Entrevista

'Pareço dona de mim, mas sinto falta de amor', revela furacão Renata Bastos


Que surjam neologismos, metáforas e novas expressões para anunciar a atriz, dançarina, hostess e performer Renata Bastos. Na versátil noite paulistana há 15 anos, seus carnudos e inconfundíveis lábios surgem em meio à loucura das luzes, fumaças e coloridos drinks. Dão vida a um corpo repleto de atitude, que mescla sensualidade, luxo e mistério. 

“Quem é essa mulher?”, perguntam os héteros, encantados com a sua vibrante beleza. “Que trava rica é essa?”, questionam-se alguns gays, admirados pela postura. Na verdade, Renata – além de seu próprio nome – é avessa às definições. Já circulou com cabelos curtos e com barba, usando roupas femininas. E já protagonizou um desfile do Morumbi Fashion, loiríssima e elegante.


Ela não quer ser alguém óbvio. Com o tempo, passou a ser mais uma pergunta filosófica, uma auxese editorial, que uma explicação científica. Há dois anos, contrariando as expectativas, a bela iniciou o tratamento hormonal e viu a categoria trans cair como uma placa em seu pescoço. Um problema? Não! Apenas mais um dos vários lugares que ocupa no mundo. Uma caixa aberta, longe da bolha. 

Entre os vários trabalhos, desfilou para o Fashion Rio, para a Casa dos Criadores e Morumbi Fashion, antes mesmo de Lea T ou Andrej Pejic surgirem. Atuou nos filmes Carandiru, O Cheiro do Ralo, Bruna Surfistinha. E faz história em baladas héteros e gays. Neste sábado [1º], ela remonta a performance mais conhecida do ícone Claudia Wonder [1955-2010] no coquetel de lançamento, no Club Yatch, em São Paulo, e promete mostrar o lado militante. 

Quem é a badalada Renata? Tentamos desvendar abaixo:  

"Pessoas ficavam chocadas com a minha androginia"

- Recompondo a icônica cena da banheira, você homenageará Claudia Wonder neste sábado [1º]. De qual maneira esta experiência mexe com você?

Sinto uma grande responsabilidade, afinal a Claudia é musa, uma grande referência e uma artista que me influência muito, principalmente por não conviver somente no gueto GLSBT e por ter feito uma história diferente. Nos anos 80, por exemplo, a travesti era conhecida pelas dublagens, daí chega a Claudia com um novo cenário: cantando com uma banda de rock, inserida no universo punk... Então, ela me coloca esse desafio de acordar, dar a cara a tapa e fazer o que tenho que fazer. É a mensagem de quebrar os estigmas, de estar inserida em um contexto diferente, em outros universos. Embora nunca tenha frequentado a casa dela, tinha um contato noturno, assisti ao show com o The LapTop Boys e a observava com muita admiração. Quanto à performance, as lágrimas chegam e ficam... É forte.

- Como é estar inserida também em um contexto hétero? Como te recebem?

Trabalho em festas gays e não gays. Às vezes estou como hostess em uma balada hétero e me perguntam se é uma balada gay só porque estão me vendo na porta. A minha programação acaba trazendo esta referência e às vezes a sociedade acaba mostrando-se preconceituosa. Apesar de ganharmos pontos nos últimos anos, há muita coisa a se fazer nos meios não gays. Tivemos a Patricia Araújo e a Maria Clara Spinelli em Salve Jorge, a Lea T na moda, mas ainda é muito pouco. Até porque, há dois anos, minha androginia era mais evidente e as pessoas ficavam chocadas.

- Chocavam-se com o que?
Não entendiam como eu poderia chamar Renata, sendo que, antes eu tinha cabelo longo e loiro, e depois o cabelo curto. As pessoas achavam um absurdo, falavam que eu não tinha peito, que tinha barba, e que não deveria ser tratada no feminino...

"Acho precário, pobre e bizarro ter que existir um termo para nos definirmos"

- Até pouco tempo você não gostava de se definir travesti, transexual... Houve alguma mudança na identificação com algum termo?

