Realidade

Psicólogos questionam projeto de ‘Cura Gay’: “É um grave retrocesso”

Eduardo Simonelli, Julia Sargi e Maria Julia Chinalia

“Este projeto de Cura Gay é um grave retrocesso”. “É uma proposta invasiva e baseada em preconceito”. “É uma tentativa de barrar o desenvolvimento da sociedade e da ciência”. Estas são algumas das opiniões de psicólogos sobre o projeto de lei conhecido como Cura Gay, que foi aprovado na terça-feira [18] pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias, presidida pelo deputado e pastor Marco Feliciano.

A proposta do deputado João Campos [PSDB-GO] visa incentivar psicólogos a tentarem mudar aorientação sexual de uma pessoa que não se aceita como gay ou lésbica, contrariando o Conselho Federal de Psicologia, que proíbe tal prática há mais de 20 anos, por não considerar o homossexual um doente.
                                                                                          
De acordo com o psicólogo humanista Carlos Eduardo Simonelli, o projeto tem caráter meramente religioso e tenta ultrapassar as evoluções do meio científico. “A ciência está sendo estuprada e é triste ver a propaganda de um remédio que não existe, que dará falsa esperança a pessoas que estão com dificuldades com a sua sexualidade. É como se voltássemos a entender pessoas e questões como uma possessão demoníaca”, exemplifica.

A psicóloga clínica e educadora social, Julia Sargi defende que não é possível que profissionais de psicologia reforcem o preconceito para tratar angústias. “Esse projeto é uma tentativa desesperada de barrar o que não pode mais ser barrado, que é o desenvolvimento da sociedade para uma humanidade mais livre de preconceitos e com maior aceitação. Espero que não passe nas demais comissões”.

Já a psicóloga Maria Julia Chinalia, que cursa doutorado em Prevenção e Intervenção Psicológica em Instituições, declara que a proposta é invasiva e merece ser combatida. “O psicólogo, seja ele clínico, social, escolar ou organizacional, também é um agente de mudança social e jamais deve colaborar com um retrocesso. Aceitar a ‘cura gay’ é calar tudo o que diz respeito à diversidade e aceitação e ser subjugada a toda sorte de preconceito. Não acredito que nosso exercício possa ser compatível com tal proposta”.

ORIENTAÇÃO INABALADA

Apesar de o projeto ser discutido no Brasil atualmente, a maior organização de “cura gay” mundial, a Exodus International, encerrou em 2013 as atividades depois de 37 anos. Em uma carta, o líder da entidade missionária, Alan Chambers [foto], pediu desculpas pela dor e pelo sofrimento que a organização causou a muitas pessoas e admitiu que também é gay. E mais: que toda repressão nada adiantou e que só agora ele passou a se aceitar.

“Orientação sexual não é uma escolha. Ninguém escolhe por quem se sente atraído, é um desejo intrínseco, como podem querer mudar isso?”, questiona Julia. 
De acordo com a psicóloga, não é possível mudar a orientação sexual, pois ela é parte da própria identidade do indivíduo. “Se a pessoa está ok com isso, não é uma questão para se trabalhar em clínica”. 

A valorização da autoestima, o saber mais sobre si, o entendimento dos problemas e de como lidar com os preconceitos são algumas questões que geralmente são trabalhadas em consultório. Porém, independe se tais pacientes são héteros, bissexuais ou heterossexuais. 
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Além disso, Eduardo diz que nenhuma teoria psicológica deveria moldar pessoas a um modelo pronto. “Um psicólogo nunca deve trabalhar com a intenção de modificar o comportamento de acordo com o estereótipo, nem de forçar ele a querer mudar ou se aceitar. Trabalho numa orientação humanista, em que o foco é valorizar o ser humano como ele é e não transformá-lo em outra coisa qualquer”. 

Para ele, mesmo que a lei seja aprovada e que as diretrizes do CRP mudem, não há técnicas na psicologia que possam mudar a sexualidade de alguém. “Trabalho para que a pessoa se perceba mais, aponto apenas o que ela mesma trouxe, os pedidos de necessidades dela mesma. Muitas vezes, percebo que as pressões sociais destroem a criatividade e a espontaneidade, características comuns do ser humano”.

E SE O GAY QUISER MUUUITO DEIXAR DE SER GAY?

Maria alega que a orientação sexual é um campo delicado e multifatorial e que muitas vezes o desejo de mudá-la ou reprimi-la vem acompanhado de pressões externas - e que não correspondem muitas vezes a vontade individual da pessoa. “Posso falar que, da minha experiência, vi que por trás do desejo de uma pessoa querer deixar de ser homossexual existia uma motivação pela aceitação da família e da sociedade”.

Ela afirma que procura investigar as razões pelas quais a pessoa faz o discurso. “São as pressões da família? Da sociedade? Do grupo de amigos? A melhor forma de ajudar é fazendo o diagnóstico diferencial e investigar as causas desse sofrimento. Creio que o importante, no nosso papel profissional, é entender o paciente em primeiro lugar. E, volto a dizer, isso nada tem a ver com projetos de lei com interesses claramente escusos”, frisa.
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Julia concorda com os outros psicólogos e garante que não é possível aplicar nenhum tipo de trabalho para mudar a orientação sexual. Ela afirma que, em seu trabalho como educadora social, atendeu muitos adolescentes que tinham medo de contar para os pais sobre a sexualidade. 

“Não era um desejo real de mudar a sexualidade, mas um medo do que os amigos iam pensar, como a família ia reagir, como seria na escola. Conseguimos dar luz e entender todos esses pensamentos. Todos saíram mais conscientes, resolvidos e preparados”. Afinal, as pessoas SÃO gays e não ESTÃO gays.
PROBLEMAS PÓS-"CURA GAY"

Forçar tal “tratamento”, de acordo com a psicóloga, pode causar graves danos. “Incentivar essa mudança só trará mais sofrimento para a pessoa, traz maior confusão e sofrimento psíquico. Afinal, a pessoa deixa de se aceitar e, o pior, de saber quem é. Como mudar um desejo, um sentimento? Imagine se convencer de que não gosta de algo? É extremamente sofrido e opressor”, defende. 

Veja abaixo alguns problemas que podem afetar a pessoa que se passa por procedimentos que prometem "curar gays":
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A constitucionalidade do projeto será avaliada ainda pela Comissão e Justiça [CCJ] e o projeto também passará pela Comissão de Seguridade Social da Câmara. Se aprovada em ambas, segue para o plenário da Câmara.

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About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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