Realidade

Papa Francisco vem ao Brasil para mensagem de amor ou homofobia?


Em meio a vários protestos, o papa Francisco chegou ao Brasil nesta segunda-feira (22) para presidir a Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Considerado uma “nova, fofa e mais humilde” cara da Igreja Católica, o pontífice argentino andou de carro comum, beijou uma criança e falou no Palácio da Guanabara "botar fé nos jovens". “Estes jovens encontram em Cristo as respostas para suas mais altas e comuns aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os irmanem para além de toda diversidade”.


Ops, diversidade?!? O que o "reinado" deste papa fala de fato sobre a diversidade? Neste mesmo evento, a igreja católica decidiu remarcar as suas opiniões sobre o que é ética por meio de um “kit peregrino”, que debateu assuntos como aborto, reprodução assistida e, claro, homossexualidade. E, para quem esperava uma nova visão, com um pouco menos preconceito e mais mensagens de amor ao próximo, enganou-se. O conservadorismo da igreja ainda prevalece fortíssimo. 

Nesta cartilha, na resposta da pergunta “Todos os modelos familiares seriam válidos, desde que a criança seja amada?”, a igreja se posiciona contra a adoção de casais formados por dois homens ou duas mulheres: “Não basta [amar ...]. Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”. 

Na questão “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia?”, respondem: “Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbis homossexuais não é legítima”. 
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Eles ainda esbarram na questão de gênero – que englobam também os transexuais e as travestis -  e apresentam duas charges. Uma em que um homem pergunta: “Bem, que gênero vou escolher para este ano?” e outra “Não sou homem? Eu? Então o que é isso?”, em que mostra uma pessoa olhando para a sua genitália. Para a igreja, desacreditar no corpo é “querer uma sociedade baseada em uma ilusão”.

“Ele já teve dois atos discriminatórios”, diz presidente do Grupo Gay da Bahia

O presidente do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott afirmou que, apesar de toda simpatia e carisma, Francisco já praticou dois atos discriminatórios contra a comunidade LGBT. “Em sua primeira encíclica, Lumen Fidei, ele condenou as uniões homoafetivas ao restringir o casamento apenas à união de homem e mulher. Além disso, vai canonizar o homofóbico Papa João Paulo II, que fez essa condenação: o homossexualismo é intrinsecamente mau”.

Marcelo Cerqueira, presidente do grupo Quimbanda Dudu de Negros Homossexuais, declara que o Brasil é um país laico, portanto não deveria ser espaço para a igreja influenciar direitos humanos dos homossexuais.”Se até a Rainha da Inglaterra, chefe da igreja Anglicana, aos 87 anos, aprovou nesta semana a legalização do casamento homoafetivo, é inaceitável esta resistência arrogante do Vaticano em reconhecer e abençoar o inevitável reconhecimento universal do ensinamento de Jesus: ‘Amai-vos uns aos outros”.

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais também divulgou por meio de nota que pede igualdade de direitos e que se organiza para demonstrar afeto publicamente – com um beijaço - durante a vinda do papa. Há, inclusive, uma petição pública para que a Igreja retire a condição de pecado ao uso do preservativo, anticoncepcionais, sacerdócio das mulheres, comunhão dos divorciados, homossexualidade e abordo. Ela pode ser assinada aqui. http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2013N42620

“A igreja muda de maneira própria”, diz cientista religioso

O sociólogo e cientista religioso Tiago Duque diz que há destaques positivo no novo pontífice, mas que a comunidade LGBT realmente não deve esperar mudanças. “Um papa franciscano que denuncia a ‘globalização da indiferença’ e que afirma que os pastores tem que ter o cheiro das ovelhas’, evidentemente deve ser visto como um sinal de mudanças e esperanças. O discurso tem pode e, nesse caso, não é diferente”. 

Ele afirma que a igreja muda de uma maneira própria e ainda não é capaz de se pronunciar a favor dos direitos LGBTS. “Muitas coisas podem ser transformadas, no entanto, fora da exclusão econômica, há uma dimensão de exclusão que é moral. Nesse aspecto, em termos de sexualidade e gênero, não devemos esperar muito. A Igreja muda de uma maneira própria. E a sociedade precisa de mudanças que ela ainda é incapaz de oferecer, mesmo porque a maior parte dos fiéis não aprovaria as mudanças que muitos de nós tanto desejamos”. 

O dramaturgo Carlos Correia Santos, que é gay e católico, tem uma opinião mais positiva sobre a vinda do papa no Brasil. “Ele chega para fazer avanços estratégicos no cenário católico. E essa estratégia pressupõe passos após passos. Primeiro, precisamos entender que o catolicismo tem seus pontos pétreos. E, um desses pontos é a união entre homem e mulher, um conceito que não nasceu ontem, mas milenar desde Adão e Eva. É complicado exigir a quebra imediata de algo assim”. 

Para ele, Francisco ainda não tem força política dentro do Vaticano para derrubar certas clausulas. “Mas a igreja mostra que, sim, está se movendo a aberturas e reformas. Penso, sinceramente, que ele está semeando terreno para, num futuro, fazer isso”. 
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Confira outras opiniões: 

Rose Castilho, jornalista: “Acho que a vinda dele contribui negativamente. Ela inflama muito mais o sentindo de religiosidade conservadora nas pessoas em geral. Li que estão distribuindo um livreto que fala contra adoção por homossexuais na JMJ. Não que possamos esperar algo diferente dos altos cargos da igreja católica. Mas da parte da comunidade LGBT, principalmente da parte religiosa, como o pessoal da Diversidade Católica, acho que é hora de pregar ainda mais que Deus ama a todos sem distinção de sexo, cor ou orientação sexual”. 

Zeca Bral, designer: "Não considero nada positiva a vinda dele ao Brasil. Além do abuso que este evento representa, dada a soma dos gastos com dinheiro público [320 milhões], foi distribuída o tal kit peregrino, que reforçam valores antigos da igreja. Se Jesus tivesse vivo hoje e fosse falar sobre paz, juventude e amor, não precisaria mobilizar 320 milhões. Não me simpatizo co uma igreja que é contra a liberdade dos indivíduos, que quer oprimir sujeitos por meio de dogmas". 

Ricardo Rocha Aguieiras, militante: "Penso que a religião Católica tem feito muito mal aos LGBT's em geral... Esse papa nada o difere em termos práticos, com relação aos LGBT dos anteriores. O Papa Francisco já se declarou contra o Casamento Gay. Ele pode ser bem menos "raivoso" que o anterior, o Bento XVI, mas ele nada disse ao nosso favor. Não acredito nele". 

Viviany Beleboni, modelo: "Quando existir papa negro, papa mulher, daí existirá igualdade. Como pode uma pessoa falar de igualdade quando a própria crença não existe igualdade? Por que tem que ser papa homem e branco, se Deus não possuía sexo? Invés de ficare endeusando uma pessoa, param e reflitam: Existe apenas um Deus, não é Deus quem está no Brasil e, sim, um porta-voz de crenças impostas por um livro, que existem inúmeras interpretações". 

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

1 comentários:

K.I.M.B.E.R.L.Y disse...

Também pensei que esse Papa poderia a vir romper barreiras na Igreja Católica, mais vejo que está indo de água abaixo o que pensei, já era de se esperar, e acredito que em um futuro próximo eles vão pedir desculpas a todo mal que fizeram e contunua prefgando aos LGBTS, e prefiro acreditar que DEUS não é preconceituoso..

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