Pride

Saiba por que Elza Soares é a maior rainha gay do Brasil


No Brasil, não tem para ninguém. Elza Soares é a rainha dos gays. E, como não poderia ser diferente, aceitou em primeira instância o meu convite para participar da campanha “Sim, eu Aceito”. A ação, encabeçada pela Junior, em 2011, visava apoiar a livre expressão do amor e o direito universal ao casamento, ou seja, o casamento gay.

Ao saber da proposta, nos bastidores de um show em São Paulo, Elza disse prontamente: “Como posso pensar em ser contra o amor? Se estamos falando de amor, união, casamento, é claro que eu aceito. Ainda mais para os gays”.

Na ocasião, a artista estava com febre, havia acabado de fazer o show. Mas não esmoreceu, não apressou e nem deixou de fazer caras e bocas. Segurou a placa com carinho e abraçou a causa com emoção nos olhos. “Meu amor, adorei”, soltou ela, dando-me um selinho, autografando a sua biografia e indo ao encontro dos demais fãs.

Diante do contato, estremeci. Quem é essa mulher que superou a pobreza, o machismo e o racismo? Que viveu um dos amores mais tórridos da história? Que foi apedrejada, chamada de bruxa e que sacudiu a poeira? Quem é essa mulher que, mesmo sendo incompreendida por muitos, “deu a Elza” no destino e se tornou a cantora do milênio?

Quem é Elza Soares, a mulher que recebeu inúmeras vezes o título de rainha dos gays e que ainda nos recebe com tanta estima?
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Mais que diva. Um gay

Dona da coroa tupiniquim – assim como Cher e outras ... - Elza personifica a luta gay. Não somente por ter sido uma das pioneiras a dar a cara a tapa, por suas performances serem imitadas por transformistas, por suas vibrantes músicas e tampouco pelos seus figurinos à lá Tina Turner. Elza se tornou rainha porque, mais que uma diva, é  um membro da comunidade. É Um gay. Uma drag. Uma travesti. Com todas as chagas. 

O engajamento e o estreito contato com a comunidade LGBT são movidos pela identificação das tais cicatrizes, pelas dores do pré-conceito e pela alegria da etimologia gay [feliz! divertido! vivo!]. Ora, para quem já teve que responder em um programa de rádio "De que planeta você veio?", por estar maltrapilha, Elza sabe muito bem o que é ser julgado pela aparência e por sua essência. E também responder a altura: "Do mesmo planeta que você: do planeta fome". 

Ainda hoje, é rechaçada por muita gente que sequer escutou o clássico "Se Acaso Você Chegasse", ou soube detalhes de sua história. Assim como os gays, é vista com aversão por seu comportamento "assanhado" ou sobre a aparência "inadequada". Dizem: “Não gosto dela, parece travesti”. Mas o que era para ser uma grave ofensa, para a dame Soares é um elogio. Elza diria: "Desculpe, querida, aos 75 anos faço questão de continuar abusada. Se me der na telha, poso nua". 
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GAYS DAVAM EM CIMA DE GARRINCHA

Na biografia “Elza Soares, Cantando para Não Enlouquecer” há inúmeras referências da comunidade colorida em sua vida. A mais curiosa envolve a relação com os amigos Edgard Costa e Manuelzinho Vaz, que eram perdidamente apaixonados por seu marido, Garrincha [1933-1983]– conhecido também pela fantasia nacional de ser bem dotado. 

Mas o que Elza fazia? Brigava? Rompia a amizade? Dava bafão? Que nada... “Ela acompanhava a solerte trama e, para horrorizá-los, dava longos beijos de língua em Mané e deixava que esse a bulinasse à vontade. Certa vez, as intimidades foram tantas que Manuelzinho desmaiou”, escreveu o autor José Louzeiro, no capítulo "Acredite Se Quiser".

Em outros momentos, o convívio com os homossexuais era tão grande que Garrincha se incomodava e aparecia com um revolver, botando todo mundo para fora de casa. No outro dia, lá estava Elza ao lado de seus alegres amigos novamente na sala. Não tinha jeito!

