Entrevista

Boneca da Casa, Bianca Soares deixa filmes pornôs e foca na música

"Eu só quero ser uma garota normal"

Antes de Ariadna, Morango, Dicésar, Serginho e até mesmo Jean Wyllys entrarem em um reality show, uma travesti curitibana marcou a televisão brasileira. Em 2004, Bianca Soares foi escalada para a Casa dos Artistas 4 – Protagonistas de novela, no SBT, tornando-se a primeira travesti no mundo a participar de um programa do formato – e, até hoje, continua sendo a única no Brasil.

Apresentado por Silvio Santos e Regina Volpato, o programa recebeu Bianca como mais uma participante mulher, evangélica e casada. Mas a mídia tratou logo de anunciar detalhes do seu passado e estragar “a surpresa do baú”. A Veja a classificou como “Um Estranho no Ninho”, a TiTiTi anunciou “Bomba. Bianca é travesti” e site Babado destacou “Travesti é a atração da Casa dos Artistas”.

O pioneirismo trouxe reações inesperadas e, enquanto uma cena de beijo da artista em outro participante era censurada, havia rumores de que os patrocinadores exigiam a sua saída. Na primeira semana, movida por algumas confusões, Bianca foi eliminada com 75% dos votos sem dizer que era travesti aos participantes. Três semanas depois, ela volta a convite de Silvio, conta a novidade e movimenta a edição.

Com participação digna de protagonista, a bela foi catapultada para o estrelato. Tornou-se a presença mais requisitada dos programas de auditório, investiu no humor no extinto Show do Tom, da Record, e teve destaque na série Mandrake, da HBO, atuando ao lado de ninguém menos que Marcos Palmeira. Porém, a grande oportunidade veio do convite para se tornar uma porn star.

Bianca posou nua para a revista Man, protagonizou vários filmes adultos da Brasileirinhas – A Boneca Da Casa, Sodomizada, Contos de Bianca – e tornou-se a travesti mais bem paga do mercado erótico. O ator Alexandre Frota também se encantou com a beleza da trans e aceitou protagonizar um polêmico filme ao seu lado. Até hoje, ambos comentam a façanha...
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"Fiquei emocionada por estar ao lado do Silvio. É um ícone"

Nove anos depois, Bianca ostenta concursos de miss e mostra os seu talento como cantora. Ela gravou seis músicas – dentre elas o tema da Casa dos Artistas, Protagonista de Novela – e já se apresenta ao público. Abaixo, um papo descontraído sobre fama, beleza, Alexandre Frota e oportunidades com a eterna "estrela da tela", Bianca Soares.  

- Sua participação na Casa dos Artistas, há nove anos, foi aquele boom. Aos 21, você tinha consciência do marco que estava tendo para o grupo LGBT?

Sinceramente. não. Não tinha a consciência de que a partir daquele programa eu seria marcada, que seria a pioneira dos realities shows. Naquela época, pouco se falava sobre beijo gay, o Jean [Wyllys] sequer tinha participado do BBB5, então imagine como foi para uma boneca desbravar um programa tão popular como a Casa. Fui um tabu para os telespectadores, fui eliminada sem ter a oportunidade de falar que era travesti e, ao mesmo tempo, fui considerada um fetiche para os homens. Na verdade, estava ali só para mostrar que somos todos iguais e que merecemos as mesmas oportunidades.

- Você foi a segunda eliminada na primeira semana. Valeu a pena ter participado?

Com certeza, pois o programa foi o show da minha realidade [risos]. Além da experiência, fiquei muito emocionada por estar ao lado do Silvio Santos. Cresci assistindo o pai Silvio na tevê, então sentia que estava ao lado de um ícone, um homem de muito bom caráter, profissional e que transmite segurança no que faz. Não tenho do que reclamar da oportunidade. Depois de mim, vieram a Ariadna no BBB [da Globo], a Nany [People] e a Léo [Áquilla] em A Fazenda [da Record] e, hoje, temos mais trans trabalhando nas emissoras. Acho que devemos sempre mostrar uma diferente a cada ano, pois só com essa visibilidade abrimos o caminho para todas.

