Realidade

Neymar manda beijo para uruguaio e estremece machismo no futebol


No jogo do Brasil contra o Uruguai, na última quarta-feira [26], Neymar aguardava que o uruguaio Álvaro González deixasse o campo para que ele cobrasse um escanteio. Foi quando o atleta adversário começou a despejar ofensas e xingamentos gratuitos. Neymar, um provocador nato, teve então uma atitude inesperada: mandou vários beijinhos para González.

“Ele me xingou e eu mandei um beijo”, explicou o brasileiro, que já foi bem mais esquentadinho, sobre a reação que virou manchete em vários veículos de todo o mundo. Como resposta, recebeu do uruguaio: “Não vi [o beijo], mas ele deve gostar”.

Em 2010, ele já havia respondido a uma provocação com um beijo na final entre Santos e Mogi Mirim, mas passou batido. 

Para as possíveis interpretações errôneas, é óbvio que ação foi meramente provocativa, que Neymar é hétero, que poderia ocasionar uma grande briga e que em nada se assemelha ao beijo de Paul Scholes e Gary Neville, do Manchester United, em 2010 [Gary se empolgou com o gol feito aos 47 do segundo tempo e beijou a boca de Paul].

Porém, marca uma pequena, positiva e isolada manifestação dentro do campo do Mineirão. O apresentador da Globo aproveitou a deixa e disse aos milhares de brasileiros, sentados em seus sofás: “Ah, tah, beijinho tudo bem”. 

CORAGEM DE SE PERSONIFICAR

Veja bem, apesar de Neymar certamente nem ter refletido sobre a sua atitude, trata-se de um beijo destinado a um igual em um cenário de nervos à flor da pele, de homens suados e acostumados com pancadarias em estádios, comedores que personificam o machismo, xingam as mães de juízes, prezam pela virilidade, condenam a sexualidade de bandeirinhas, rechaçam  jogadores sensíveis e gays. 

A repercussão e montagens na internet mostram claramente a polêmica em torno de uma afetividade entre homens em campo e que o jogador se apropriou da polêmica inconsciente  para provocar. Mas não se trata apenas de um fanfarrão, afinal ele se personificou na questão, vestiu a camisa, foi protagonista do beijo e brincou sem medos com a situação e do que ela poderia lhe causar.

Afinal, "onde já viu um ídolo se permitir a tamanha boiolagem?"


OUTROS BEIJOS

Em outros esportes, como o MMA, a TPM de macho comeu solta. Vale lembrar a pesagem de Alex Reid e Jason Barret, em que Reid encarou o adversário com a tradicional expressão “vou te matar” e depois lascou um beijinho em seu rosto. Jason ficou louco e, no momento, quis matá-lo de verdade. 

Seria ótimo se toda violência verbal fosse combatida, revertida e, no caso, finalizada com um simples beijo. Ou então que as pessoas se agredissem com beijos. Ou até mesmo que o beijo entre homens deixasse de ser motivo para tanta surpresa ou provocação no Brasil. Será utopia imaginar que, num futuro, os jogadores brasileiros se permitissem beijar [que seja na bochecha] ou enviassem um beijinho para comemorar um gol? 

Parece irônico, mas depois de ter feito a polêmica propaganda da Lupo – em que se “nega” a vender a cueca a um saradão – o brasileiro deu um pequeníssimo passo a frente do machismo. Neste caso [e pode ser só neste caso], garantiu a vitória Brasileira por 2 a 1, no campo do Mineirão, e de 10 a 0 no bom humor. 

Que isso vire um hábito em sua vida e um exemplo a jogadores e torcedores brigões. Que o futebol seja mais de beijos, mais espírito esportivo e menos de briga. Aliás, um beijo a todos eles!

Paul e Gary ao comemorarem um gol

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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