Trans em Debate

Trans em Debate: “Como é amar em meio ao preconceito?”

Patricia Araújo e Lirous com os seus amores

Há quem passe a vida inteira em busca de amor. Há quem o menospreze, quem ame sem ser amado, quem é amado sem amar, quem ande na montanha russa dos sentimentos [ora amando, ora tropeçando, ora amando de novo]. Há até quem ame e seja correspondido [ufa!] e outro que garante que não se preocupa em se entregar a alguém.

Amar é um risco, uma flecha lançada ao escuro, é doar-se por inteiro e, como troca, ser aceito, amado ou rejeitado. Mas o que provoca o amor? Qual é a melhor maneira de lidar o sentimento? Quanto dura essa “dor que desatina sem doer”? Jogue todas as fórmulas no lixo e aposte todas as fichas no acaso, no destino, na vida.

Pensando no amor [e também no Dia dos Namorados, comemorado no dia 12 de junho], perguntamos para as travestis e transexuais do Trans em Debate: Como é amar e namorar em meio ao preconceito? Existe namoro no mundo trans? Como lidar com questões como vaidade, aceitação e admiração? 

Confira as respostas: 


Kimberly Luciana Dias: “O pior preconceito é o do homem que não nos assume para a sociedade”
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“Amor não se escolhe, ele simplesmente acontece”, adoro essa frase.! Mesmo assim, o preconceito pode atrapalhar o namoro de um homem com uma trans. E o pior é quando ele não nos assume para a sociedade e demonstra que o medo é maior que o sentimento que ele tem por nós.

Eu não aceito ter namorado que não me assuma. Afinal, encaramos todos e todas diariamente, a escola, amigos, família e a sociedade. Por que eles, que dizem que nos amam, têm dificuldade de fazer o mesmo? 90% dos que se dizem T-Lovers são meros cafajestes, nos vê como objeto sexual, transam com todas, mas perante a sociedade é preconceituoso.

Como já disse aqui, tive apenas dois grandes amores na minha vida. O primeiro ocorreu quando eu tinha 17 anos, ficamos casados por nove e fui feliz ao lado dele por cinco. Foi um casamento como qualquer casal héteros, aliás, muito mais bem sucedido, porque nem os casamentos tradicionais conseguem manter tanto tempo nos dias atuais. E, se hoje me considero uma grande mulher, foi ele o fundamental para isso, pois sempre me tratou como uma.

O segundo, que terminou há quase dois anos, foi iniciado no falecido Orkut. Ele me fez acreditar que o amor existia, me assumiu totalmente para a família e amigos, mas descobri depois que ele era uma pessoa doente por sexo e que queria que eu vivesse em função dele. Com cicatrizes na alma, abri mão dele, dei preferência ao meu trabalho, à família e aos amigos.

Hoje, por opção de vida, quero ficar sozinha, quero amar eu mesma, pois tenho muito amor para me dar. Resumindo, não quero dividir meus dias, conquistas e felicidades com nenhum homem, em nenhum relacionamento amoroso. Estou feliz assim, me curtindo”.
  
Patricia Araújo: “Quando duas almas gêmeas se cruzam, não há preconceito que atrapalhe”
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“O amor é o sentimento mais lindo que podemos ter e dar a alguém. Sou tão coração que nunca fiquei só, nunca fiquei sem amar, não gosto de ter o coração vazio. Sou da opinião que a mulher – e qualquer ser humano - nasceu para andar de mãos dadas, viver experiências amorosas.

Afinal, amando tudo fica mais bonito, gostoso, colorido, o beijo é diferente, o coração bate mais forte, a excitação pela vida é maior. Quando duas almas gêmeas se cruzam, não há preconceito que atrapalhe. E sempre foi assim comigo, nunca deixei o preconceito atrapalhar ou romper uma relação.

Meus namoros terminaram por questões naturais: ciúmes, desgaste, não por preconceito. Aliás, para uma relação dar certo, acho que depende muito mais de nós. Quando passamos a nos encarar com naturalidade, quando nos amamos em primeiro lugar, eles nem cogitam colocar empecilhos. O preconceito tem que ficar na gaveta. 

Hoje, estou namorando e amando. Sou uma mulher que procuro conquistar o meu amor a cada segundo. Adoro estar ao lado dele, ir ao cinema juntos, restaurantes e fazer amor. Sim, até o sexo muda totalmente quando há sentimento, quando há este ingrediente chamado... Amor. 

Espero que todos e todas encontrem os seus! Feliz Dia dos Namorados!”.

Alessandra Oliveira: “O casal tem que ser unido e se preparar para as piadinhas na rua"
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Sou a prova de que, apesar de ser muito difícil, é possível haver um relacionamento amoroso entre uma trans e uma mulher, uma trans e um homem e até entre trans. Acredito que quando o amor surge – e isso não é algo que dá para explicar – os preconceitos caem e o que prevalece é a admiração e a união.

O meu casamento com a minha esposa – travesti e mulher, uma relação que muitos acreditavam que não ia dar certo – é, por exemplo, a melhor história de amor que eu já vivi. Para a surpresa de muitos, minha esposa é a minha princesa e eu a amo MUITO.

