Pitacos

O dia em que o papa mudou a minha opinião


Depois de publicar a reportagem “Papa Francisco vem ao Brasil para mensagem de amor ou Homofobia?”, ir ao Rio de Janeiro e ver o papa pop na última quinta-feira [25], outras reflexões ecoaram e desafiaram os espíritos de insurreição e entendimento. Estar diante das emoções dos peregrinos e da revolta de moradores cariocas que tiveram a rotina interrompida durante a JMJ me catapultou para a importância de uma figura única e pra frente em uma instituição arcaica. 

Mas em quê o papa muda nossas vidas? Particularmente, nada. Mas se pensarmos que 60% do país é católico [IBGE] e que muita gente segue tais valores religiosos, é importante prestar atenção no discurso da igreja.  

Bandeiras de todos os países circulam pela cidade e um mar de gente caminhava para Copacabana. Também caminhei pela orla, sentindo o frio congelar as narinas e observando as várias conversas que se estabeleciam em meio, claro, das tentativas de fotos turísticas. Todos estavam maravilhados com o papa e com o momento histórico. Quando um grupo de duas garotas e um garoto de Minas Gerais me perguntou [em vão] sobre algum local, devolvi: “O que faz vocês gostarem tanto do papa?”. 

Todos se entreolharam e uma das garotas falou: “Pela mensagem e pelas transformações que ele quer causar dentro da igreja”. O que? Mas que transformações são essas, sendo que até mesmo o kit peregrino, distribuído durante a JMJ pela igreja católica, reforçam a posição conservadora da igreja sobre temas tabus como homossexualidade, aborto...? “Preste atenção no que o papa diz”, pediu a garota, salientando a palavra PAPA. Ela emendou mais algumas palavras e saiu em busca do tal lugar em que iam se encontrar com outros peregrinos.


Caminhei e pensei em levar em consideração a declaração anterior de que até mesmo os ateus podem ir para o céu e que o mais importante é o bem que as pessoas fazem. Ou então, quando pediu para que os pastores tenham cheiro de ovelha, dando exemplo ao caminhar, inclusive de automóvel popular, como mais um. Porém, por outro lado, poderia condenar sua vinda com o uso do dinheiro do governo brasileiro, com a declaração contrária ao casamento gay e logo ele não passaria de um lobo em pele de cordeiro.

Eu estava com a vista de frente para o mar da praia de Copacabana quando o papa se aproximou com o seu tradicional papamóvel. Ele andava sereno, sem pressa, parando a cada assinada, se prontificando a estender as mãos e a beijar cada criança no colo. Os gritos não abalavam seus ouvidos e o seu semblante continuava calmo como se, sinceramente, dissesse: “Não mereço nada disso”, semelhante ao discurso no Vaticano em que admitia nutrir muitos pecados. E foi com essa atitude “de igual para igual” que percebi o despertar de tantos sentimentos.

Francisco abandonou a postura de papa Deus, papa soberano, papa inquisidor e que apontava pecados. Este já seria um grande pequeno passo. Senti que ele também quer algumas mudanças, tem sincera humildade em mãos, mas que ao mesmo tempo está com os punhos e pernas amarrados pela instituição tradicionalíssima. Tanto que, após demonstrar compaixão pelos ateus, o chefe da TV católica Salt & Light, do Canadá, Thomas Rosica, desmentiu o papa e disse que os ateus ainda vão para o inferno se rejeitarem a Deus. Tanto que, aquele kit peregrino que mostra [sim] a opinião da igreja, não foi encaminhado pelo Vaticano. 

Se prestarmos atenção nas declarações, o discurso do papa fala muito mais sobre amor e dá muito mais puxões de orelha na igreja que o contrário. Ele afirmou que a igreja não é uma instituição criada por um grupo de pessoas, mas que é uma obra de Deus composta por pastores e fieis com seus defeitos e pecados. E até declarou que o  jovem que não protesta não o agrada. “O jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias”.



Fui embora do Rio mais simpatizado e menos revoltado com a vinda caótica do novo papa, que deu um movimento diversificado na tradição católica - apesar de estar distante do ideal. E me surpreendi nesta segunda-feira [29] com uma nova frase dele durante o voo do Brasil à Itália: “Se uma pessoa é gay e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Ele diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas que devem ser integrados à sociedade”. 

Apesar de ele patinar depois ao falar sobre lobby gay, foi um passo, importante, acolhedor e, claro, histórico. Afinal, nunca outro papa se mostrou tão simpatizante ao grupo - para se ter uma ideia, Bento XVI chegou a declarar que "salvar" gays é tão importante quanto salvar florestas. Só resta esperar e saber se alguém vai desmentir ou adaptar o discurso dele... E se o papa Francisco vai conseguir driblar com sua imagem as demais cadeiras conservadoras, como não conseguiu em relação ao sacerdócio feminino.

Vale lembrar que o papado está só começando e que, ao contrário de cargos políticos que terminam em quatro anos, como bem lembrou minha amiga e jornalista Melissa Miranda, ele terá tempo suficiente para provocar mudanças. Enquanto isso, farei o mesmo que a peregrina, focarei nas mensagens do papa para ver os frutos da abertura deste novo terreno. Que assim seja!

* Este é um artigo de opinião, aqui estão retratadas as minhas impressões momentâneas. O objetivo do NLucon é debater sob todas as perspectivas e continuar, sempre, lutando pelos direitos LGBTs.

About Neto Lucon

Jornalista. É formado pela Puc-Campinas e pós-graduado em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Escreveu para os sites CARAS Online, Virgula e Estadão (E+), Yahoo!, Mix Brasil, no jornal O Regional e para a revista Junior. É autor do livro-reportagem "Por um lugar ao Sol", sobre pessoas trans no mercado de trabalho. Tem quatro prêmios de jornalismo, sendo dois voltados para as questões trans, Claudia Wonder e Thelma Lipp

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.