Pride

As 11 capas mais ousadas das revistas gays brasileiras


Há pelo menos 20 anos, gays de todo o Brasil podem ir às bancas e adquirir revistas com conteúdo que contemple a diversidade. Eróticas, sensuais ou estritamente jornalísticas, elas foram e são responsáveis pela evolução de pensamentos, autoestima e reflexões para o próprio meio.

Muita gente se descobriu “folheando” a icônica G Magazine, que nasceu em 1998 com a ousadia de trazer famosos nus. Muita gente soube mais sobre si mesmo e sobre a tal cultura gay com a Sui Generis [1995-2000]. E muitos aderiram as propostas do “gay moderno” da Junior, que está há seis anos no mercado.

É claro que não podemos esquecer das tentativas e importância das revistas não-eróticas ACapa, Dom, Aymè, OK Magazine, Simples Assim! que também fizeram história, e das eróticas Gato, Homens, Alone Gay, Young Pornogay e Sex Boys...

Não é novidade que a maioria das capas pesca o leitor pelo órgão sexual, trazendo homens de corpos sarados. Mas há aquelas que abusaram e escaparam da obviedade. O NLucon selecionou as 11 revistas mais ousadas e criativas da história da imprensa de revistas gays.

11º Clodovil e Júlio Capeletti [G Magazine, julho de 2005]


Ter Clodovil Hernandes [1937-2009] na capa de uma revista gay já justificaria a sua entrada na lista. O estilista que marcou a história – pelo bem e pelo mal – esteve vestidinho na capa da publicação, que anunciava o ensaio de Julio. O trocadilho era que o famoso contaria tudo e o modelo mostraria tudo. A capa e as fotos do recheio foram tiradas por Bauer, mas não mostram Clodovil e o modelo lado a lado.

Uma curiosidade é que a editora Ana Fadigas abre o editorial com dois e-mails que demonstram a repercussão da notícia de que o estilista estamparia a capa. “Gostaria, antes de mais nada, saber a veracidade de que Clodovil vai posar para a G. Em caso afirmativo, gostaria de saber o endereço para devolução da revista”. Em outro: “Depois do choque, pensei no porquê. Clodovil é um exemplo de homem. É um sobrevivente do seu tempo”.

Além disso, a capa foi censurada no Rio de Janeiro, por uma determinação da Justiça de que revistas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas devem ser protegidas por invólucro opaco. E também mostra Clodovil, considerado desengajado, pronunciando-se a favor da adoção gay, união civil...

10º Laerte Coutinho [Junior, dezembro de 2012]


“Quem tem medo de travesti?”, diz o título da matéria de capa, que conta com uma ilustração de Laerte Coutinho, trans cartunista que abalou as normas de gênero nos últimos anos, sobre ele mesmo. É a primeira capa gay de auto ilustração e a primeira da Junior voltada para as transgêneros.

Há quem diga que se trata de um receio de apostar na imagem real de Laerte, que foge totalmente do perfil da revista e contou inclusive com outra capa, mas pelo lado estético ficou linda!

Temática, a revista abriu mão das reportagens destinadas ao gay, ampliou o leque para a discussão de gênero e contou com 4 páginas para a entrevista com a cartunista, 5 para uma reportagem sobre a transfobia no mundo gay, 4 sobre montação na noite e 2 sobre drags. Evolução!

9º Leonardo Vieira de espartilho – Sui Generis
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Para quem sempre sonhava ver um galã de novelas exalando testosterona em uma revista gay, Leonardo Vieira surpreendeu na edição 15 da Sui Generis ao aparecer “Como nunca vimos”. Ou pelo menos do jeito que muitos esperavam ver...

O moreno-magia, até então com destaque máximo em novelas da Globo, esbanjava beleza com peitoral desnudo, braços peludos, um [politicamente incorreto] cigarro e, pasmem, um femininíssimo espartilho.

