossos três filhos. Minha esposa está sempre preocupada com o bem-estar deles e eu a admiro muito.

Um fato que me marcou foi quando nossa filha mais velha estava doente e com muita febre. Morávamos muito longe do hospital, não havia mais ônibus e fomos a pé até lá. Foram duas horas de caminhada, eu empurrando o carrinho e ela tentando controlar a temperatura. Graças a Deus, tudo terminou bem, mas pude ver o amor de uma mãe por seu filho.

Ela sempre foi uma mulher que trabalhava, mas quando tivemos nossos filhos [são três] ela teve que ficar em casa para cuidar deles. Ela tentou voltar a trabalhar várias vezes, mas sempre algo acontecia com um dos nossos filhos e ela tinha que voltar correndo para cuidar deles. Hoje, chegamos a conclusão que é melhor ela ficar em casa, pelo menos até eles crescerem.

Tenho certeza que ela faria qualquer coisa por nossos filhos, pois com ela diz: ‘Nossos filhos são a vida dela e ela é a minha. Então, para mim, minha esposa é um grande modelo de mãe”. 

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Lirous K'yo Fonseca: "Não sei o que seria de mim se minha mãe não fosse a guerreira que é"

Ao invés de falar o quão minha mãe é isso, ou aquilo, resolvi trazer um relato de uma situação complicada que passei, e que até hoje não sei o que seria de mim se a minha mãe não fosse a guerreira que ela é. Sempre preocupada com a minha saúde e educação, vive a minha volta. Aliás, quem trouxe o videogame para a minha vida foi ela, dessa forma passaria segura dentro de casa ao invés de estar correndo riscos pela rua.

No meu primeiro casamento, tive problemas. Meu marido na época, isso aos 18 anos, era extremamente ciumento e a nossa relação começou a ficar tensa. Com a diferença de idade muito grande – ele tinha 45 – isso pesou. Eu estava num período de descobrimento, querendo ver o mundo, e ele em fase de querer ver o mundo sentado em frente a TV. Começamos a brigar e aos poucos a violência começou a habitar o nosso lar.

Com medo, acabei fugindo para os braços da minha mãe, que me acolheu em uma época tão delicada de sua vida. Havíamos perdido uma pessoa muito especial, minha tia, irmã da minha mãe, que faleceu de enfisema pulmonar. Logo depois apareceu a chance de sair da cidade. A minha vida e a vida dos demais estavam um caos – ele chegou a ameaçar botar fogo na casa de um amigo, se ele me acolhesse.

Quando me preparava para sair da cidade, descubro que minha mãe também está com enfisema pulmonar. Decido ficar. Porém, três dias antes da minha viagem, minha mãe vai escondida ao centro, compra uma mala, guarda minhas coisas e diz: “Você tem que ir, não pode ficar. A mamãe vai ficar bem indiferente do que aconteça, não vou ficar se se acontecer alguma coisa com você”. E eu fui e me abriguei na casa de religiosos

Por este episódio, é possível notar que a relação que tenho com minha mãe é de uma extrema cumplicidade, estamos sempre muito agarradas. Desde pequena, minha mãe foi super protetora, nunca gostou que eu me afastasse de perto dela, nem mesmo depois de casada. Hoje, somos eu, meu marido, meu pai e minha mãe. Minha mãe é de extrema importância na minha criação como pessoa, sempre me apoiou e sempre esteve ao meu lado, aliás os meus pais sempre estiveram. Para mim, não há dia depois de amanhã sem estar com a minha mãe.

Para os meus pais, ainda não cresci e acho que nunca vou crescer (risos). Os cuidados são os mesmos, minha mãe não dorme enquanto eu não chego em casa, seja a hora que for, e passa o tempo inteiro me oferecendo comida, vendo se estou com os pés descalços no frio ou se eu estou "apta" a sair na rua, pois ela verifica desde a roupa que eu estou vestindo até mesmo a minha maquiagem. Aprendi muito do que sei com ela e, hoje, é ela que está aprendendo comigo.

Meus pais largaram a vida que tinham no RS para ficar ao meu lado e nunca mais ficarmos separados. Não tenho como fazer uma homenagem a minha mãe sem falar no meu pai e vice-versa. Ambos são como se fossem um só e vivem dessa forma e me inspiraram para que o meu casamento siga nesses moldes”. 
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

FELIZ DIAS DA MÃES ♥ ♥ ♥ ♥

Travestis & Transexuais, tb tem MÃES !!!

Anônimo disse...

faltou abordar a realidade das que não são aceitas pelas mães

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