Entrevista

“Noite gay ainda tem preconceito com música brasileira”, diz Renata Peron


Renata Peron é abusada, cantora, trans e guerreira. Dona de uma voz que resgata com maestria a valorização da música brasileira, a artista lança nesta quinta-feira [4] mais uma novidade: o CD Guerreira, às 21h30, no Coconut Brasil, da Lilian Gonçalves, em São Paulo.

Comemorando os suados e gloriosos 10 anos de carreira, Peron traz a tradicional música brasileira - desta vez - com batida eletrônica. Serão 10 faixas, quatro inéditas, que rompem com os preconceitos artísticos, de gênero e sexualidade. Sim, agora ela deixa a drag queen e assume 100% o lado trans.

A artista nasceu em João Pessoa, Paraíba, mas foi criada em Juazeiro, Bahia, ao som de Altemar Dutra, Bethania e Caetano. Veio a São Paulo em busca de seu sonho. Foi estátua viva, sofreu um ataque transfóbico [no qual perdeu um rim], mas gravou dois CDs e um DVD, cantando Noel Rosa.

Em entrevista exclusiva ao NLucon, a cantora fala sobre as dificuldades da carreira, público gay e sonhos. Renata afirma ser respeitada e odiada por muitos profissionais da noite. Entenda o motivo:

- Você é conhecida por cantar música popular brasileira, mas agora vem com uma batida eletrônica. Como surgiu a ideia?

Foi uma questão mercadológica. Como gosto de trabalhar com música brasileira e o público geralmente gosta do enlatado americano, decidi incorporar a batida eletrônica para o meu som. Pensei em mesclar essas duas culturas para chamar atenção desse público jovem: levar cultura brasileira e fazer todo mundo dançar. Admito que era um pouco preconceituosa com a ideia, mas quando comecei a ter contato com a batida, vi que estava ficando sensacional. Definitivamente, não podemos ter preconceito com música, aliás com nada.


- As músicas são regravações ou autorais?

Sou intérprete, mas tenho amigos que compõem, como o Domingos Moreira, e que fizeram quatro músicas inéditas para este trabalho. Serão 10 músicas. Trago também clássicos de Clara Nunes [Guerreira], Carcará, que tem uma versão bem diferente, Rita Lee [Erva Venenosa] e a espanhola Todos me Miran, de Gloria Trevi, que fala sobre a aceitação de uma trans. Serei amada ou odiada com esse trabalho e estou ansiosa para saber.

- Sua ideia é começar a tocar em boate? 

Tenho três músicas feitas para casas noturnas, mas sinceramente não sei se esse mercado vai me abraçar. A noite gay ainda tem preconceito com música brasileira. Muitos gays ainda tem a mentalidade de que não pega bem gostar, que não está na moda. Tem gente que até se acha menos atualizado, fino e inteligente se admitir em uma roda que gosta de MPB, acredita? Hoje, ainda só faz sucesso música enlatada americana e até artistas brasileiros estão cantando em inglês. O que eu quero mostrar é que a música americana tem o seu espaço e que a brasileira também pode ter.

- Você disse que os gays não curtem tanto MPB. Então quem são os seus fãs?

Meu público é misto. Vai desde senhorinhas, que gostam de música antiga, até jovens de 15 anos, que gostam do meu trabalho. Tem até aqueles que não gostam do estilo, mas valorizam o fato de eu cantar com a minha voz.

- São 10 anos de carreira. O que poderia falar sobre essa trajetória?

Assim como o nome deste trabalho, sou uma guerreira. Trata-se de uma trajetória muito difícil. Além da vida do artista ser complicada no Brasil, tem o fato de eu ser uma transexual. Quando uma trans cantou em uma abertura de novela? Tocou na Brasil FM? Fez a música de um comercial de TV? Somos um país que fala que temos liberdade, democracia, mas é uma mentira. Estou há 10 anos no mercado e as rádios não sabem quem sou eu. Nas casas gays, eles pagam 15 mil para um bofe, uma cantora héteros, mas não querem pagar 500 para uma artista da própria comunidade. É complicado.


- Chegou a levar o trabalho para as rádios?

Contratei uma pessoa para levar o meu trabalho. Quando ele mostrava o som, todos gostavam e aplaudiam. Mas quando mostrava a minha imagem e dizia que eu sou uma transexual, mudavam a expressão, diziam para deixar o CD lá e que, depois, eles entrariam em contato. Nunca entraram...

- Chegou a pensar em desistir?

Meu amor, não se faz artista e eu sou artista. Continuar não é uma opção, é uma necessidade natural. Não por causa dos ‘nãos’ que eu vou abandonar a minha carreira. A arte está na minha alma e eu tenho certeza que estarei com 70 anos cantando, independente do que acontecer. Quero que saibam que não estou gravando CDs apenas para ter uma vida financeira melhor – é claro que se eu cair nas graças do público, será uma realização. Mas é algo que vem de dentro, é uma necessidade, é a minha missão no mundo.

- Em nossa última entrevista, você se definia como drag, mas hoje você é trans. O que mudou?

Eu sempre fui trans, mas tinha medo. Desde sempre as pessoas viam uma mulher em mim, tanto que, quando eu cantava de homem, as pessoas riam e, quando eu cantava de Renata, as pessoas aplaudiam. No início, falei que era drag por achar que seria mais lúdico, que sofreria menos preconceito e que daria mais certo. Fui experimentando, vendo quais elementos chamariam mais atenção, mas vi que não fazia diferença [risos]. Então, f*@(@-#2, sou uma trans cantora.

- O que as demais artistas da noite pensam sobre você?

Elas me respeitam, mas me odeiam [risos]. Muitas me acham arrogante, por eu cantar com a minha voz, não dublar e considerar medíocre quem fica apenas mascando chiclete no palco. Mas não sou contra a dublagem, muito pelo contrário, acho maravilhoso o trabalho de artistas que fazem homenagens, tem uma direção e que são verdadeiras profissionais. Acho que me olham meio assim, porque sei que sou boa, boto a lenha pra ferver e não vou deixar de cantar para dublar. Entre cantar e dublar, nunca tive dúvidas. 


- Você chegou a fazer alguns trabalhos na tevê. Chegou a tentar o The Voice?

Não sou deslumbrada com tevê, sei que é tudo fake. Fiz participações no Qual é o Seu Talento? e no Programa do Ratinho para desencargo de consciência. Não me chamaram porque eu sou cantora, mas porque sou caricata. Sei que, se tivesse agradado, como eles disseram no ar, teriam outra postura e me chamariam para outras participações. O Ratinho disse que tenho uma belíssima voz, mas nunca mais. Então, não acredito.

- Qual é o seu sonho?

É apenas sobreviver do meu trabalho, ser reconhecida nacionalmente com uma transexual que tem talento como cantora. Sei que isso pode nunca acontecer, mas não custa sonhar e tentar, né? 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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