Realidade

Em 5º protesto, São Paulo se rende aos manifestantes


Foi uma explosão de democracia. Na noite de segunda-feira [17], as ruas São Paulo foram tomadas por cerca de 100 mil pessoas [de acordo com o Movimento Passe Livre, ou 65 mil, segundo a PM], que levaram cartazes, pintaram a cara e marcharam no protesto que, entre outras questões, tentava reduzir a tarifa de ônibus, que aumentou 0,20 centavos sem qualquer tipo de melhoria.

Diferente das últimas quatro manifestações, que mais pareciam guerras entre policiais e civis, o clima foi pacífico, cordial e de exercício da democracia. A concentração foi feita no Largo da Batata, às 17h, e como um imenso formigueiro passou pela Faria Lima, Avenida Juscelino Kubitschek, Rua Função, Avenida Engenheiro Luiz Carlos, Berrini e seguiu rumo a Ponte Estaiada.

A causa demonstrou muito mais que os míseros 0,20 centavos. Foram de Alckmin, Cabral, Feliciano, Sarney, caminharam pela educação, cotas, voltaram para Dilma, dispararam para a inflação, imprensa, Fifa, Copa do Mundo, corrupção, Haddad e, claro, terminaram no caótico transporte público.

Os gritos também convidavam os curiosos das janelas para ir para as ruas – “Veeem/ vem pra rua/ vem/ contra o aumento!” – reivindicavam direitos e melhorias – “Nãoo sãooo só 20 centavos” – e criticavam figuras como Geraldo Alckmin, Arnaldo Jabour, a revista Veja e a Rede Globo. Apesar de fervorosos, não houve quebra-quebra, vandalismo e os próprios manifestantes controlavam os excessos.
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Em dado momento, dois jovens mascarados começaram a pichar uma banca de jornal. Mas o grupo que assistia os vaiou e tentou tirá-los de lá. Eles saíam correndo e – certamente – envergonhados com a inesperada reação.

Outros tons que marcaram manifestação foi o apartidarismo. Os manifestantes hostilizaram, mas não proibiram [é claro], a presença de pessoas com faixas de partidos, como o PSTU. A participação de pessoas no conforto de seus apartamentos. Elas aplaudiam, pulavam e sacudiam suas toalhas e bandeiras brancas. E o sentimento coletivo de igualdade. Todos se ajudavam, gritavam juntos e faziam parte de uma mesma corrente ideológica. 

Um grupo de crianças, que acompanhava de seus prédios a manifestação da Ponte Estaiada, surpreendeu a todos ao carregar cartazes. Elas pulavam, gritavam e falavam sobre o aumento de 0,20.  “Elas nem devem saber o que estão gritando, mas já é válido que os pais incentivem o exercício da cidadania”, comentou uma manifestante.

DISPERSÃO

Houve inúmeras dispersões no decorrer de toda a passeata e a última caminhou rumo à sede do governo estadual, no Morumbi. Eles queriam invadir o local, mas dois pelotões da Força Tática e um da Tropa de Choque permaneceram em prontidão para impedi-los.

Enquanto muitas pessoas caminhavam rumo ao Morumbi, outras desistiram do longo caminho. Os motivos eram o cansaço e o trem que teriam que pegar – e no caso – pagar os R$3,20. Ao chegarmos ao local, o clima não era harmônico e a polícia já arremessava bomba de gás lacrimogênio.

A maioria caminhou de volta e, ao invés de invadir o espaço, preferiu comemorar o feito histórico.
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O QUE MUDOU EM SP?

Diante de uma passeata pacífica e positiva, as dúvidas ecoaram nas ruas da cidade na manhã de terça-feira [18]. Foi o povo de São Paulo que aprendeu a protestar? Que exercitou o direito às manifestações? Foi a polícia que, diante de tantos maus exemplos, foi melhor orientada?

O grito da noite anterior dava a entender uma resposta: “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”.

Mas é preciso ressaltar o relato de pessoas que estavam na Berrini às 20h: os manifestantes sentaram no chão da avenida e os seis policiais que acompanhavam - inclusive o major que comandava a operação - também sentaram. Todos os aplaudiram e, na noite em questão, São Paulo se rendeu ao protesto.

O fato é que desde 1992, quando o povo saiu às ruas pedindo o impeachment de Fernando Collor [que teve 70 mil pessoas em SP], não víamos uma manifestação tão grande. O histórico ato pegou muita gente de surpresa – políticos, tropas e cidadãos – e demonstrou principalmente falhas na segurança, bom censo e na própria educação. 

Problemas tão comuns e esquecidos do nosso Brasil...



ATUALIZAÇÃO: Ato ocorreu em 12 capitais e reuniu cerca de 215 mil pessoas.

Haddad vai propor nesta terça-feira [18] que o Movimento Passe Livre tenha acesso aos números sobre transporte público para tentar convencê-lo de que não é possível rebaixar a tarifa. 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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