Há rumores de que a ousadia da capa prejudicou a carreira do ator na Globo e que alguns diretores chamaram a sua atenção. Até porque, apesar de outros bonitões terem posado, tais como Rodrigo Faro e Eduardo Moscovis, ninguém se atreveu a fotografar com peças do universo feminino.

8º Vitor Beufort – Sui Generis [fevereiro de 2000]
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Numa época em que os pitboys ganhavam as páginas do jornais por baterem em homossexuais, o supercampeão Vitor Beufort mostra a sua força bruta a favor da paz. Foi com uma pomba na mão na capa da revista Sugeneris que o ícone da luta atacou os lutadores que espancavam gays.

Com 8 páginas e fotos de Daniel Mattar, Vitor disse que a luta não envolve raiva, mas disciplina. “O que cara que é muito machão, está sempre preocupado com o que é coisa de viado, no fundo, tem medo de ser gay. Acho que tem que ser macho da maneira positiva”.

E torce para que algum dia os brucutus homofóbicos se deparem com lutadores LGBTs, como a transexual tailandesa Parinya Charenphol, que se tornou conhecida como lutadora. “Se o malandro pega uma dessas, tá ferrado”, diz o atleta. Vitória para o gato e para a comunidade gay!

7º Familia Gay – Sui Generis
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Opa! Mais uma capa da Sui Generis. Desta vez, não envolve uma personalidade, mas um tema: Família Gay, inseminação, adoção e sexo tradicional rompem as barreiras da procriação. 

A capa número 40 é de um modelo com uma criança, simbolizando um pai homossexual. Já na contracapa é a da criança peladinha aprendendo a andar.

A revista mergulha na questão e traz depoimentos de pessoas da comunidade, ponto de vista de profissionais de direito, da psicanálise e antropologia. Um manual para todos que sonham com a paternidade e para reflexões contemporâneas sobre o que é família.

6º Mateus Carrieri – Gmagazine [agosto, 1998]
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Embora a publicação seja conhecida por trazer nudez de famosos, o primeiro artista a posar nu foi Mateus Carrieri. Na época, ele posou nu e logo fechou para estrelar a novela infantil Chiquititas, o que fez com que seu ensaio demorasse um ano para ir às bancas.

Foi ele que impulsionou tantos outros famosos a exibirem tudo o que a TV nunca mostrou. Depois, posou mais quatro vezes, inclusive dividindo a capa com o filho, Kaíke, a editora Ana Fadiga e Alexandre Frota.

Na edição 100, ele revelou como foi posar: “Achava que ninguém saberia... Doce ilusão. Foi o maior bochicho, polêmica, muita gente comentando, dando força, mas também muita gente cheia de pedras na mão. Amadureci muito enfrentando aquela situação”.

5º Roberta Close – Sui Generis
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Considerada a mulher mais bonita do mundo, a modelo transexual Roberta Close foi a capa e a reportagem central da Sui Generis. Na capa, a bela posa produzidíssima com um modelo magia e convida a falar sobre a cirurgia de redesignação sexual tratando o assunto como as dores do parto.

A abordagem do universo trans em publicações gays não é comum, haja vista que demorou 20 anos para que a extinta revista Simples Assim! trouxesse em 2011 a modelo transexual Carol Marra em sua capa. Nela, Carol diz que sofre preconceitos de outros gays no mundo da moda. 

A ausência de capas será um reflexo?

4º Dicesar/Dimmy Kieer - OK Magazine [dezembro de 1997]
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Antes mesmo de estar no Big Brother Brasil, Dicesar apareceu e surpreendeu na capa da revista Ok Magazine. Ousado, ele se maquiou, colocou peruca ruiva, mas não adotou 100% a postura de diva. Ele esteve descamisado e exibiu o lado masculino para o fotógrafo Cassiano Souza.