Há dois anos, passei a me hormonizar. Mas ainda acho precário, pobre e bizarro ter que existir um termo para definir quem sou. Uma vez, a Folha perguntou se sou travesti ou transexual para acrescentar em uma legenda de foto. E eu perguntei: “Quando vocês vão falaram da  Kate Moss, vocês a definem como mulher? Não? Então coloquem apenas a linda Renata Bastos [risos]”. Daí ficará por conta do leitor distinguir e decidir o que é. Penso que seja um aspecto artístico da persona, eu acho... Mas tudo bem, hoje em dia eu sei que sou trans... É um termo que eu gostei mais, já que existem muitos rótulos dentro da bolha.

- Desses últimos dois anos com hormônio, mudou a sua forma de observar o mundo?

Mudou muito mais de fora para dentro, de como as pessoas passaram a me ver... Antes, eu sentia um olhar muito mais preconceituoso nas ruas que hoje em dia. Não que eu pareça uma mulher, mas antes eu passava na rua e gritavam: “Chuta que é macumba, bicha”. Já, hoje em dia, trabalho no Itaim Bibi, que não é nada gay, e o homem me vê e me chama de linda, de gostosa. Ainda é chato lidar com essas palavras? É, mas consigo sentir que é diferente ser chamada de viado e ser chamada de gostosa. Para mim, soa até como um elogio, pois reforça a minha identidade feminina nesta sociedade machista. Isso mudou e me deixou um pouco mais segura.  

- É uma preocupação livrar-se dos estigmas de ser uma transgênero?  

Com sete anos eu sabia que era gay, mas logo fui descobrindo que me identificava com o feminino. Ao perceber, o medo da minha família era de que eu virasse prostituta ou que contraísse todas as doenças. Depois falaram: “Tá, você vai ser cabeleireira, maquiadora?”. Mas, não. Não quero ser a bichinha que todos estão acostumados. Vou ser o que eu quiser. Se eu quiser ser a travesti pedreira, é isso que vou ser. Tenho um romantismo muito grande comigo mesma. Por exemplo: adoro o underground, vou ao boteco, mas tem uma linha que eu não ultrapasso. Existem coisas que não me apetecem e que eu não vou me submeter por não querer passar por cima dos meus valores. Outro exemplo é que trabalho com varejo há mais de 10 anos, mas agora decidi fazer um hiato para ver as cartas da vida.  

"Primeiro desfile foi em 1997, no Morumbi Fashion"

- Você é ativista?

Eu gosto do lado ativista, adoraria a encontros e palestras, mas ainda não sou de brigar por uma bandeira ou não como as pessoas estão acostumadas. A minha vida é basicamente a minha militância, quero ser única no que eu faço e fazer bem feito. Recentemente, fui a um baile de rap, dos Racionais e fui respeitada. Os próprios policiais ficaram surpresos por ver uma trans indo para aquele local, que teoricamente nos eliminariam. Acho que o grande lance é não ter medo de se realizar e deixar claro que estamos inseridas em todos os lugares. Vou à Parada Gay quando sou convidada, mas, vamos ser claros, a Parada é quase um arrastão. Na última, fui desfilar em um carro e no caminho ate ele quase fui assaltada. E isso era quase 11h da manhã.

- Voltando a falar sobre a noite, ela continua sendo uma realização após 15 anos de estrada?

Claro, continua sendo uma realização. A primeira vez que fui a uma boate foi na Nostro Mundo, que estava tendo um show de boys, e pensei: “Nossa, existem mais pessoas diferentes como eu”. Então, continuo tendo essa sensação, além dos contatos e oportunidades que surgem. Comecei a trabalhar como divulgadora e dançarina da boate Bloom. Depois, fui chamada para divulgar a boate do [DJ] Mauro Borges. Nos anos 2000, fui para o club Xingu, dos sócios Vitor Corre e Zeca Gerace, e passei a fazer performances. No Vegas, dancei durante várias sextas com os DJs Luca Lauri e Liana Padilha.  Foi na noite que conheci [a estilista] Rita Wainer, a Erika Palomino e que saiu uma nota na coluna da Mônica Bergamo. Todo mundo queria saber quem era Renata Bastos...

- Antes da Lea surgir, você desfilava em eventos de moda. A androginia já estava sendo valorizada?

