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Filme sobre 1ª travesti eleita a cargo político roda o Brasil e emociona


A piauiense Kátia Tapety, hoje com 64 anos, é pau para toda obra. É mulher, macho, tudo, como costuma dizer. E também a primeira travesti a ser eleita em um cargo político no Brasil. Sua história de luta e conquistas dentro de uma região religiosa e conservadora tornou-se filme, Kátia [2012], da diretora Karla HolandHa, que atualmente roda o Brasil e emociona os espectadores.

Kátia nasceu em Colônia, uma pequena cidade de 8 mil habitantes no sertão do Piauí , e enfrentou o duro preconceito do pai quando seu comportamento feminino e a vontade de exercer tarefas como lavar roupa e fazer comida começaram a serem observados. Única trans de oito irmãos, passou a infância e adolescência reclusa e apanhava até mesmo quando ia à igreja.

“Minha mãe sempre me aceitou do jeito que eu era, foi uma santa e nunca me bateu por causa disso, mas meu pai me bateu muitas vezes. Não estudei [como meus irmãos], porque meu pai me discriminava, me tirou da escola para não fazer a vergonha à família. Estudei com professor leigo, em casa mesmo”, conta no filme.

Na infância, era chamada de Zé Mulher ou Mulherzinha pelos amigos por gostar de brincar de boneca, enquanto os meninos geralmente brincavam jogando bola. Mas, no fundo, não se importava com as maldosas referências e até gostava. “Eu aceitava numa boa, pois na realidade [mulherzinha] era o que eu queria ser”.
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O fato é que anos depois – e os detalhes estão todos contados no filme, tem que assistir! – Kátia se libertou, conquistou respeito e o carisma da cidade e passou a ser vista como uma respeitosa dama. Mais que isso: foi eleita a vereadora mais votada do município por três vezes seguidas desde 1992 e exerceu o cargo de vice-prefeita entre 2004 e 2008.

“Tem homem muito macho no Piauí, mas todos me veem como uma senhora, não me veem como ‘ó, o veado’. Eles me respeitam: ‘ali é dona Kátia, a vice-prefeita, é casada, é mãe de filho”, revela ela, que foi casada durante mais de 20 anos, se tornou mãe de três filhos e promoveu um lar tradicionalíssimo. “É uma família igual às outras, respeitada igual às outras, católica. Nós reza”, afirma.


Hoje, Kátia é funcionária pública e atua como "faz tudo": parteira, líder comunitária, assistente social, motorista, agente de saúde e até vaqueira. Uma fantástica volta por cima.

ATUALIZAÇÃO: O filme será exibido gratuitamente na segunda-feira, dia 24 de junho, às 12h30 e às 19h,  no Cine D, em Florianópolis [Rua: Trajano, 168, 3º andar, sala 303. Ed Berenhauser – Centro].

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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