Nos palcos, fez parceria com Cazuza, Cássia Eller, Ney Matogrosso, Ângela Rô Rô, Maria Bethânia e muito mais. Recentemente, até se arriscou com a banda de rock Huaska. 
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AIDS E APOIO

Nascida na favela, Elza foi obrigada pelo pai a se casar aos 12, engravidou no mesmo ano, perdeu um filho aos 13, outro aos 15 e ficou viúva aos 21. A vida bateu forte, mas ela não se abateu. O coração, que diz ser o maior do mundo, tornou-se acolhedor, festeiro e corajoso. Tanto que, em um período em que a aids se alastrou, nos anos 80, e que a mídia a chamava de peste-gay, a cantora teve um importante papel na vida de amigos soropositivos. 

Em entrevista à revista Fórum, Elza revelou que hospedou muitos amigos rejeitados por suas famílias e que não tinham condições de comprar os medicamentos.“Quando começou a surgir esse negócio da aids, existia muito preconceito, e eu dizia para alguns amigos: 'Traz a receita que eu mando fazer o remédio e vem pra minha casa'. Não vou citar nomes, mas muitos vieram para minha cá", contou. 

Tal apoio - incomum na época, uma vez que não se sabia sequer a forma de contagio - também foi exposto na extinta revista gay Sui Generis, de 1999.
 “Sempre tive um quarto na minha casa onde hospedo gays doentes, compro remédio, ajudo. Tenho muito carinho para dar, mas carinho mesmo é com o gay. Acho que faz parte de mim”, disse ela, que ajudou, por exemplo, a transformista carioca Marlene Casanova. 

Algumas perdas foram inevitáveis mas a atenção, a humanidade e o carinho prevaleceram.

OLHA A ELZA!

Poucos sabem, mas há quem defenda que a expressão “cuidado com a Elza”, que é associada ao roubo, vem da tempestuosa relação da cantora com o jogador Garrincha. Dizem as más línguas que a artista teria “roubado” o cantor de sua primeira família – o que é uma inverdade, uma vez que Garrincha já havia saído do primeiro lar há muito tempo e já estava até em outro romance.
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Gíria foi utilizada na novela "Amor à Vida"

Apesar da referência negativa, a cantora mostra bom-humor ao comentar: “Acho que é sinônimo de sorte. Cuidado que vai dar elza. E quando chega, ela vem violenta. Não me incomoda. Ninguém é mais gay do que eu, meu amor. Gay é sinônimo de alegria, felicidade, festa e eu sou tudo isso. Sou a rainha deles, sou a cara”.

Recepcionada sempre com ânimo pela comunidade, Elza se emociona: "O contato é o máximo. Sou mais um que está no meio deles. É bem legal, muito a minha cara. Tem sempre aquele que grita: necessária, maravilhosa, vitaminada! E eu me sinto vitaminada mesmo [risos]. Vitaminada, necessária, me sinto tudo”, ri. 

CADÊ OS MEUS DIREITOS HUMANOS?

Profissionalmente, traça uma carreira de pelejas e sucesso. Ao mesmo tempo em que foi recusada por uma gravadora por ser negra, conseguiu gravar 56 discos, contou com indicações ao Grammy Awards e foi eleita pela BBC de Londres a cantora do milênio. Também cantou o Hino Nacional na Abertura dos Jogos Panamericanos Rio 2007, foi a primeira mulher a cantar o samba-enredo e recebeu elogios de ninguém menos que Louis Armstrong.

