Entrevista

'Há muitos gordinhos que não se olham no espelho', diz editor de revista ursina


Desde outubro de 2007, Marcelo Gomes de Andrade, de 43 anos, ressalta a beleza de homens gordinhos, fortes, peludos e seus admiradores. Criador da revista online Bear Mais Magazine, cuja equipe é formada por Gilbert Gilbat Assat, Tino Chagas, Julio Vargas e Alberto Dualib, ele promove mensalmente o debate sobre o universo ursino e aumenta a autoestima de muita gente.

Tudo começou com um blog chamado Marcelo Radical, em que trazia matérias sobre festas voltadas para o público bear e um concurso intitulado Barbie Ursina. Tornou-se mais tarde um site e, em janeiro de 2011, lançou na internet primeira edição da revista independente com 52 páginas. Na capa e nas mais de 100 páginas mensais , eles exploram variados tipos de beleza em criativos ensaios.

A Bear Mais Magazine divulgou, por exemplo, os ursos magias Wellinton Bianzeno [que é gogobear e foi destaque do LUV, da MTV], Rafael Bertolucci [em um ensaio à lá Crepúsculo], o espanhol Fonsi Dfer, o inglês Brent Cage e até o astro Colton Ford. E está em constante crescimento e evolução – apesar das dificuldades de encontrar apoiadores.

Também traz reportagens diversas, dentre elas, a de pessoas que fizeram redução de estômago e a que fala sobre drag queens que gostam de ursos. Outro destaque é a entrevista com o colunista de teatro Michel Fernandes, um ursinho deficiente físico pra lá de talentoso e cheio de força. Abaixo, o editor fala sobre os bastidores, dificuldades, elogios e curiosidades:

- A Bear Mais Magazine aparece na internet como um espaço que ressalta que não há problema em ser gordinho, ao contrário, que é muito bom e gostoso. De qual maneira, ela mexe com a vaidade dos ursos?

Há homens gordinhos que não se olham no espelho, pessoas que têm certo preconceito de gostarem do próprio corpo por ele estar acima do peso. Além dos familiares dizerem que não é bom ser gordo, a sociedade cobra mudanças e bombardeia com notícias de regime, academia, produtos lights e valoriza somente quem está dentro do padrão, inclusive o mundo gay que valoriza os malhados. Por causa disso, os ursos observam a revista como um espaço que vale a pena ver, se ver e de posar. É claro que não colocamos hiper gordos  pois estaríamos ajudando a piorar a sua saúde. Optamos por modelos gordinhos ou parrudos e saudáveis.

- Já escutou algum agradecimento de ursos a respeito da valorização da beleza ursina?

Sim, de vários! Temos até uma seção na revista (bearmail), em que muitos dizem que gostariam de estar no lugar dos modelos que posam. Nas redes sociais, muitos que não são bears, inclusive mulheres, dão força total aos rapazes. Algumas mulheres dizem que gostariam de ter um veículo assim para elas.

 Brent Cage, Rafael Betolucci, Wellinton e Juan Munoz

- E, me explica, o que é ser urso?

Existem duas visões e um debate grande sobre isso, que ainda hoje é falado na comunidade, seja na questão do corpo ou do comportamento. Em minha opinião, ser urso é alguém que batalha para ser diferente do mundo LGBT, é alguém masculino e que tem biótipo de urso, ou seja, acima do peso, malhado ou não, e que goste de ter pelos. É, precisa ter pelos para ser um digno bear. Eu, por exemplo, sou mais chubby, pois não tenho pelos em excesso, mas meu comportamento é “urso”. Adoro a comunidade e os sem pelos também fazem parte da comunidade.

- Essas definições, na vida prática, valem para alguma coisa? Ou seja, existem ursos efeminados? Ou ursos que fingem ser masculinos para serem aceitos?

Esta questão é muito delicada, pois mexe com os egos de vários. Infelizmente existe “panelinhas” na comunidade e muitos defende “masculinização” dos ursos, colocando regras dentro dos grupos, o que acho desagradável. O que deve ser falado é que muitos são efeminados e que tentam entrar naquelas de imitar, se vestir igual, pensar como eles, sendo que no fundo gostariam mesmo é de “soltar a franga”. Não fazem porque têm medo de serem rejeitado pelo líder da panelinha e, claro, pelo resto do grupo.

- Vejo que muita gente fala que gosta de ursos, mas na verdade gosta dos sarados peludões. Isso ocorre também?

Sim, tem gente que reclama por alguns modelos não serem parrudos. Teve um dizendo: ‘ah, desta vez capricharam com o modelo, do mês passado era feio’. Mas beleza é algo muito relativo e focamos também na atitude do modelo.

- Neste sentido, qual capa fez mais sucesso?

Como bom olheiro, a capa de mais sucesso foi a do Wellington Bianzeno, de abril de 2012. O ensaio foi feito seis meses atrás, ele começou a dançar na Bear Cantho e depois participou do Luv, da MTV. Foi um estopim, com 4.500 downloads e fechou com 17 mil. E também a do espanhol Juan Munhoz, que é a edição mais baixada, com 21 mil downloads até hoje. Hoje, muita gente sonha em ser capa da revista, é uma grande evolução.

