Realidade

Covardia e abuso de poder na guerra dos R$ 0,20, em SP


- Toma a minha blusa. Cobre o nariz com ela.
- O que foi? Não estou sentindo nada.
- Cobre.
- [Inspiro]. Não estou...

O gás lacrimogênio arde. É como areia jogada nos olhos, engolir vidro, ficar atordoado. Ele também revolta. Pela primeira vez, na noite de quinta-feira [13], senti a reação dessas substâncias químicas que irritam os olhos e as vias respiratórias. Ao lado de duas amigas, fizemos parte das várias vítimas que foram agredidas pela polícia na quarta manifestação contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo.

Curiosamente, na noite anterior, estava em um discurso de que a polícia ajudava a conter os excessos e que os manifestantes das passeatas anteriores pecavam ao conciliar o discurso com a depredação de ônibus, agências bancárias e outros locais. Eram “vândalos”, pensei, baseado nos jornais da Globo, Record e SBT. Ao conferir beeem de perto, justamente para tirar as minhas próprias conclusões, pude perceber que a história não é bem essa..

Às 19h, eu, a jornalista Melissa de Miranda e Giovanna Maset caminhávamos pela Rua Consolação em direção às pessoas que saíram da Praça Ramos de Azevedo, no centro. Levávamos cartazes, espírito transformador e a ideia de conferir de perto o protesto contra o aumento de 0,20 centavos na passagem do transporte público, que não apresenta melhorias há anos e que transforma pessoas em sardinhas enlatadas. Uma ação válida, importante e que marca a mobilização de uma sociedade apática.

Porém, antes mesmo de encontrarmos os manifestantes, recebemos via celular mensagens amedrontadoras de pessoas que estavam no local. “Não venham, eles estão atirando em todo mundo”. “Está tenso, fiquem onde estão”. Helicópteros, sirenes vermelhas, faróis de carros e incontáveis membros da polícia militar compunham o ambiente. Os PMs já haviam fechado a Rua Consolação e impediram a passagem do grupo, que seguiria para a Avenida Paulista. Uma nova mensagem: “NÃO VENHAM".

Com o clima de guerra instalado no país da democracia, resolvemos contornar a rua para nos encontrarmos com os manifestantes. Distanciávamos e nos juntávamos a eles, avaliando as possibilidades de embate e, até então, só víamos cartazes, faixas, cores e algumas pichações [essas, de apenas um grupo de pessoas]. O teor pacífico e com mensagem positiva dos gritos - "O povo unido jamais será vencido" e "Vem pra rua" - dava a entender que não haveria grandes problemas. Que bom... 


Foi aí que o pânico se instalou.

RUAS FECHADAS, VIOLÊNCIA GRATUITA

As agressões começaram quando a polícia, sem razão ou depredação, passou a jogar bomba de efeito moral, gás lacrimogênio, bater e disparar balas de borracha contra o público. Do nada, gratuitamente, com a mera intenção de proibir que a manifestação fosse para a Avenida Paulista ou se baseando nas manifestações anteriores. A correria foi geral e, enquanto muitos tentavam manter a caminhada, mesmo com a intimidação, outros se dispersavam, tentando se proteger dos ataques.

O problema é que, independente de quem estava querendo continuar ou ir embora, todos foram encurralados por 900 policiais, inclusive a Tropa de Choque e a Cavalaria. A cada rua, dezenas de policiais brotavam, covardemente com capacetes, escudos, cassetetes e carros, e utilizavam da violência na abordagem contra as pessoas. Elas suplicavam “Sem violência”, mas a resposta da PM era mais bombas, balas de borracha e gás lacrimogênio.

O caso mais chocante - e que chegou aos nossos ouvidos durante os embates - foi o da repórter da Folha, que recebeu gratuitamente um tiro no olho. Bastava você estar por lá que se tornava inimigo, suspeito, “formador de quadrilha”.

Diante do terror sem proteção, entramos na área externa de um estabelecimento comercial, na Bela Cintra. Vimos pessoas descendo e subindo as ruas, dizendo que não sabiam mais para onde ir. E até um senhor estranho – na verdade, um policial sem a farda - perguntou para nós o que achávamos dessa “baderna”. “Voltamos à ditadura”, exclamou uma garota no local, que estava machucada e que se perdeu do grupo de amigos.

O carro da Tropa de Choque passou por lá diversas vezes e, sem motivo, lançou gás lacrimogênio. Ele nos alcançou.

A DEPREDAÇÃO É UMA REAÇÃO

Não estava munido de lenços com vinagre e máscaras para me proteger do gás e logo senti os meus olhos e minha garganta arderem. Com o gás se espalhando pela rua, não há para onde ir ou que fazer. A cada respirar, a ardência piora. Chorava como criança, sentia areia entrar pelo nariz e garganta. Queria gritar, mas não era possível. Até que o efeito do gás e da pressão de se sentir encurralado começou a trazer a revoltante vontade de quebrar tudo, partir para cima, cuspir na cara.

- Por que estão fazendo isso? Que polícia é essa que, ao invés de proteger, agride covardemente?

Sim, eu, que na noite anterior condenava todas as pessoas que depredavam e estava do lado de a polícia conter os excessos, passei a entender a revolta de quem extravasou a raiva quebrando lixeiras, vidros de ônibus e afins. Não se tratava de baderneiros, desocupados, mas de vítimas de um sistema que quer as amordaçar. Pessoas com o corpo reagindo à irritação dos olhos, das balas estaladas na pele e das agressões. Com a cabeça sob os efeitos morais, físicos, psicológicos e de desrespeito.

Ora, se um policial atira uma bala de borracha e abre um rombo no rosto de um manifestante, como posso neste momento me surpreender com o rombo em um vidro, um lixo jogado na rua? É guerra, meus queridos espectadores, salve-se quem puder e quem conseguir atingir mais – e neste caso, a polícia vence. As pessoas reagem.  

NÃO BANDIDOS, SÃO MANIFESTANTES

Apesar de vários veículos de imprensa focarem na depredação, é importante ressaltar que tal “baderna” ocorreu depois da ação violenta da polícia. Foi depois de os policiais abrirem fogo que as pessoas reagiram, ateando nos lixos. Foi depois que a polícia bateu em várias pessoas que elas quebraram o vidro de um ônibus. Apesar de sempre existirem as maças podres, foi só DEPOIS, entende? Isso sem contar nos policiais que se auto machucaram ou depredaram gratuitamente os seus veículos para divulgar para a mídia.

Como tudo na vida, uma ação gera uma reação. Neste caso, a violenta, despreparada e inescrupulosa ação da polícia contra a população provocou a reação dos manifestantes.

Uma guerra desleal que, enquanto uns estavam com toda a estrutura de guerra – com carros, cavalaria, armas, escudos e gases - os outros carregavam apenas faixas, lenços com vinagre e o próprio corpo. Esqueceram: não eram bandidos, não eram traficantes, não eram malfeitores, não eram baderneiros.  Eram manifestantes, cidadãos conscientes que estavam sendo impedidos de andar tranquilamente pelas ruas.

Depois de horas de pânico, cerco fechado e metrô inacessível, entramos em um taxi. Nele, o motorista comentou sobre a manifestação e, baseado na rádio que escutava, chamou todos de desocupados. Já a âncora do jornalístico ainda insistia na pergunta: "Depredaram o patrimônio público? Depredaram?". 

Estava inconformado com tudo o que vi e estava ouvindo, mas ainda assim esperançoso por ver a população acordar. Em uma das pichações, dizia: "São milhares acordando. Milhões".



About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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