Pride

Morre Fernanda Müller, a estrela que se divertiu sendo travesti


A comunidade LGBT perde mais uma de suas grandes estrelas. A travesti Fernanda Müller morreu na sexta-feira [5] aos 41 anos, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Com 25 anos de carreira, a performer  foi internada em abril deste ano no Hospital João Penido com sintomas de trombose, sofreu um AVC em maio e, nos últimos dias, estava em coma induzido.

Talentosa, articulada e com excelente senso de humor, Fernanda deixou uma legião de fãs, amigos e o legado de seus divertidos e ricos trabalhos. Entre as inúmeras apresentações, desfilou como rainha de bateria da Escola de Samba Turunas do Riachuelo, foi Miss Maranhão Gay e teve programa de tevê. Isso sem contar as performances e a direção artística em casas noturnas. 

Durante um depoimento em 2006 para um grupo de jovens, a artista afirmou que se divertia sendo parte do grupo T. “Eu sou tão feliz que me divirto sendo travesti. Adoro passar cheque, quer dizer, adoro assinar o cheque para ver a cara do povo [vendo o nome masculino]. Para algumas pessoas é ofensa, mas para mim, não, é diversão. Faço até pose para os olhares”, disse.


NÃO NASCI ERRADA, NASCI DO JEITO QUE ERA PARA NASCER

Defendendo que travesti pode exercer qualquer profissão, Fernanda dizia que o grupo trans já havia se livrado de grande parte do preconceito.“Sou técnica de contabilidade e isso era muito na época, foi uma sorte. Hoje, não é caso de sorte, é caso de força de vontade. Você pode travesti e ser médica, pode ser travesti e ser presidente. Hoje, você pode ser o que você quiser”.

A artista declarou que sempre soube que era trans e que aos oito anos teve a sua primeira relação sexual. “Dei para a rua inteira [risos]. E eles falavam que, se eu não desse, contariam para a minha mãe. E eu, adorando, dava e pedia para eles não contarem. Quando eu fiz 11, eles estavam com 13 e arrumaram namoradas. E eu disse: ‘Ah, não quer me comer mais, não? Então tá, vou contar para a sua namorada [risos]”.

E fazia questão de desmistificar algumas falácias: “Odeio essa coisa de ‘existe uma mulher preza dentro de mim’. Tá preza? Então solta essa mulher, tá preza por causa de quê? Ou então: ‘Você nasceu no corpo errado’. Que é isso, eu nasci certa. Era para ser isso daqui mesmo: um homem, que tivesse cara de mulher, que colocasse peito, não tem nada de errado”. Palmas!

O velório será Parque da Saudade e o enterro está previsto para este sábado, às 9h

Abaixo, duas apresentações:  


About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

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