Neste ano, mesmo não tendo que provar mais nada para ninguém, demonstrou ser boa de briga e fez uma manifestação política durante o show Deixa a Nega Gingar, no Sesc Pinheiros. A artista de 75 anos interrompeu as músicas “A Carne” e “Não é Sério” e fez uma marcante manifestação contrária à presença de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
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Com atitude e arte, soltou: “Aliás, nada é levado a sério. Eu me sinto desamparada. Eu tenho medo. Cadê os Direitos Humanos? Agora, comandado por um racista, que não gosta de negros, que discrimina os negros, que discrimina os gays... Cadê os meus Direitos Humanos? Fora! Fora! Fora!”, exigiu, com o coro e aplausos em pé da plateia.

Com músicas que denunciam o racismo [Carne, O Neguinho e a Senhorita], a pobreza [Lata D'água, Pra que discutir com a madame, Meu Guri], que falam de amor [Exagero, Dor de Cotovelo] e que levam alegria [Teleco-Teco, Rap da Felicidade...], a cantora milita por meio da arte. Hoje, sentada em uma cadeira, devido à delicada cirurgia que fez na coluna, ela brinca: "Respeitem uma mulher operada”, referindo-se com bom humor também às travestis e transexuais. Que queen!
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MY NOME IS NOW

Do primeiro contato da campanha, dois anos já se passaram e tive a honra de entrevistar Elza sete vezes. E, em todas elas, a rainha me tratou como um amigo e até me convidou para almoçar em sua casa, no Rio de Janeiro. Em um dos seus shows – que me fez ir às lágrimas ao cantar Paciência, de Lenine – até me deu uvas durante uma conversa. 


Perguntei de onde ela tirava tanta força para seguir , e ela soltou: 

“Sem esquecer o que ficou atrás, olhe pra frente, mais pra frente. Valorize a vida, pois a vida é um presente que se você não souber cultivar... sei lá. Não quero passar um lado de heroína, nem de bravura, mas quando estou mais fraca, tenho toda a certeza de que tudo aquilo vai passar. Daqui a pouco mesmo, já estarei chutando a cadeira!”.

Já sobre os gays...

"Acho que a gente nasceu na contramão. Como mulher negra, estou incluída na discriminação. A gente faz parte dessa sociedade que é discriminada. Temos que continuar unidos", refletiu. Viva a rainha! Viva Elza Soares!  



OUTROS DEPOIMENTOS 

Lívia Rodrigues: "Elza é hiper-mega simpática. Quando fazia pista aqui no Rio de Janeiro, há uns quatro anos, Elza Soares passou gritando para o motorista: “Para, para, volta que eu quero falar com a minha amiga loirinha”. Ela estava dentro de Zafira preto, com outras pessoas. Levei um susto, pois a única loira do momento era EU. Não imagina quem seria aquela mulher a gritar, querendo falar comigo. Elza foi um amor e me perguntou como estava a pista [risos]. Me elogiou e me deus algumas dicas que passei a seguir no período que ali trabalhei. Foi merecida esta homenagem". 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

Ricardo Rocha Aguieiras disse...

Bom, não sei se rio, se choro ou se rio e choro, de tão emocionado que estou, após ler esse texto majestoso, sobre uma mulher majestosa, que tanto fez e faz por nossa Cultura e por nossa música, pelos LGBT's, pelas LGBT's, por Direitos Humanos...
Sua voz é a de uma rainha e, se a MPB é a melhor música do mundo, muito se deve a Elzaq Soares. Ela se reinventou e continua se reinventando, em sua coragem única. Chamá-la de DIVA é pouco, ainda não temos um nome que atinja sua perfeição. Que tod@s @s cantores/as, artistas, mulheres, gays, LGBT's, todo o mundo se inspirem nela, sejam como ela, visceral, perfeita. Sua homenagem, Neto, será lembrada para todo o sempre... feliz foi o dia em que eu te li pela primeira vez, para nunca mais parar. Você honra o que é ser jornalista, joga luz em tudo e traz tudo para a luz. Só Elza não precisa, já que ela é sinonimo de luz, aquela luz rosa-dourada, a mais bela! Te amo! Te amo, Neto e te amo, Elza!
obrigado!
agora deixa eu ir chorar mais um pouco, hoje, de felicidade por vocês dois existirem...
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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