- Quem seria o sonho de consumo para ser capa da Bear Mais Magazine?

Muita gente sonha de fato um belo muscler bear, daquele tipo americano, porém existem pessoas que gostam de biótipos diferentes na edições como, por exemplo, um ursão negrão que ainda não colocamos. O [ex-BBB e psiquiatra] Marcelo Arantes, por exemplo, é um dos ursos que o público sempre pede por e-mail. E até alguns atores pornôs do universo bear.


- O grande Colton Ford foi capa, como foi essa façanha?

Olha, não foi fácil, Neto! As negociações com estrangeiros demoram... O Colton tem uma página oficial no Facebook e mostrei o site para ele no fim de 2010 e somente 10 meses depois ele me retornou, aceitando a proposta e pedindo para eu falar com o empresário, Matt Motina, que é dono da gravadora que ele canta. Matt foi um amor e foi ele quem fez toda a mediação do contato, enviando as respostas e as fotos, duas delas inéditas. O resultado foi o melhor que tivemos até hoje e, portanto, valeu a pena esperar. Os leitores elogiaram a edição com a entrevista, mas muitos não gostaram por causa do corpo malhado e a ausência de pelos. Conformei falei, muitos ursos têm preconceito com determinados biótipos.

- Conta algumas curiosidades dos bastidores. Como consegue colocar os modelos? Alguns já deram em cima de você?

Já falaram até em teste do sofá, acredita? [risos]. Mas, não, prefiro que conquistem apenas como amigo. Não me envolvo com nenhum modelo e alguns trato como irmãos, como o Camus Bear, que foi capa três vezes, Bruno Squilaro, que me ajudou em um momento difícil da minha vida. Tento ajudar a esclarecer as dúvidas sobre os ensaios e tento ao máximo evitar papo que vai além do limite de uma conversa normal. As dúvidas geralmente são se o ensaio será picante e se vai “ter foto de pinto” [risos]. O que sempre digo durante as negociações: ‘Ousem mais, assim mais gente vai falar e elogiar’ e o resto é com os modelos.

- E o que já aconteceu durante os ensaios?

Muitas coisas. A mais engraçada ocorreu no ensaio do Sérgio Di Bernardi, em um sítio em São Roque, com o fotógrafo Marcostudio. Havia um portão de madeira na entrada e Sergio estava de lado, com a calça abaixada mostrando a bunda. De repente do outro lado do portão, apareceu uma moça e o Sergio começou a falar com ela, que respondia educadamente. Até que ela falou: “Posso deixar algo para o senhor?” e jogou por debaixo do portão. Era um panfleto com o nome em destaque “Jesus te ama” [risos]. Não vendo a cena que estávamos fotografando, ela desejou “Deus te abençoe” e nós ficamos pasmos, pois nem podíamos acreditar que era uma evangélica do outro lado do portão!

- Qual é a maior dificuldade de fazer a revista?

Ainda falta de recursos. A revista precisa de anunciantes pagos, pois precisamos de investimento para os ensaios e os custos. A revista é totalmente de graça e precisa negociação com os modelos, fotógrafos e colaboradores. Muitos optam para outras fontes rentáveis, como um trabalho em uma revista oficialmente imprensa e que pagam. Também sinto dificuldade dos anunciantes e até das festas de ursos, que poderiam utilizar a revista para a divulgação.


- Como foi a sua entrada no universo ursino?

Foi por acaso. Em 2006, quando assumi de fato ser gay, meu primeiro amigo foi um urso do Orkut. Na época, ele era ligado à comunidade e, inclusive, era dono de uma comunidade da rede de ursos da capital paulista. Através dele conheci a Ursound e, conversando com os frequentadores, percebi a falta de informação no meio. Vejo que entrei na época certa para conhecer este universo.

- O que as pessoas não sabem sobre você e que você poderia contar?

Muita gente pensa que sou uma pessoa nervosa, solitária e metido. Quem me conhece de fato sabe que não é bem assim. Passo nervoso sim, devido à falta de ética de pessoas que não respeitam a minha pessoa, mas sou atencioso demais e às vezes sou bem ingênuo com elas. Gostaria de fato encontrar uma pessoa pra namorar e até casar, mas o fato de mexer com modelos, alguns bonitos, faz que muitos afastam de mim pensando que sou um tarado e só estou neste ramo só pra trepar com eles.

- Qual é o seu maior sonho?

Sinceramente, não penso em sonhos e sim projetos a serem criados. Em 2007, sonhava um mundo melhor para os ursos, pois acho eles um exemplo de vida , que batalham pela comunidade forte e unida, apesar de estarmos longe disso. Hoje, sonho com um carro cheio de ursos em uma Parada do Orgulho Gay de São Paulo, com todos juntos, levantando a bandeira que é deles, não somente a do arco-íris, afinal os ursos também estão na comunidade LGBT, não é?

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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