Trabalhei cinco anos com a Rita e desfilei na Casa dos Criadores e o Fashion Rio. E os desfiles eram tanto de menina quanto de menino, pois eu não tomava hormônio porque aos 13 anos eu tomei e engordei. Queria ter cintura 30, ser magra... Meu primeiro desfile foi em 1997, no Morumbi Fashion, para a marca Companhia do Linho, com stylist de Paulo Martine. De certa forma, minha aparência ajudou nestes trabalhos, pois daí fui convidada pelo Valério [Araújo], Miro, André Camacho... E ainda foram surgindo os filmes Carandiru, Bruna Surfistinha, O Cheiro do Ralo...

"Após me hormonizar, as pessoas começaram a me olhar de outra forma"

- Artisticamente, você transita em diversas artes: na moda, no cinema, na dança, nas performances. Em quais delas mais gosta de trabalhar?

Lembro-me da cena do filme Meu Amigo Claudia, em que ela diz que se encantou aos sete anos com os aplausos, após uma apresentação escolar. Disse: “É isso que eu quero”. Bom, comigo foi exatamente mesma coisa: me dá um holofote, uma luz e um diretor falando que é minha vez, que eu vou brilhar. Tanto na passarela quanto no palco, num filme ou no pole dance. Assim como a Claudia, eu sempre quis ser uma estrela. Mas sou da geração Xuxa, das paquitas. Então quando era pequena já subia em uma cadeira, fazia performance e até fazia o barulho das pessoas me aplaudindo [risos].

- Renata, você aparenta ser uma mulher muito forte, autossuficiente, badalada, exatamente como a Claudia era. Sente a solidão bater na porta quando está fora dos holofotes? Essa era uma das principais reclamações dela...

Isso ocorre pelo grau do assédio. Sou tão assediada em casas noturnas que, quando acordo de manhã em minha casa, sinto uma diferença imensa. Me vejo sozinha na cama, só eu e o meu gato. Eu me sinto sozinha, mas é mais por sentir falta de um relacionamento amoroso. Sobre amigos, não sinto tanto porque, mesmo longe da noite, temos o Facebook que acabamos interagindo e tendo companhia. Além disso, sempre sou convidada para tomar café, almoçar, ir para um boteco.

- Acredita que exista uma pessoa que vá te fazer feliz na vida a dois?

Uma amiga disse que existe a possibilidade de nunca vivermos o nosso grande amor. Isso me deixa muito triste, pois geralmente me demonstro muito segura e muito dona de mim, mas na verdade sou bem carentezinha, fofinha, choro com novela, com música. Chega uma hora que a mulher e o homem se deparam com os 30 anos e perguntam o que falta em suas vidas. Estou chegando nisso: tenho uma vida normal, trabalho, danço, mas sinto falta. Por enquanto, estou bem calma e o chocolate está resolvendo [risos].

"Hoje, estou conhecendo um menino, mas ele não entende sobre a minha vida"

- Os homens ainda são covardes em assumir uma mulher como você?

O relacionamento mais longo que eu tive durou cinco meses. Antes de tomar hormônio era um pouco mais complicado. Com os gays eu nunca fiz sucesso, embora já tive relacionamento com um e foi ótimo. Com os homens héteros que gostam de um transvesti, sou assediada, mas eles nunca vão me assumir, tem essa mentalidade fechada. Hoje, estou conhecendo um menino, mas ele não entende a minha vida. Ele diz: Ela dança de maiô, trabalha com moda, não faz programa, mora sozinha, tem uma vida normal, vai ao bar de rock...? Isso mexe e deixa as pessoas um pouco confusas. É muito louco.

- Qual é o seu sonho atualmente?

Tudo o que eu imaginei quando criança – de dançar, de ser coreografada, de desfilar – eu me realizei. Posso não ter sido a protagonista da novela das 21h, mas Deus colocou tudo certinho. Hoje, ter uma união estável é o que eu sinto falta. Ligo para o meu pai e ele pergunta: “Filha, vamos fazemos um almoço de domingo. Quer trazer o seu namorado?”. Meu pai é das redes sociais, já viu minhas apresentações no Vegas com o peito de fora, vê os homens me assediando no Facebook, mas pensa: “Ela é linda, tem muito cara em cima, mas cadê o cara certo?”. Esse homem, espero, o cara lá de cima vai me dar [risos]. 

"Desde criança, eu sempre quis ser uma estrela"

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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