Entrevista

'Cantada na rua não é elogio, é assédio', diz autora feminista


A jornalista Melissa de Miranda, de 26 anos, passou grande parte de sua vida recebendo cantadas dos mais variados teores toda vez que colocava os pés na rua. Há três anos, estreitou os laços com a leitura feminista e passou a refletir profundamente sobre todas as pressões e questões que muita gente esquece envolvendo a cultura patriarcal, o machismo e as mulheres. Hoje, o homem que ousa a chamar de gostosa na rua recebe uma reação inesperada.

Autora do livro Inércia - A geração Y no limite do tédio  [Ideias&Letras] e de textos voltados para a comunidade LGBT, Melissa é a favor do ativismo de sofá, diz que o debate é uma das maneiras de reivindicar, e que recebe inúmeras mensagens de lésbicas que passaram a se auto aceitar por meio de seus textos. Feminista, vegetariana e bissexual, ela participa diariamente de inúmeras discussões na internet e também integra a passeatas físicas, como Marcha das Vadias e as manifestações dos 0,20.

Além disso, também escreve obras infantis inclusivas e produz vídeos stop motion sobre temas sociais, sempre com viés divertido e de entretenimento. Um deles esteve na campanha internacional contra o bullying It Gets Better, sobre os adolescentes gays que se suicidaram nos Estados Unidos. Em entrevista exclusiva a NLucon ela fala sobre cantadas, mulheres no funk, depilação e uma recente declaração da cantora Ana Carolina. Confira:

- Não é de hoje que você é politizada e consciente dos direitos a serem conquistados, mas nos últimos três anos esse laço se estreitou com o feminismo e os direitos LGBTs. O que mudou?

Meu engajamento cresceu com os textos que li na internet e me provocaram. Um dos primeiros autores, curiosamente, foi um homem, o Hugo Schwyzer, que escrevia para homens entenderem o lado das mulheres. Dizia: “entenda o lado delas e veja como você pode fazer parte da solução”. Por meio dele, li vários textos da Katie Baker e um deles, que falava sobre assédio nas ruas, me chamou atenção. Foi a primeira vez que parei para pensar que não é normal sentir medo de ir para a rua sozinha só porque sou mulher. Que esse medo de ser abordada, de ouvir piadinhas e comentários como “delícia”, “quero te comer” acompanha a maioria das mulheres desde a adolescência. E vi que não é normal ser obrigada a ouvir isso e ficar quieta... Me questionei ainda: por que eu, que sou feminista, mudo de lado na rua quando vejo um grupo de homens?

- E o que fazer quando se é chamada de gostosa na rua, por exemplo?

A proposta da autora é, se estiver num local seguro, parar e tentar conversar. Não de forma agressiva – mas calma. Dizer para ele: “Você acha que eu me sinto melhor com esse seu comentário?”, “Você acha que eu me sinto segura?”. E ela começou a perceber que, na verdade, esses homens não sabiam conversar com as mulheres, não tinham coragem de conversar... Quando comecei a questionar quem me abordava assim, tive situações negativas e positivas. A maioria abaixou a cabeça, virou e foi embora. Alguns pedem desculpas e falam que foram idiotas. Mas teve um homem, que entrega correspondências de bicicleta perto de casa, que me chamou de gostosa e eu perguntei por que ele estava falando aquilo para mim. Ele se transformou em um monstro, ficou ofendido, e o gostosa se transformou em vadia, cachorra...

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- Essa abordagem tem a ver com classe social, educação, perfil? Quem é esse homem que invade o espaço da mulher com cantadas ofensivas?

Independe, mas eu sinto que quando os homens estão juntos é pior. Quando há dois ou mais juntos, há mais chance de ouvir uma abobrinha que quando ele está sozinho, pensando nos problemas dele. Querem validar que são homens socialmente, porque a sociedade ainda é muito machista.

- Quando uma cantada na rua é um elogio?

