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“Escrever politicamente correto é manter a hipocrisia”, diz Walcyr Carrasco após polêmica com travestis


Várias travestis e transexuais se revoltaram nessa quinta-feira [18] com o capítulo de Amor à Vida, da TV Globo. A trama, escrita pelo autor Walcyr Carrasco - e que não tem nenhuma personagem ou atriz trans - utilizou várias vezes a palavra “traveca” – termo pejorativo e que o grupo tanto combate - para referir-se às travestis.

A primeira, quando Carlito [Anderson di Rizzi] comenta que Paloma é nome de “traveco” e o termo é reproduzido diversas vezes por Márcia [Elizabeth Savalla] e Gentil [Luiz Melo], que diz "Eu lá sou homem de andar com traveca?". Depois, é usado novamente quando Michel [Caio Castro] entra em um hospital com um vestido. 

No grupo Mundo T-Girl, do Facebook, trans dizem sentirem-se agredidas. Verônica Scheiffer escreveu: Imagina você jantando com o seu namorado e a família dele e, de repente, aparece a cena dos personagens: 'Você está me trocando por uma traveca?'. 'Vê lá se sou homem de andar com traveca. É no mínimo constrangedor e desrespeitoso"

Paloma Rivera comentou: “Eu vi e fiquei chocada, um verdadeiro insulto, me senti ofendida”. Já Maryana Mondress: “Não acredito que ele tenha feito por mal, mas de qualquer forma ele deve se inteirar dos assuntos da comunidade em que ele faz parte”. 

A recepcionista e artista Kimberly Luciana Dias – que participa do Trans em Debate - encaminhou uma mensagem ao próprio autor: “Traveca foi citada no mínimo nova vezes em sua novela hoje...  Como travesti e admiradora do seu trabalho e telespectadora da sua novela me senti humilhada pelo seu texto, em que diminuiu a nossa identidade”. 

“UM AUTOR NÃO DEVE MOSTRAR UMA VISÃO ILUSÓRIA

Em declaração exclusiva ao NLUCON, Walcyr Carrasco explicou que não se trata de transfobia e nem de um deslize. De acordo com ele, um autor não deve mostrar uma visão ilusória e hipócrita do mundo. “O preconceito existe, sim, e é expresso de várias maneiras. Inclusive usando termos pejorativos, como ‘traveca’ por pessoas que, de fato, pensam que estão fazendo uma brincadeira, sem consciência do conteúdo do preconceito”. 
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O autor afirma que a intenção é mostrar como as pessoas falam no cotidiano e, como resultado, acabar com o preconceito. “Mostrar como as pessoas realmente se comportam é uma maneira de eliminar a hipocrisia. E eu acho que escrever de forma politicamente correta é, sim, maneira de manter hipocrisia, porque o preconceito permanece, na prática. E tem mais, uma novela é uma obra de 200 capítulos e não pode ser analisada por uma única cena”.

Em seu Twitter, Walcyr falou sobre o assunto: "Recebi muitas reclamações de travestis e transexuais pelo uso do termo 'traveca'. Mas um autor deve mostrar como o mundo é, e não como devia ser". 

Ao ser questionado se, em algum capítulo, pretende contra argumentar ou corrigir algum personagem na próxima utilização da palavra ‘traveca’ – e, assim, educar os telespectadores sobre o termo pejorativo e a solicitação das travestis – o autor ainda não retornou. 

"Seria uma boa ter alguma informação na próxima referência, pois apenas reproduzir o preconceito não traz nenhum resultado positivo ao grupo", sugere Kimberly. Marynara vai mais longe: "Se é para mostrar o mundo como ele é, por que não chamou Félix [Mateus Solano] de bicha e viado?". 

É para pensar...

Atualizado 2:29/  Walcyr respondeu ao NLucon: "A contra argumentação tem que ser no conjunto da novela, na sua mensagem, não cena a cena. Senão, a novela perde a estrutura como obra. Na vida real, não é assim, não há o caso de alguém falar traveca e alguém imediatamente contra argumentar. Assim, como não se contra argumenta em relação a virgem gorda, ao gay enrustido..., mas é no conjunto da história que a novela mostra a que vem. Senão não corresponde à realidade". 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

2 comentários:

melissa b disse...

Se fosse na vida real me sentiria ofendida.sendo uma obra de ficçao fico ate feliz que este termo tenha sido usado por personagens que caricaturam gente ignorante e alienada..que e quem tem mais preconceito.dei muitas risadas.isso sim..paloma e mesmo um nome comum entre nos transexuais.nada a ver esta polemica..

Ricardo Aguieiras disse...

eu gosto muito do Walciyr Carrasco, tanto como escritor e novelista quanto como articulista. Mas acho que, sim, tem que ter um contraponto. Sei que uma novela de TV não pode ser julgada e analisada por uma cena, mas pelo conjunto. Porém, sabendo-o um escritor politizado e que também luta por Direitos Humanos e LGBT, penso que ele deveria PRIMEIRO, em primeiro lugar, ter mostrado imagens positivas de trans* e travestis, para depois colocar tais falas. Lembro-me, agora, que num passado até recente negros e negras só podiam ser serviçais em novelas de tv, empregadas domésticas e mais nada. Foi justamente por muita briga e discussão do Movimento Negro e de outras entidades contra o racismo que esse quadro mudou. Então, trans* e travestis não podem se calar, não. Mesmo que ainda seja somente uma cena. Por que não mostrou, primeiro, uma trans ou um trans bem sucedid@s? Ou uma travesti lutando para manter sua agência de publicidade? São só exemplos... depois poderia , claro, mostrar o outro lado. Só que o que estamos constantemente acostumad@s a ver na TV e nas novelas é que as tais cenas politicamente corretas prometidas não aparecem nunca, ou são muito tímidas. Portanto, temos que reagir, sim.
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

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