Embora não exista segredo, o que deve haver em uma relação com uma trans é compreensão e a aceitação de um para com o outro. Acredito que o casal deva ser unido e que a pessoa que namora uma trans deva saber o que realmente quer, pois a sociedade ainda não está preparada para compreender esse tipo de relação.  

Há sempre brincadeiras do tipo ‘Ah, quem é o homem da relação?’ ou ‘Ih, com tantos homens você foi escolher justamente uma mulher?’, como já falaram para mim. Isso atrapalha, caso o casal não seja forte. Afinal, ninguém sabe o que se passa entre o casal e cada um tem uma forma de amar. Eu mesma só me assumi travesti durante o casamento e minha esposa aceitou e me respeitou. Quer amor maior? 

Neste Dia dos Namorados, passarei com minha esposa, claro, ao lado de nossos filhos, comemorando a nossa linda união. Muito amor para tod@s”.

Lirous K’yo: "Fui casada oficialmente duas vezes e, em uma delas, recebi a benção da Igreja Católica"
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“Sempre tive muitos relacionamentos, tanto com homens quanto com mulheres. Muitas vezes, eles se passaram apenas por amigos, pois vivi em uma cidade onde a vida dos outros era mais importante que a própria [risos]. Portanto, não era preconceito, era uma maneira de nos sentirmos mais confortáveis. Tanto que, quando íamos ao cinema, por exemplo, as carícias eram inevitáveis.

Pela minha experiência digo que o primeiro passo para um relacionamento ser saudável é termos a certeza de que a pessoa está realmente preparada para estar ao nosso lado, se aceitar e estar pronta para bater de frente com qualquer coisa que possa nos incomodar. 
Para quem não está preparado, qualquer motivo vai ser motivo para se sentir amedrontado. 

Caso se depare com pessoas que não estejam preparadas, fujam para as colinas. Afinal, meninos e meninas trans, a culpa não é de vocês!

Fui casada duas vezes oficialmente, morei com mais dois, e uma delas era uma menina. Em uma das vezes, recebi o apoio das duas famílias, consegui me casar com a benção da Igreja Católica que nos acolheu em uma missa modesta do cotidiano na Catedral de Florianópolis.

Atualmente, estou casada desde 2010 e vivo com meu atual marido, o Jackson, desde 2009. Quando nos conhecemos, eu era presidente da UCE, ele estudante de Design e eu ainda morava com o meu ex. Tínhamos muitas coisas em comum e até tínhamos a paixão por videogame. Em certo momento, passamos a morar na mesma casa: eu, meus pais, meu ex e meu atual namorido. E, acreditem, sempre nos respeitamos e minhas relações sempre foram monogâmicas.

Um fato interessante ocorreu quando fui ao cartório, numa segunda-feira, para dar baixa na certidão do meu casamento. A escrivã disse: ‘Querida, não fique triste, em breve você poderá se casar de novo’. E, na sexta-feira, apareci novamente com toda a minha família para a união com o Jackson [risos]. A cara de espanto dela ficará para sempre na minha memória.

Sempre exigi dos meus parceiros a certeza. Nada de ter vergonha do que estamos fazendo, pois só temos vergonha daquilo que é feio, errado, e nosso relacionamento não é. Saio de dia, saíamos juntos de mãos dadas e, em toda a minha vida, só ouvi preconceito de gays. O meu grande amor estou vivendo a cada dia, pois o grande amor da minha vida sou eu.

Todos os que passaram por ela tem um cantinho especial no meu coração, e amo com a mesma intensidade que amava anteriormente. Pois o amor não acabou, ele se transformou. Sem todos os amores, eu não seria a Lirous de hoje.


Fernanda Vermant: “Não há regras para o amor. Namorei até um T-Lover”
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“Quando você me fez essa pergunta no ensaio de noiva com a Felipa [Tavares, em 2012], eu estava solteira e sem esperanças de um relacionamento sério. Disse que não acreditava e que achava muito difícil. Desde lá, namorei um rapaz, terminei e, agora, estou enrolada com um garoto de novo.

Posso dizer, hoje, que existe relacionamento sério com trans, sim, mas também há a fantasia e todo o pacote já conhecido. É difícil, não nego, principalmente porque surgem inúmeras questões, que viram discussão e atrapalham o andamento do namoro. 

Dizem: “Como o relacionamento será visto pela sociedade? Como a família vai reagir?”. Mas, em um amor verdadeiro, tudo isso não tem importância. Muitas gatinhas ficam inseguras e botam pressão no famoso boy, mas o lance é deixar rolar e ser feliz.

Prefiro o boy que me aceita quando descobre que sou trans que aquele que se faz de difícil, coloca obstáculos. Mas não há regra. Já namorei até um T-Lover, que são encarados como fetichistas, e ele foi super-fofo e tornou-se um dos meus relacionamentos mais longos.

Amar é importante, mas não dá para seguir em uma busca desenfreada por namorado. Afinal, o que é nosso vai vir na hora certa. Desejo que exista muito amor no Dia dos Namorados para todas as pessoas. Aliás, não só nele, mas sempre. O lema é se preocupar em ser feliz. Feliz Dia dos Namorados, gatinhas!".

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Thales Lopes disse...

Seios Lindos dessa Loira de blusa Rosa.

Dj ale disse...

Gostaria de conhecer uma bela trans

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