Para ser elogio, tem que ser algo que a mulher queira receber, recíproco. E a rua é apenas um espaço público que usamos para ir de um lugar ao outro, não é como uma balada, onde as pessoas estão reunidas com interesses comuns e se mostram abertas umas às outras – e esta abertura deve ser observada sempre, inclusive nas festas. Na rua, de uma forma geral, não há esse tipo de liberdade, contato visual ou espaço para um homem vomitar qualquer coisa sobre uma mulher que acabou de ver. Na maioria das vezes, sequer notamos o homem antes de ouvirmos uma atrocidade. Mas é complicado, passei 20 anos sem perceber que isso me incomodava e que não sou obrigada a aguentar só porque sou mulher. Às vezes, se saía e não era assediada, achava que algo estava errado comigo – “estou feia hoje?”. E isso mostra como o assédio é forte, socialmente. Precisamos entender os riscos que uma cultura invasiva, permissiva traz para as mulheres. Quando saio, tenho medo de ser assaltada, como a maioria das pessoas... mas não deveria ter além de tudo medo de ser estuprada, assediada... O corpo é meu e eu não convidei a pessoa a ficar no meu espaço.

- Apesar dos resquícios de machismo, as mulheres conquistaram muitos direitos ao longo dos anos. Onde o preconceito se manifesta e qual é o direito primordial que as mulheres querem agora?

A jornalista britânica Caitlin Moran brinca que quase sente saudades de quando o machismo era evidente, pois hoje ele vem muito disfarçado, em piadinhas, no Rafinha Bastos, no “ah, é só uma brincadeira”... As pessoas sabem que não é socialmente aceito ser machista, mas o machismo em si é socialmente aceito. Aparece quando uma mulher é estuprada e as pessoas dizem: “ah, mas ela seguiu o cara, usou tal roupa”. Não! A culpa nunca é da vítima, é da pessoa que escolheu agredir. E ir contra o pensamento padrão requer esforço, é algo constante. Eu mesma me policio para não reproduzir. Quando uma mulher de 50 anos passa com uma saia curta, a primeira reação que tenho pode ser: “nossa, que sem noção”. Mas eu volto e me questiono: “por qual motivo estou pensando isso?”. O corpo é dela, a saia é dela e se é curta ou não só diz respeito a ela. No fundo, a nossa reação diz muito mais a respeito de nós, do nosso moralismo como sociedade, do que de fato ao que a pessoa é. Quanto aos direitos, a nossa maior luta ainda é a legalização do aborto. Você vê as passeatas feministas e a questão mais gritante é que o nosso corpo não é legalmente nosso no Brasil.

- O mercado de trabalho já está compatível?

Não, a mulher ainda ganha menos, como apontam as pesquisas mais recentes, mas há um grande progresso. Muitas universidades têm salas com a maioria formada por mulheres, há muitas mulheres em cargos de liderança... Então, cabe a nós pegarmos as rédeas e fazer. Existem novas oportunidades de mudança e existem obstáculos. O machismo ainda está no mercado de trabalho e se mostra até no mais banal. Por exemplo, em uma sala de homens e uma única mulher, é para ela que muitos vão pedir o café... Isso já aconteceu comigo e foi desconfortável.

- O público do NLucon é formado por muitas travestis e transexuais. Acredita que o preconceito que elas sofrem vem desse machismo?

Envolve muitos preconceitos. Embora estejam em uma situação que demonstram muita coragem, integridade e sinceridade consigo, elas são vistas como uma enganação, como se estivessem distorcendo biologicamente o que “deveria ser” ou “o que Deus quis”... Além disso, não são só femininas, são ultra-femininas e muitas refletem isso no cabelo longo, na roupa justa... E, para essa sociedade, a vestimenta acaba levando a trans ao patamar de vulgar, baixa e que não merece respeito. Ou seja, as pessoas julgam por se portar de forma feminina, por evidenciar isso. Em minha opinião, elas sofrem o pior do preconceito, pois junta machismo, a insegurança do outro...

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- Homens são bem-vindos em grupos feministas ou essa é uma guerra sexista?

Sempre defendi que não existe feminista que odeia homens, que combata os homens, apesar de ter encontrado duas pessoas que tinham essa aversão. Afinal, o que existe é um patriarcado, um sistema que afeta socialmente, sem distinção... Sinto que os homens são quase celebrados quando vão a eventos feministas, como a Marcha das Vadias, que essa presença é importante. Mas também acho complicado quando há homens demandando uma posição de destaque e liderança no movimento, sem dar chance para as mulheres. Porque já há uma liderança masculina social, então eles devem agregar e não entrar na frente. Seria como uma branca querer liderar um movimento negro. Ela não sente toda a questão na pele e deveria dar voz às pessoas que sentem.