No recheio, há apenas uma foto do artista, mas abre espaço para oito diferentes perfis de drags. Entre elas, Kaká Di Polly, Marcia Pantera e Salete Campari. Uma curiosidade: “O nome de Dicesar é inspirado na esfuziante Lady Miss Kier, do extinto grupo pop psicodélico Dee-Lite”.

3º Vampeta, Renato Gaúcho e futebol
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Se o machismo ainda impera no futebol, que tal desnudar os maiores ídolos do esporte para que gays possam se deleitar? Em janeiro 1999, a G Magazine desnudou ninguém menos que Vampeta, um dos maiores ídolos do Corinthians.

Foi um verdadeiro escândalo, mas que motivou outros esportistas a traçarem o mesmo caminho. Foram eles: Dinei, Túlio Maravilha, Alexandre Gaúcho, Rafael Córdova, Roger, Wagner Limeira e Bruno Carvalho.

Vale lembrar que em alguns casos, os clubes tiveram preconceito com o ensaio. Roger, por exemplo, teve problemas com o até então técnico Paulo César Carpeagi e acabou sendo negociado com o Vitória.

Na Sui Generis, o jogador Renato Gaúcho – o maior pegador da década – também estampou a capa [sem nú] e falou sobre sexo, mulheres, homossexualidade, dinheiro e fama de gay. 

2º Cássia Eller – Sui Generis
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Abusada e assumidamente lésbica, a cantora esteve na capa raspando o cabelo. Na época, Cássia era apontada como a responsável por ocupar a lacuna deixada por Renato Russo. Mas, como sabemos, não ocupou o lugar de ninguém, mas firmou a sua própria música e história.

Embora seja um ícone inquestionável e a presença das mulheres seja importantíssima na quebra de preconceitos de gênero e sexualidade, Cássia, Marina Lima [Suigeneris] e Angélica Morango [ViaG] são as únicas mulheres lésbicas a posarem para uma publicação gay.

1º Beijo Gay – Sui Generis [1999]
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Se raramente existem gays em capas de revistas gays, como esperar um beijaço de dois homens? Pois em 1999 a Sui Generis ousou e deu um verdadeiro passo no mercado de revistas gay. Um beijo babado e de língua de André Barros e Fabio Salles, que comemoravam o Dia dos Namorados.

Apesar da foto de Daniel Klajmic e a mensagem “Amar é dar beijo na boca”, a revista foi censurada e revestida por um saco preto nas bancas. Foi um marco, que sentenciava que as pessoas engoliam os gays desde que eles não tivessem comportamento gay. Ou seja, desde que eles não se beijassem.

Em novembro de 2012, a revista Junior deu um tímido beijo na capa com os modelos Diego Possadas e Omoal Felipe, em foto de Leo Castro.

 Será que encaretamos? 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

3 comentários:

Ricardo Aguieiras disse...

Que o mundo, e não apenas as revistas gays e LGBT's encaretaram, evidente. Libertários passaram e serem encarados como figurinhas do Mal. Senti muita saudade de algumas capas, defendo que essas revistas todas sejam digitalizadas e disponíveis online, como foi feito com o pioneiro jornal "Lampião da Esquina". Acho que a digitalização ampliaria e muito nossas discussões atuais. Fiquei curioso: onde andará Júlio Capeletti, Leonardo Vieira e tantos outros que pousaram? E o que pensam, hoje, da homossexualidade e dos avanços?
ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

renato abritta zacarias disse...

Não diretamente relacionado, mas também de alta importância na história, é a capa da revista playboy de 1984, em uma edição onde aparece nua (ou nú) pela primeira a vez ROBERTA CLOSE. Marco histórico para derrubar barreiras.

Toni disse...

Todas essas revistas deixaram de circular, até a Junior e o site Mix Brasil que pareciam ser os sobreviventes do segmento acabaram, o que está acontecendo? Sugiro lançar um olhar sobre este fenômeno do desaparecimento da imprensa gay, com seu texto lúcido e bem apurado, Neto. Nos ajude a entender melhor

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