Pride

“Enxergo a mulher que ela é”, diz ‘guarda-costas’ da cantora trans Valéria Houston

Fotos: Gerson Roldo

Quando Valéria Houston apareceu na tevê pela primeira vez, duas surpresas invadiram as casas dos telespectadores. Primeiro, o talento de sua majestosa e afinada voz. Depois, o exemplo de um amor lindo e sem fronteiras. Prestes a cantar Meu Erro, na versão de Zizi Possi, e vencer a disputa, a cantora transexual afirmou ao Brasil que está sempre acompanhada de seu guarda-costas [sim, inspirando-se em Whitney]. Já ele, que expôs os mesmos olhos apaixonados na telinha, disse que ela, independente de corpo, é a sua mulher e o seu orgulho.

O tal guarda-costas é o auxiliar de climatização Luis Nei Machado, que acompanha e incentiva Valéria na jornada artística. Em declaração exclusiva ao NLucon, ele diz que é extremamente apaixonado pela artista e revela que se lembra até mesmo da data em que a conheceu: “Foi na noite do 21 de janeiro de 2011, quando fui chamado para fazer um free como garçom no Venezianos Pub”. Valéria já cantava na casa e foi anunciada por um amigo de Luis como “aquela cantora transex que tem uma voz de mulher”.

No primeiro momento, Luis sequer imaginava que fosse se envolver com Valéria. Mas, aos poucos, os sentimentos, a voz e o jeito carinhoso da cantora tomaram conta dos pensamentos. “Quando percebi que estava com vontade de ficar com ela, fiquei um pouco confuso. Nunca pensei nada sobre as transexuais e tampouco tive alguma relação gay. Mas meus olhos enxergaram uma mulher em minha frente. Sim, uma mulher, que nasceu no corpo errado. Foi aí que pensei: ‘não vou deixar essa confusão me separar da pessoa que pode ser a mulher da minha vida”.

Mesmo assim, ele se fez de difícil e Valéria, que canta e sabe tudo sobre o amor, sentiu que era o momento de investir no romance. Com jeito delicado, sorridente e encantador, a artista fez com que Luis se sentisse envolvido por ela. O momento em que os fogos foram lançados e Whitney Houston poderia ter cantando I Will Always love You em potência máxima ocorreu quando ele percebeu que, apesar de badalada, sorridente e cheia de fãs, Valéria tinha um lado carente.

- Ei, o que houve coração, o que você tem?
- Carência – respondeu a cantora, com olhar baixo
- Então pode parar que estou aqui para acabar com esse sentimento.

Os dois sorriram.


JUNTANDO AS ESCOVAS DE DENTE

O contato foi uma explosão de paixão, cumplicidade e certezas. Tanto que a primeira vez em que eles se beijaram as escovas de dente já haviam se casado: “Não decidimos, aconteceu. O primeiro beijo ocorreu no dia 16 de fevereiro de 2011 e eu acabei dormindo na casa dela. Quando acordei, ela já havia comprado a minha escova de dente [risos]. Depois, levou apenas uma semana para morarmos juntos”.

O processo de adaptação foi rápido e simples. Pegou todas as suas roupas e levou tudo para a casa dela, sem informar nada para a família. Não pensou nos preconceitos que poderia enfrentar e, hoje, até encara os olhares nas ruas com naturalidade. “Assumi totalmente a minha relação com a Valéria, ando de mãos dadas na rua, beijo em público, temos uma vida normal. Geralmente, as pessoas ficam olhando, mas nada demais. Acho que é curiosidade”.

Na rotina, Luis sai para trabalhar durante a semana e Valéria fica em casa. Quando ele está de folga, os afazeres domésticos são divididos, assim como todas as contas mensais “Embora ela deteste, às vezes ela lava a louça [risos]. Prefiro que ela faça o jantar e que eu lave a louça ou então que ela cuide do quarto e eu da cozinha”. Já os momentos de lazer giram em torno de comprar guloseimas e passar assistindo filmes e programas de tevê.


O PRECONCEITO

Exceção entre os homens que se relacionam com transexuais, o exemplar Luis procura encarar o romance com naturalidade e orgulho. Mas, com tal exposição, nem sempre está livre dos apontamentos familiares. Criado pelo avô paterno, a pedido da avó no leito de morte, com a ajuda da tia, ele não recebe o apoio dos pais.

“[Após eu namorar a Valéria], meu pai cortou a relação total comigo e disse que não gostaria de ter um filho casado com homem. Sim, a chamou de homem! A minha mãe aceitou no início e até nos convidou para passar o ano novo na casa dela, mas depois disse que meu padrasto não queria ‘este tipo de pessoa lá’. Disse que eu poderia ir sem ela, mas é claro que não fui”.

Já o avô que o criou ficou um ano sem falar com ele, mas agora parece entender melhor o relacionamento. “Está mais normal, mas ele não fala e nem pergunta da Valeria. Quem mais me surpreendeu foi a minha tia, a pessoa que eu mais tive receio de contar. Ela não me criticou e apenas perguntou por que eu não tinha contado antes”.

Diante das diversas reações, Luis diz que jamais cogitou deixar Valéria pelos preconceitos. “Ela é uma mulher que nasceu no corpo errado e pronto. E o corpo dela é uma parte que não me incomoda. Posso deixar claro que a amo demais, que a admiro e que torço para que o sucesso olhe para a carreira dela, pois Valéria ama demais a música. Neste caminho, não deixarei ninguém fazer mal à Valéria, pois esta mulher é muito importante para mim. É a mulher da minha vida”.


“QUEREMOS NOS CASAR”

Morando juntos há dois anos, Luis pretende oficializar a relação judicialmente o mais rápido possível. “Temos o desejo de casar no papel e só estamos esperando ela concluir o processo de troca de nome. Foi um pedido do advogado da Valéria para que esperássemos a conclusão do processo antes de dar a entrada nos papeis”.

Adotar, todavia, não está nos planos do casal, uma vez que Valéria tem uma vida corrida. “Criar uma criança atualmente não seria fácil. Talvez futuramente, muito futuramente”.

Hoje, dia 12 de junho, dia dos namorados, eles se preparam para jantar no Venezianos, o local que os uniu, e curtir a noite. Ele revela que irão trocar novas alianças e que irá fazer algumas surpresinhas... Uma admirável demonstração de afeto, respeito, carinho e amor. Conhecendo Valéria, ela brincaria: “Vestido curto sempre dá certo”.

Que a vida sempre lhes dê todas as estrelas possíveis.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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