- Li um artigo a respeito das mulheres do funk e da Catarina Migliorini, que leiloou a virgindade, referindo-as como exemplos de liberdade sexual e do direito de fazer o que quiserem com o corpo. Se por um lado tem a questão feminista, por outro elas não estariam apenas reproduzindo uma tara masculina?

Este é um dos maiores conflitos e adorei os exemplos. Acima de tudo, a gente deve recriminar menos as mulheres, que já são frutos desta sociedade machista. Temos que dar espaço para elas fazerem o próprio caminho, terem o seu próprio processo e, como contraponto, dar algumas referências. Levar questões que vão mostrar ou não se ela está contribuindo para algo não muito legal como um todo, mas nada imposto, pois só complicaria a evolução do processo. Quanto às meninas do funk, ao mesmo tempo em que defendo o direito de elas usarem a roupas que querem, admito que me sinto incomodada com a propagação do machismo. Queria que elas questionassem as razões porque usam uma roupa desconfortável, apertada até a alma, calçam um salto em que mal conseguem se equilibrar e ficam rebolando na frente de 20 mil homens. Por que se propor a isso? Fazem porque há demanda, mas qual é o motivo dessa demanda? Ela é pessoal ou externa? A minha proposta é criar o máximo diálogo, de conteúdo, propor muitos caminhos para que as mulheres não tenham apenas um para escolher...

- Valesca Popozuda já foi apontada como um símbolo feminista, com suas músicas que devolvem o chifre no homem e similares... O que acha?

Não gosto da Valesca, mas tento respeitar quem gosta. Não é descartável ter uma mulher como representação no funk, mas ainda temos que manter sempre a discussão aberta e saber que ela está em um ambiente machista, que vive disso, que fatura por isso. É falar: Você vai meter o chifre, nele, ok. Por quê? Isso é necessariamente positivo?

- Vi uma placa que você segura e que diz: “Mulheres têm pelos, se é uma questão de higiene porque os homens não arrancam?”. Você se depila?

Não completamente, pois é uma questão que estou começando a trabalhar. Chega um determinado momento em que a gente se questiona: por que vou me submeter a um processo que queima a minha pele, arranca centenas de pelos ao mesmo tempo, faz eu gastar centenas de reais, sendo que sou mulher e nasci com pelos? A gente tem uma visão distorcida do que é ser mulher... A Caitlin Moran propõe que toda essa propagação da depilação ocorreu por causa dos filmes pornôs, para os pelos não atrapalharem a visão da penetração. Então, as atrizes tiravam... Hoje, com a pornografia na internet, os meninos de 11 anos já crescem achando que as mulheres nascem sem pelos e depois, se estão com eles, dizem: “ai, que nojo, não é normal”. Mas é normal. Essa é a questão! De qualquer forma, defendo a liberdade da mulher ter ou não ter. Não acho que as mulheres devem parar de se depilar, elas fazem o que quiserem para se sentirem confortáveis e bonitas, mas precisamos ter a opção.

- Partindo para as mais radicais, há feministas que repudiam qualquer tipo de submissão mesmo que na cama, e que a relação sexual tem que estar igual para igual... O que pensa disso? 

O que deve prevalecer é a liberdade individual. Existe toda a discussão envolvendo sexo, bondage, submissão sexual... Sou do grupo de feministas que dizem que a pessoa deve fazer o que dá prazer e parar de encarar quem escolhe ser submissa sexualmente como uma pessoa como distúrbios, traumas de infância... Acredito que existe gosto para tudo e tudo o que é consensual, entre adultos, deveria ser permitido. Não é uma feminista que tem que decidir como alguém deve transar. Se eu gosto de ficar de quatro, vou ficar de quatro.

- Seu contato com a comunidade LGBT deu-se pelos seus blogs, quando começou a escrever para este público, produzindo literatura lésbica e ainda obras infantis inclusivas?