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"Devemos ter uma trans a cada edição, pois só com a visibilidade abrimos caminho"

- A edição prometia revelar a protagonista da próxima novela do SBT. Encontrou dificuldades na carreira de atriz?

Depois da Casa, trabalhei na Record ao lado do Tom Cavalcante, fiz um seriado na HBO com o Marcos Palmeira, mas a maior porta que se abriu foi a dos filmes adultos. Enfrentei muitas dificuldades para que as pessoas me vissem como artista. Era só aquela coisa tachada, estereotipada, com todo mundo sabendo e querendo saber sobre a minha vida. Não sei como suportei tudo aquilo, toda aquela pressão, mas foi bom para mostrar que a minha geração de travestis enfrentou muito preconceito e que nós ajudamos as mais novas a terem um mundo melhor. Fiz uma geração de bonecas crescerem comigo e acho muito legal quando elas dizem que eram pequeninhas quando me viam na televisão.

- Nas ruas, as pessoas ainda te reconhecem como a Boneca da Casa?

Mudei muito fisicamente, fiquei muito tempo na Europa, gosto do anonimato, mas as pessoas ainda me param quando me veem. Hoje em dia, falam mais de mim com o [Alexadre] Frota. Acho que o filme [Garoto de Programa, das Brasileirinhas] que gravei com ele marcou muito mais a memória do público. As pessoas me param na rua e sempre já vêm falar sobre ele, como se nós fôssemos iguais, convivêssemos juntos [risos]. Sempre fico muito envergonhada.

- Entrevistei Alexandre Frota em 2011 e ele disse que tem que ser muito homem para ficar com uma travesti. Concorda?

Não são todos os homens que têm o gosto refinado do Frota. Para ficar com uma travesti, tem que gostar de mulher. Sim, de uma mulher linda, com atitude e com classe. Afinal, uma travesti pode ter muito mais feminilidade que outras mulheres, independente de ter uma vagina ou não. Em minha opinião, o homem que não sabe respeitar as diferenças e que só enxerga a genitália na relação a dois, não sabe valorizar o ser humano por completo e toda a nossa construção. Homens que ficam com a gente não são gays, são homens de bom gosto, chamaremos assim.
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"O homem que só vê uma genitália, não sabe valorizar o ser humano"

- Como foi a gravação com ele?

O Alexandre sempre foi muito educado, respeitoso e atencioso. Ele sempre foi muito legal comigo. Só tenho elogios para fazer.

- De alguma maneira, você se arrepende dos filmes adultos?

Não faço mais, mas não me arrependo absolutamente de nada do meu passado, pois não seria a mesma Bianca se não tivesse passado por tudo o que eu passei. Os filmes foram uma ótima oportunidade para mim e apareceram numa época em que não existiam outros convites que valessem o mesmo valor. Abracei a proposta – que me rendeu um grande cachê – e fui tratada com o respeito de uma celebridade. Muita gente assiste, consome, mas tem preconceito. Posso afirmar que, mesmo sendo filmes eróticos, eu fui muito respeitada.

- Depois dos filmes, você foi eleita Miss Trans Curitiba e também participou do concurso nacional Miss T 2012. Ser miss era um sonho?

Sim, sempre foi um sonho ser considerada a mais bela e já consegui diversas vezes ser chamada como a mais bela trans do Brasil, inclusive em jornais portugueses na primeira página. Com o tempo, comecei a querer ser uma menina normal...

- Mas o que é ser uma menina normal?

