Pop & Art

Ator transexual, Leo Moreira Sá toca em feridas e conta a própria história no teatro


É de maneira lúdica, sensível e musical que o ator e ativista Leo Moreira Sá revira o passado, toca em cicatrizes e conduz o documentário cênico Lou & Leo, dirigido por Nelson Baskerville, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. A peça teatral é surpreendentemente escrita e encenada pelo protagonista da vida real e fala sobre o ser humano, a construção das identidades, os amores impossíveis, as escolhas e as consequências.

Leo nasceu Lourdes Helena e logo nos primeiros estalos de consciência viu que seu corpo e guarda-roupa estavam avessos. Para chegar ao homem pós-gênero que é, passou pela 1ª banda punk rock feminista do Brasil, se afundou e emergiu na dependência das drogas, na difícil vida na penitenciária, na incompreendida relação familiar e no inusitado romance com uma travesti, Gabriella Bionda.

Com jogo de luzes, brancas, rosas e azuis, que mesclam as tonalidades arcaicas do sexo, a obra aborda todas as alegrias e feridas, sem deixar que a poética fique carregada ou constrangedora. A trilha sonora, os efeitos visuais, figurinos e a leveza da expressão corporal da atriz Beatriz Aquino transformam a trajetória dramática, cheia de sangue e pó em poesia, com pincéis líricos, lúdicos e até infantis.

A sensibilidade e o faro do premiado Nelson Baskerville também estão presentes. O diretor, que já trabalhou com o tema trans na peça “Luís Antonio – Gabriela”, uma delicada obra que aborda a vida de sua irmã travesti, conseguiu se desvencilhar do óbvio e dar um passo além. Esclareceu a vida de um homem transexual, com todas as suas ramificações, problemáticas, sem ao menos tocar na palavra.

“A discriminação é um erro que nós cometemos como humanidade. Faço Lou & Leo para entender melhor o que é gênero [descobri que são muitos e que não precisam de rótulos]. Para entender melhor o humano e as mentiras que nós nos contamos como humanos”, defende Nelson, traduzindo o teor do trabalho.
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CORPO E ALMA

Em cena, Leo surge sem camisa. O corpo masculino antecipa o fim vitorioso e mostra as cicatrizes que ainda estão por vir. A assincronia do corpo e mente está nos momentos densos e marcantes, tais como a rejeição ao uniforme feminino, o desejo por uma calça masculina e a dificuldade e encontrar um banheiro em que pudesse frequentar com tranquilidade.

Em uma conversa com o cunhado em alto mar, Lou diz querer ter um pênis. O cunhado – que até então era considerado o grande herói de sua infância - o estupra e, acreditem, esta é a cena mais tocante e lúdica da peça. O momento desencadeia inúmeros conflitos e, no decorrer de sua história, Leo se envolve com drogas, é preso e perde durante bons anos o controle de sua vida.

Com um repolho em mãos e saco de boxe ao alto, o ator narra o difícil jogo de sobrevivência e revela o duelo que teve com Tia Carioca [interpretada por Lucas Impallatory], uma mandante típica. Em meio aos socos, pontapés e música de as Mercenárias, a blusa rasga, os seios escapam e o mundo azul de Leo [na época, Loue] desaba sob os seus pés.

Leo tolera tudo, tudo – até morte - menos que parte tão femme fique exposta ao público. Que homme!
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 NOSSO LOUCO AMOR

Amor não se explica, só sente. A frase poderia ser aplicada ao relacionamento que Leo – um homem transexual – teve com Gabriella, uma travesti de filmes adultos. O envolvimento às avessas embaralhou as normas, chocou a sociedade heterosexista e o gueto gay. Até mesmo Leo pede um espaço para que se acostume com a ideia e, após o sumiço da musa, não para de pensar em Gaby.

A paixão, que se tornou sexo, amor e casamento [quase na igreja católica], foi marcada por muita transgressão, consumo e venda de drogas – principalmente após a abertura da boate Circus, em 1995. Em uma passagem, Leo revela a primeira noite de amor e o inusitado medo do pênis avantajado de sua porn star. “Tive medo, mas ela falava com uma voz tão feminina...”, diz.   

Na cena, Beatriz [Gabriela] leva toda a sua presença de corpo e espírito, e é filmada por Léo [cujas imagens são exibidas na parede do teatro] com um aspirador de pó, simbolizando a dependência e as crises. A química em cena entre os dois transmite os meandros de um intenso relacionamento, que termina em uma despedida à flor da pele, fuga e prisão.

 Ainda hoje, Gabriella é o grande amor na vida de Leo.
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É PURO ROCK

Quem é fã de rock também é contemplado pela obra.  Afinal, a inserção de Leo como baterista no grupo As Mercenárias, a lendária banda de punk rock dos anos 80, marca o momento histórico e proporciona boa música ao público.  Para ele, que substituiu Edgar Scandurra, o guitarrista do Ira, a banda foi a fase como Lou em que mais teve sincronia com o seu gênero.

No palco, Leo não só volta a tocar bateria, como também canta e revive os maiores sucessos, como um garoto que acaba de formar a sua banda. É punk! É rock!
  
Outros momentos que ralam o coração e inquietam o espectador são quando deixa o presídio feminino sem ter para onde voltar. E quando reencontra o diretor Rodolfo García Vázquez, colega do curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP, em uma entrevista de emprego. Leo torna-se iluminador na Cia Satyros em 2009 e reconstrói a sua vida.

“Uma vida rica”, afirma o diretor, que iluminou o tema, o ator [sim, Leo também é um ator às avessas, que conta a própria história e segura as mais fortes emoções para emocionar o público]  e transformou cicatrizes em mensagem para a humanidade. Uma das melhores peças já encenadas em São Paulo.

LOU & LEO. De 18/6 a 11/7, ter. a qui. 21h. Gênero: performance dramática. Duração: 70 min. Classificação: 16 anos. Centro Cultural São Paulo – Espaço Cênico Ademar Guerra: R. Vergueiro, 1000, Metrô Vergueiro, tel. 3397-4002. Ingressos: R$ 20 (dia 2/7, R$ 3). Onde comprar: na bilheteria, que abre duas horas antes do início do espetáculo.
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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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