Já tinha um engajamento, pois aos 14 já estava fora do armário, tinha muitos amigos gays, mas depois da página comecei a ter contato com todo o tipo de garotas do Brasil. Vi que a visão que eu tinha do gay de São Paulo era diferente dos outros lugares, que ainda sofrem mais com preconceito. Marcou muito uma leitora de Brasília, que veio de uma família evangélica, passou por exorcismo e foi expulsa de casa. Quando estive em Brasília para lançar um livro, ela me entregou um presentinho e falou: “Se não fosse você, eu não teria entendido que ser gay é normal e que eu não sou um demônio”. Hoje, ela mora com a namorada, pediu em casamento durante um sarau e citou um texto meu. Foi emocionante sentir o fruto desse engajamento.

- Em recente entrevista, a cantora Ana Carolina diz que não levantaria bandeiras e que a bandeira dela é viver com normalidade...

É complicado usar o tempo “normalidade”, pois existem muitos grupos que diferem do que é considerado normal socialmente. Então, ela falar isso sendo uma pessoa pública está excluindo um monte de gente que não se encaixa, que não se considera um padrão normal...


- Talvez ela queira ter dito “naturalidade”, “sem grilos” ou questões...

Mesmo assim. O grande problema é que ela é a Ana Carolina, ela já tem uma vida formada, tem uma carreira, fãs que gostam dela, alguns justamente porque ela é assumida e não porque ela vive tranquilamente sem falar a respeito. Penso que devemos olhar em volta, para aquilo que não corresponde apenas à nossa vida. Essa questão de privilégios é importante pensar. Ela tem privilégio por ter uma carreira, mesmo sendo bissexual. Ela tem privilégio por ter fãs, mesmo sendo bissexual. E, mesmo sendo bissexual, ter dinheiro. É normal para ela, mas acho que as pessoas deveriam ter um pouco de empatia para as condições dos outros.  Há estados em que as pessoas sofrem seriamente por serem diferentes, que não conseguem viver tranquilamente, que estão sendo expulsas de casa, demitidas do trabalho, que não conseguem viver com naturalidade por serem gays ou travestis...

- Uma das maneiras que você envia mensagens com criatividade é por meio do stop motion, com As Três Gêmeas...

Essa tem sido a minha maior solução, pois mais que criar conteúdo político e textos para as pessoas refletirem, vi o resultado de se criar entretenimento. É a nossa principal porta para normalizar todas as nossas expressões humanas. O espectador vê o mundo de fantasia, um vídeo divertido e vai aceitando quase sem perceber. Dizem: “ah, que legal, bacana...”. O nosso projeto começou com a campanha internacional It Gets Better, criado nos EUA por conta da onda de adolescentes gays que se suicidavam. Bolei um roteiro anti-bullying e fiz um vídeo de ovinhos com uma amiga fotógrafa, até hoje é o que tem maior resposta. Fiz dois cursos de roteiro e o projeto virou uma microempresa.

De qual maneira essas bandeiras contribuem para a sua vida?

Sinto que sendo engajada influencio principalmente as pessoas em minha volta. Por exemplo, tenho amigas que se sentem mal por serem quem são, fisicamente, e que passaram a se sentir melhor graças ao feminismo. A Kate Winslet [atriz] disse em entrevista que nenhuma mulher fala que gosta do seu corpo. E eu parei para pensar: realmente todas as mulheres se criticam. E de onde vem todo esse ódio? Esse sentimento de que não somos suficientes? Quando comecei a trabalhar com essa luta, que é muito difícil, comecei a rever os meus conceitos, mudar positivamente a minha forma de me observar e observar o mundo. E junto, o meu círculo de amigos... 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

Marcella disse...

Quanto, quaaanto orgulho dessa moça que desconstrói todo tipo de comportamento, cheia de opiniões fortes, inteligente e liiinda! ♥
Que entrevista incrível Neto!
Adorei as questões abordadas, pontos chave sobre o machismo inserido na sociedade e como isto afeta as vidas das mulheres todos os dias.

Parabéns para os dois jornalistas talentosíssimos!!

Pathy disse...

A Matéria está incrível.. A Melissa consegue se expressar tão bem que fica difícil não para e refletir sobre o machismo escancarado que sofremos no dia-a-dia!
Parabéns pra vocês dois por essa matéria maravilhosa!
<3 <3 <3

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