Uma menina normal é aquela que não é apontada como boneca a todo o momento, que passa sem ser reconhecida por todos. É ter uma vida tranquila, ir ao mercado e poder fazer compras sem perceber que as pessoas estão te olhando, sem que as pessoas perguntem sobre os filmes ou de como fui eliminada na Casa dos Artistas. Essas são as perguntas que eu tenho que responder diariamente, sempre. Então, haja paciência [risos]. Eu gosto do anonimato, de andar como qualquer outra pessoa, mas só consigo encontra-lo na Europa. No Brasil, é complicado. Depois de oito anos, aprendi a manter o meu psicológico centrado, mas antes eu chorava muito, tive muita depressão com essa exposição. 
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"Não farei mais os filmes adultos. Meu foco é a carreira musical"

- Hoje, você vem com uma novidade para o público: carreira musical. Por que não se tornou cantora antes?

Estava focada e tentando a carreira de atriz, então adiei esse sonho. Até que parei com tudo e decidi ir atrás das aulas de canto. A música está presente na minha vida desde pequenininha, aos 6 anos, com meus pais escutando Cher e a Daniela Mercury. Eu era vidrada na Cher e cresci escutando Believe. Anos atrás, cantei para alguns amigos, diretores, críticos e eles foram me ajudando a ter discernimento. Amo música, fiz aulas de canto, expressão corporal e, hoje, tenho a consciência de que ela é a melhor maneira para chegar aos corações. Quero cantar e encantar.

- Por falar em Cher, você gravou três músicas dela, Believe, All or Nothing e Strong Enough... Como foi a escolha das músicas?

São as músicas que eu mais gosto, músicas que cresceram comigo e que marcaram a minha vida. Cada música tem um propósito e todas formam um grande quebra-cabeça sobre a minha história. Além das músicas da Cher, trago a música da abertura Casa – Protagonista de Novela (Laura Finocchiaro), Evidências (José Augusto/ Paulo S. Valle) e Pra Sempre Vou te Amar. Mais três músicas estão sendo produzidas, mas por enquanto é segredo.

- Os seus objetivos é agora é fazer shows, gravar clipe...? Conta tudo!

Meu plano principal é levar diversão para todas as pessoas. Estou produzindo um show, que deve se chamar The Magic Angel e que deve levar informação e música para pessoas de todas as idades. Na última semana, fiz um pocket show na casa Onnyx e foi maravilhoso ver todo mundo me aplaudindo, cantando como um coral... Sinto que o meu caminho é esse.

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"Travestis dizem que cresceram me assistindo na televisão"

- Você vai adotar o nome artístico de Juliana Rodrigues, já que está em suas redes sociais? 

Não, o Juliana Rodrigues é o nome que a minha família me chama, já que a minha irmã é quem se chama Bianca [ela pegava a identidade da irmã para ir para baladas e acabou sendo chamada de Bianca]. Para o público, continuo sendo a Bianca Soares, é o meu nome artístico, não tem como mudar.

- Uma curiosidade. Chegou a realizar a cirurgia de redesignação sexual, que você anunciou que faria?

Não fiz, pois acabei vendo muitas amigas arrependidas depois de terem feito. Quem sabe um dia no futuro eu faça, mas eu gosto de ser travesti, mesmo sendo feminina ao extremo. Me defino como uma pessoa realizada, uma mulher de p... [risos].

- Conta como é o seu dia a dia...

Sou uma menina normal, mas com gostos diferentes e bem apurados. Gosto de comer bem, andar bem, me vestir bem e sempre ter um bom homem para desfrutar disso tudo. Ai, como eu tô bandida [risos]. Hoje, estou solteira, mas sempre em busca de um grande amor que me faça esquecer da realidade. Quero namorar, ter planos, voltar a ser adolescente.

Agora, como cantora, como pretende lidar com a exposição? Terá outra postura?

Sim, já tenho outra postura, pois se antes eu era um sex symbol, agora estou mais tranquila. Quero ser fonte de inspiração utilizando a voz que Deus me deu. Não farei mais filmes, para a tristeza de quem estava esperando um novo trabalho. Quero que todos gostem agora é da minha voz, que eu estou trabalhando com o maior carinho e dedicação. Quero levar boa música como uma maneira de agradecer a todos que me fizeram a artista Bianca Soares. 

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Quero agradecer ao público levando uma boa música

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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